NAS ASAS DO VENTO

Mesmo que ocorra depois que o sol se ponha além
Ainda que seja durante uma das madrugadas
Ainda que anualmente e com poucas badaladas
Que o soar de todos os sinos se igualem

Mesmo que na lei não haja registro ou lastro
Ainda que seja ao longo do ano num único alvorecer
Ainda que permaneça tão-somente até o entardecer
Que todas as bandeiras sejam hasteadas a meio-mastro

Mesmo que não esteja na norma vigente
Ainda que se dê apenas na disputa final
Ainda que seja um só minuto de alerta geral
Que o silêncio consciente se faça presente

Mesmo que na pedagogia não esteja inserido
Ainda que a lição não seja matéria eliminatória
Ainda que seja numa aula específica (com breve oratória)
Que o risco dos horrores de outrora seja lembrado e banido

Mesmo que não faça parte de cada existir
Ainda que não seja em todas as habitações
Ainda que demore para se transformar em ações
Que a palavra certa ensine a importância de resistir

Mesmo que o bullying seja entre os de pouca idade
Ainda que seja fruto do prestígio e da influência
Ainda que nas escolas prevaleça a conivência
Que o silêncio não seja maior do que a verdade

Mesmo que se queiram soldados do egoísmo
Ainda que haja a cultura patriarcal que amordaça
Ainda que ignorem a força de cristal que estilhaça
Que desde cedo não se alimente o egocentrismo

Mesmo que insistam em narrativas ineficazes
Ainda que continuem a dar ênfase em clichês
Ainda que isso contribua para tolher a lucidez
Que haja formas outras para evitar a ação dos algozes

Mesmo que todo abuso seja normalizado
Ainda que até as mortes sejam só algo para noticiar
Ainda que a agressão venha de quem deveria acariciar
Que todo agressor seja denunciado e condenado

Mesmo que não seja olho por olho, dente por dente
Ainda que seja merecedor do antigo testamento
Ainda que se cumpra o quinto mandamento
Que a prisão – sem apelação, seja permanente

Mesmo que a função seja vitalícia
Ainda que se questione a legitimidade
Ainda que prevaleça poder da unidade
Que nenhuma suspeição seja apenas notícia

Para que a lei não seja desrespeitada
Não se preste a conveniências de ocasião
Não tolere evasivas ou negligência na ação
E nem venha a ser por todos desacreditada

Para que todos estejam conscientes
de que há predadores no poder, na sala de estar,
na escola, no treino e na igreja - a espreitar
e que são prepotentes ou gentis e sorridentes

Para que não se ignore os alertas costumais
do ciúmes excessivo e do querer ser temido
do sorriso escasso e quase sempre comedido
e das chantagens repetidas, veladas e emocionais

Para que todos se protejam da cumplicidade
que há entre a brutalidade e a falácia
entre a impunidade e a violência
e entre o conformismo e a criminalidade

Para que elas não confiem em pactos incertos
nem creiam que engajamentos inibirão as agressões
Por não atingirem as raízes das cruéis motivações
são incapazes de impedir comportamentos violentos

Para que entendam que conselhos midiáticos não são solução
capaz de alterar a macabra rotina do crescente feminicídio
que tem jogado as que dizem NÃO na vala de um genocídio
e que existem com o propósito único de raptar nossa comoção

Para que se dê um basta a tanta crueldade
que campeia solta por todos os cantos e lados
derramando até o sangue de "imaculados"
e desnudando a impotência da sociedade

Para que nas uniões ainda que fugidias
o sentimento de posse não seja capaz de florescer
a separação seja acolhida com o fim do recíproco querer
e a traição não transforme lares em palcos de tragédias

Para que se empunhe com confiança e precisão
a empatia para que as barbáries arrefeçam
o respeito para que os preconceitos não aconteçam
e a educação para o enfrentamento da desumanização

Para que não demore o raiar de um novo dia
em que a brutalidade dê lugar à serenidade
a vida triunfe sobre a perversidade
e a concórdia seja travessia e guia

Para que as novas gerações sejam cientes
de que o perigo pode estar à espreita
na próxima esquina -  à esquerda ou à direita,
revestido de narrativas e de falas eloquentes

Para que não aceitem os afagos
Entre o esquecimento e o desconhecimento
Entre o noticiário e o entretenimento
Entre o poder constituído e os interesses pagos

Para que se afastem das afinidades
Entre a fé cega e as idolatrias
Entre as vãs promessas e as distopias
Entre as mentiras e as leviandades

Para que não duvidem da proximidade
Entre as leis e a prática do casuísmo
Entre o populismo e o continuísmo
Entre o que é dito e a falsa verdade

Para que condenem as rimas (sem exceção)
Entre democracia e demagogia
Entre harmonia e fantasia
Entre conscientização e polarização

Para que saibam rimar (na ação)
A liberdade com responsabilidade
A probidade com equidade
A corrupção com indignação

Para que compreendam a diferenciação
Entre dialética e retórica
Entre alteridade e ideia antagônica
Entre direito e livre manifestação

Para que sejam conhecedores
Da realidade nua e da história
Da leitura e da escrita como formas de alforria
Da resiliência diante dos desafios e dos dissabores

Para que consigam constatar
que mesmo as eleições confiáveis,
de resultados incontestáveis,
não afiançam, por si só, a soberania popular

Para que sejam capazes de iluminar suas mentes
diante da escuridão que se agiganta,
e sem grito algum preso na garganta
lutem em prol da vida e da  liberdade (com unhas e dentes)

Fernando Nogueira de Lima é Doutor em Engenharia Elétrica

* Foto: https://pt.vecteezy.com/fotos-gratis/vento



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