QUEM AMA CUIDA VI

Não tenho por hábito assistir a novelas. Todavia, noite dessas, enquanto revisitava algumas frases soltas anotadas para novas crônicas, ouvi a seguinte frase num diálogo entre um casal da novela Renascer: “Na vida tem certas coisas que a suspeita vale mais que a certeza”.

Mesmo sem saber o contexto no qual foi usada, a frase  despertou minha atenção e me fez recordar de uma frase reiterada por meu avô materno: “Caranguejo por conta de camarada ficou sem pescoço”. Era assim que ele alertava os netos para serem desconfiados na vida.

Aqui me cinjo à desconfiança que tem por propósito proteger crianças e adolescentes de abuso sexual. Nesse sentido é válido jogar luzes numa recomendação que tive acesso no mundo digital, orientando para não centrarmos a atenção em pessoas estranhas e sim em atitudes estranhas, porque a maioria esmagadora desses abusos são praticados por pessoas conhecidas.

Fazem parte desse rol de inimigos íntimos: pais e avós, tios, primos, padrastos e até irmãos; vizinhos, amigos desse ou daquele membro da família e, também, pessoas outras como médicos, treinadores, professores de dança, de música, de esportes em geral, além de padres e de pastores. E o abuso ocorre quando a vítima passa muito tempo sozinha com o abusador.

Uma leitura menos atenta pode dar o entendimento de que estou generalizando e colocando em suspeição familiares e profissionais que exercem suas funções com decência. Diversamente disso, o intuito é alertar para que fiquemos atentos à maneira que se comportam com as crianças e adolescentes, pois os sinais por mais disfarçados que sejam estarão à vista.

Portanto, antes de sair espalhando confiança é prudente se permitir ao exercício da dúvida, pois é melhor se precaver da maldade do que buscar meios para superar as sequelas decorrentes dela. E, além disso, desconfiar com esse propósito não significa cometer injúrias.

A opção por confiar sem atentar para os sinais – muitas vezes revelados em certos olhares, certas brincadeiras, certos elogios e certas carícias, tem possibilitado a ocorrência reiterada, ou não, de estupros de vulneráveis. No lar e fora dele: na casa de pessoas conhecidas ou na residência de amiguinhos ou amiguinhas dos filhos ou filhas, além de escolas e até dioceses.

Cito aqui casos públicos de abuso sexual para reforçar a importância de ter desconfiança em relação às atitudes estranhas de familiares e de outras pessoas conhecidas, além de ter muito cuidado com quem você confia pra cuidar dos seus filhos e com os locais onde você os deixa:

Em 2007, na cidade de São Paulo, um empresário foi detido pela Polícia Federal acusado de abusar sexualmente da filha e transmitir as imagens ao vivo pela internet. O caso estava sendo investigado desde 2004 pelo MPF. Na época, a criança tinha a idade de 9 anos.

Em 2021, o empresário Paulo Molinari de Poços de Caldas foi condenado a 25 anos de prisão pelo crime de estupro continuado por abusar sexualmente da filha de 25 anos desde a infância. Segundo relato dela a primeira penetração ocorreu na casa dele quando tinha 9 anos.

O empresário não permitiu que a filha, fruto de um relacionamento extraconjugal, ficasse com o padrasto porque ia sofrer algum tipo de abuso. Por isso foi morar com os avós em cuja morada ocorriam abusos quando ela estava sozinha. A mãe a encorajou a fazer a denúncia, após encontrar um pen drive com vídeo gravado pela filha e usado em vão para ameaçá-lo. 

Em 2022, o padre Nelson Koch, que abusou sexualmente de crianças e adolescentes, em Sinop-MT, foi condenado a 48 anos de prisão por importunação sexual e estupro de 3 adolescentes. Uma das vítimas sofreu abusos aos 9 anos. Em confiança, os pais, deixavam ele e o irmão mais novo na casa do amigo padre quando participavam de festas na paróquia.

Em 2023, o ex-técnico da seleção brasileira de ginástica artística, Fernando de Carvalho Lopes, teve a pena de prisão reduzida para 28 anos pelo crime de estupro de vulnerável contra 4 vítimas. Ele se aproveitava do cargo de liderança de ginástica artística do Clube Mesc, no ABC Paulista.  Mais de 40 ginastas revelaram ter sofrido abusos entre os anos 1999 e 2016.

Por fim, por ser de todo pertinente e propositadamente redundante, eu findo este texto por onde comecei, ou seja, “Na vida tem certas coisas que a suspeita vale mais que a certeza”. 

Fernando Nogueira de Lima é administrador, engenheiro eletricista e foi reitor da UFMT

OBS.: Disque 100 para denunciar abusos sexuais e outras violações de direitos humanos.

OBS.: O Brasil registrou 83.988 casos de estupro em 2023, contra 78.887 em 2022, ou seja, uma variação de 6,5%. Considerando apenas os casos de estupro de vulnerável, o crescimento foi de 7,5% (59.761 casos em 2022 e 64.237 em 2023).

Foto: https://pixabay.com/pt/vectors/detetive-procurando-homem-procurar-1424831/


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