DE VOLTA PARA A INFÂNCIA

Meu avô materno era um homem destemido, alto e caucasiano. De pouquíssimos sorrisos e de pouca conversa. Vez por outra, ele fazia alertas para os netos e, nessas ocasiões, recorria a histórias da sua vida. Para explicar porque não devíamos interferir nas desavenças alheias, sobretudo em briga de casal - nem mesmo quando se tratasse de parentes, ele nos contava um fato ocorrido na cidade de Goiana, em Pernambuco, quando era jovem:

Ele andava a cavalo nos arredores da cidade, levando mercadorias na cangalha de uma mula quando ouviu alguém gritando: - Socorro! Ajude-me, por favor! Virou-se e viu que era uma mulher que corria em sua direção aos prantos, sendo perseguida por um homem que com um chicote tentava açoitá-la e, por isso, ele apeou do cavalo decidido a ajudá-la.

Mal havia desmontado, ela se jogou ofegante sobre ele agarrando-se com força às suas pernas e suplicando: - moço, não deixe ele me matar. Ele então fez sinal com a mão esquerda para que o agressor se contivesse, e disse em alto e bom som: - senhor, não bata mais nela. E o dito-cujo, em tom ameaçador, retrucou: - se não bato mais nela, então bato em você.

Dito isso, deu-lhe uma chicotada que ele descrevia assim: - o chicote assobiou no ar, passou por cima da cabeça, escorreu pelas costas e estalou no lado direito da minha bunda. Ao descrever o ocorrido, movimentava os braços, assobiava e fazia o som de uma lapada para simular a trajetória e o som provocado por um chicote deslocando-se no ar e estalando no seu traseiro. Em seguida, direcionando o dedo, afirmava: - tenho até hoje a cicatriz, aqui.

E prosseguia a narrativa, dizendo: - quando a mão dele ficou ao meu alcance, segurei o chicote com a mão esquerda, próximo ao cabo, e com a mão direita puxei a faca da bainha e desferi um golpe, de cima para baixo, com intuito de atingir a mão dele. Ao relatar isso, repetia os movimentos que fez para segurar o chicote, desembainhar a faca e atacar, esclarecendo que quando o chicote atingiu seu traseiro a faca se achegou à mão do agressor.

Vocês estão pensando o mesmo que pensei na primeira vez que ouvi esta história, ou seja, que o homem foi gravemente ferido. Mas, não foi isso o que sucedeu, pois, ao ver a faca, na iminência de atingir sua mão, ele soltou o chicote. E, sem pensar duas vezes, meu avô desferiu, com o cabo do chicote, um golpe forte e certeiro na testa do oponente de ocasião.

Essa parte era a que eu mais gostava de ouvir, pois além de fazer os movimentos do golpe como se voltasse no tempo, ele reproduzia em voz alta o som da pancada na testa do valentão: - TÊÊÊÊIIIIIIIIIIIIIINNNNNNNNNNNNNNNNN. E dizia que devido à força do golpe, o homem foi projetado para trás, rolou ribanceira abaixo, caiu de cabeça pra baixo no capinzal com as pernas pra cima, mexendo-as que nem preá (que ele nos mostrava movimentando os dedos médio e indicador) e que, em seguida, ficou imóvel.

Nesse instante, segundo ele, a mulher gritou: - Socorro! Ajudem-me, por favor! Por isso, ele virou-se para ela dizendo que se acalmasse, pois não havia mais perigo dela ser agredida. Contudo, para seu espanto, ela gritou mais alto: - Socorro! Polícia! Mataram meu marido!

Agora imaginem vocês a cena: homem inerte no capinzal, mulher gritando o que gritava e ele com uma faca na mão. Não deu outra: meu avô montou no cavalo e disparou em fuga de volta para casa no interior da Paraíba, deixando, para trás, a mula e as mercadorias.

No percurso deu de cara com homens cavalgando o que fez seu cavalo assustar e empinar. Enquanto tentava sossegar o animal um dos homens gritou: - por que a pressa meu jovem? E sem esperar resposta disse: - eu conheço o seu pai e se você está fugindo sua fuga termina aqui. Acalme-se. Ele, então, apeou do cavalo, relatou o ocorrido e ficaram à beira da estrada proseando até terem certeza de que ninguém o perseguia para, só então, seguirem viagem.

Depois de alguns meses, ele voltou à Goiana e ao adentrar um armazém, cruzou com o agressor que portava uma visível cicatriz na testa, acima do olho esquerdo, e que fingiu não o reconhecer, desviando o olhar noutra direção e indo em frente sem olhar para trás. Quanto à mulher sem vergonha e à mula com as mercadorias ele não as viu nem teve notícias delas.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em Engenharia Elétrica e foi reitor da UFMT.

(*) foto do https://pixabay.com/pt/

OBS: No caso de violência contra mulheres (ligar 190 ou ligar 180?)

Em situação de urgência, emergência ou agressão, ligar 190, pois em caso de flagrante, a polícia pode intervir imediatamente. Nas demais situações, ligar 180 - Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas, mas não aciona de imediato a polícia para ir até o local e sim encaminha para órgãos competentes e para a equipe psicossocial, entre outros procedimentos pertinentes.


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