NÃO É O TEMPO QUE TUDO CURA

Aprendi, já faz algum tempo: depois que temos filhos e filhas, notícias sobre crianças e jovens nos atingem como se falassem deles ou delas, sobretudo quando envolvem tragédias. Aprendi, também, com a experiência de terceiros que não existe dor maior do que a provocada pela perda de um filho ou de uma filha, qualquer que seja a etapa da vida em que ocorrer.

Pois bem, a dor pela perda em circunstâncias trágicas de um filho em um caso e de uma filha em outro caso foi vivenciada pelos que vieram de mim, por aqueles que poderiam ter vindo de mim e por pessoas pelas quais tenho apreço. É o acaso mais uma vez se fazendo presente: inesperadamente, prematuramente e violentamente.

Diante dessa fatalidade que nos deixa a todos impotentes, busquei antigas anotações pessoais resultantes de um momento de perda, para provocar reflexões no ambiente familiar sem o propósito de minimizar a dor, pois não há como abrandá-la nesses momentos de despedidas. O fiz, tão-somente, para reafirmar um entendimento que tenho sobre a vida e sobre a morte:

Quando a morte se fizer presente em teu universo, mesmo que de forma violenta, prematura e inesperada, não te tortures nem maldigas o teu Deus e nem a quem quer que seja. Nem mesmo a morte. Pois, independente do teu querer ou poder ela é inevitável e necessária. Em vez disso, ore em silêncio ao teu Deus para ele confortar o teu espírito e te dar forças para entender e aceitar o destino de cada um.

Nesta vida temos que cumprir o nosso destino, seja ele qual for. Temos todos, um caminho a percorrer. Ocorre que o caminho de uns é menor do que o caminho de outros. E, quando esses caminhos se cruzam ou se tocam é porque pertencem a destinos que estão entrelaçados e interdependentes. Neste existir o destino de uns serve para fazer cumprir o destino de outros.

Quando alguém que amamos morre, nós morremos um pouco também. Leva parte de nós e nos deixa muito de si: exemplos, palavras e gestos que ficarão presentes em nossas lembranças, pois, ninguém verdadeiramente morre enquanto for lembrado. E apesar da ausência física e da saudade, as recordações, em vez de tristezas e amarguras, devem trazer alegria, felicidade e a certeza de que valeu a pena a convivência por menor que tenha sido.

Por fim é fundamental compreender que não é o tempo que tudo cura. Só o amor tem esse poder. A morte assim como a vida que a antecede é temporária. Ao contrário, os laços de amor que nos unem são eternos e ultrapassam dimensões. Por isso, para além da morte, resta-nos crer no amor e na certeza do reencontro. Um inevitável e maravilhoso reencontro.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT

(*) foto do https://pixabay.com/pt/  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog