EU E O DISCO VOADOR

Na primeira vez que fui ao Rio de Janeiro, hospedei-me em um Hotel no Aterro do Flamengo. Eu não ignorava os riscos da violência urbana e fui abraçado pela sensação de que seria assaltado a qualquer momento, em qualquer local. A violência nas cidades já era veiculada, em horário nobre, não só para informar, mas, também, como estratégia de interesses políticos.

Certa noite, decidi andar nas imediações do hotel. Logo depois, minha atenção se voltou para algo luminoso lá longe, no céu, numa noite de poucas estrelas. Então eu pensei: será aquilo um disco voador? Uma nave pilotada por feios alienígenas, habitantes do planeta Marte?

Fiquei ali imóvel de tudo, exceto do pensamento que excitava a mente, pois eu nunca imaginara que teria a experiência de ver a comprovação de que há vida inteligente noutros planetas. Quiçá de alienígenas que detêm saberes e tecnologias para a cura do câncer e de outras doenças que desafiam a nossa inteligência rudimentar, quando comparada à deles.

Acreditando que esse tipo nave pode se deslocar velozmente pelo espaço sideral, me questionei: ora, se discos voadores podem se mover rapidamente em qualquer direção, por que será que esse continua ali parado, aumentando e diminuindo, vez por outra, o brilho da luz que irradia? Então, senti um calafrio percorrer minha espinha dorsal e os pelos ficarem arrepiados. Isso porque, conclui que eles poderiam estar procurando alguém para abduzir.

Olhei para os lados e vi poucas almas vivas. Todas agindo com naturalidade sem olhar para cima. Imaginei que por conta de poderes alienígenas, só eu podia ver aquela luz tão diferente. O hotel ficava a menos de uma quadra, mas meu temor alertava que se eu tentasse correr para lá, um feixe de luz percorreria o espaço e eu seria sugado por ele na direção da nave hostil, antes de chegar ao hotel. Correr, decerto, não seria saída para continuar na terra.

Não houve contato telepático, porém não descartei que já estavam sintonizados na minha mente e que já sabiam que a civilização, aqui, não aprendeu a respeitar o ciclo natural da vida nem a praticar a justiça imparcialmente e, tampouco, a abominar a iniquidade. E mais, que bate palmas para os que dissimulam e se locupletam. Quem sabe seja isso que justifique a captura de cobaias na perspectiva da sobrevivência, por causa da escassez de alimentos no planeta deles.

PQP! De que me adiantou ter tanta cautela em relação aos riscos que nos noticiários abundam, se agora eu estava diante e à mercê de um perigo bem maior. Num assalto há chances de continuar vivo, tipo vão-se os anéis e ficam os dedos. Mesmo em caso de bala perdida, existe chance de sobreviver. Não pensei em sequestros porque família de professor não tem como pagar resgate algum. Mal consegue pagar todas as despesas fixas e a educação dos filhos.

Por conta do silêncio dos seres verdes, de olhos grandes e com antenas na cabeça ou porque a nave - que era bem maior do que a estrela vênus - não se movia, eu, que nunca pratiquei o conformismo, caminhei devagar na direção do hotel. Na minha mente um slogan: “perdido por um perdido por cem” e, vez por outra, eu retornava receoso meu olhar lá para o alto.

No hotel nada comentei, apenas dei boa noite ao pessoal da recepção e fui direto para o quarto. Tomei um banho para abrandar a tensão e uma dose de whisky para afastar o nervosismo. Em seguida, movido pela curiosidade, fui até a janela e constatei, ao espiar pela brecha da cortina, que a nave continuava lá. Apaguei as luzes, me cobri todo, fiz minhas orações e adormeci.

De manhã, ao despertar, tomado pelas emoções da noite anterior, caminhei até a janela, abri a cortina e pude ver no topo do morro do Corcovado, a 709 metros acima do nível do mar, iluminado pelo sol, o majestoso Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara. Não resisti e fiquei a sorrir de mim mesmo, ao sentir que lá do alto a estátua dava boas gargalhadas.

Parafraseando a letra da canção que diz: “Eu vou fazer uma canção de amor/ para gravar num disco voador/ Uma canção dizendo tudo a ela.../ Para lançar no espaço sideral/ Minha paixão há de brilhar na noite/ No céu de uma cidade do interior”, eu vou fazer uma canção de dor para lançar no espaço digital, dizendo a todos do meu inconformismo e indagando o que deve ser feito para tornar reto o que torto está. Para calar o brado que inócuo está. Para pensar no amanhã agindo com a razão. Para a luz brilhar na noite. No céu da democracia e da civilidade.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT

Foto:https://pixabay.com/pt/vectors/ufo-extraterrestre-verde-297549/


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