QUEM AMA CUIDA V
Outro dia
garimpei numa rede social uma pepita valiosa: um vídeo de José Antonio
Fernández Bravo, doutor em Ciências da Educação, licenciado em Filosofia e
especialista em gestão de centros educativos. Ele tem dedicado boa parte da vida
a “escutar” as crianças e a pesquisar sobre o aprendizado da matemática,
compartilhando a experiência e os resultados por meio de livros e de palestras
sob o título: Aprendemos juntos - Um projeto de educação para uma vida melhor.
A certa
altura da explanação, calcado em exemplos da sua experiência como professor ele
afirma que as crianças o ensinaram a “escutar”, esclarecendo que escutar
significa perguntar porque as crianças dizem o que dizem e fazem o que fazem. Assevera
também que elas o ensinaram a calar para que falem, porque somente o silêncio é
que conquista as vozes das crianças.
Segundo
ele, muitas vezes dizemos que não há razões para uma atitude porque
desconhecemos as causas pelas quais as crianças se expressam. E quando as
respostas não coincidem com as que esperamos não significa que não há razões.
Significa apenas que há uma discrepância entre o que desejamos e o que obtemos,
revelando que o método adotado deve ser modificado para atingir o aprendizado
desejado. Agindo assim, aprendeu a imaginar respostas que não houvera
aprendido.
Então,
fiquei a imaginar que se tal questionamento serve para o ensino da matemática,
na perspectiva de que o aprendizado torne alguém mais inteligente e uma pessoa
melhor é razoável aceitar que é capaz de contribuir para que as crianças no
cotidiano da vida, mormente no convívio familiar, sejam menos ansiosas e mais confiantes,
mais bem-humoradas e menos propensas à irritação e a crises de choro, ou de
outra forma dizendo, sejam mais felizes
e de bem com a vida.
Não sem
propósito, afirmo que o falar e o agir das crianças está associado, em grande
medida, a como elas se sentem por conta das emoções que vivenciam no dia a dia,
que, por sua vez, tem tudo a ver com as atitudes dos adultos, diante delas e em
relação a elas. Contudo, não me cabe aqui elencar um rol de justificativas
inócuas que são repetidas por muitos adultos e que, a rigor, são só desculpas
que servem de pretexto para deixar as
coisas assim como estão, de mal a pior.
Ademais,
o intuito deste texto é tão somente sugerir que cada um, mirando nas suas
crianças, questionem os porquês delas dizerem
o que dizem e agirem como agem, abraçando as respostas advindas dessas
perguntas. Quem o fizer, buscando as respostas no reflexo do espelho da própria
consciência, por certo se surpreenderá ao encarar as causas – muitas delas
óbvias, que fazem com que suas crianças sintam o que sentem e se comportem como se comportam.
E, enquanto
a vida seguir adiante sem que as respostas sensatas sejam convertidas em
mudanças de atitudes, muitas crianças continuarão perdendo, pouco a pouco, a
capacidade de sorrir e de ser feliz, porque estão à mercê dos malefícios que caem
da densa nuvem da tristeza que envolve seus lares, por conta da falta de
atenção e de afeto, de repetidas incompreensões e desavenças, além de agressões
físicas ou verbais motivadas, a título de exemplo, pelo consumo de bebidas
alcoólicas.
A
propósito disso, é preciso gritar para que toe como alerta e quem tiver ouvidos
que ouça: a bebida quando deixa de ser um hábito salutar tem que ser abandonada
em favor da convivência saudável e sobretudo da saúde emocional dos filhos.
Desculpas, irritação, desavenças e blablabá, de nada servem para mudar o que deve
ser mudado e só contribui para piorar o que já está ruim.
Neste contexto, vale a pena destacar que a solução para algumas situações de estresse, depende apenas de umas pitadas de bom senso e de mudanças de atitudes quase imperceptíveis. É o caso do choro sentido de uma criança inconformada por não poder repetir a sobremesa. A solução passa por servir metade da quantidade aceitável para consumo e em seguida, se for o caso, a outra metade. É uma maneira de educar para consumir doces em geral com moderação, e para saborear as refeições, com disciplina, na quantidade suficiente para saciar a necessidade de se alimentar.
No mais, por ser pertinente, lembro-me do José Rubens Zaitune, saudoso pediatra dos meus filhos, que afirmava - não necessariamente com estas palavras - que a melhor forma para acalmar uma criança quando está chorando muito ou expressando muita irritação, é o comprimento dos braços e a capacidade dos adultos de envolvê-la, ou seja, de abraçá-la, de demostrar compreensão e de transmitir carinho. Pois é, ainda que a vida esteja difícil a solução pode ser simples assim.
Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor
da UFMT
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