QUEM AMA CUIDA IV

Em um filme que assisti na TV, tempos atrás, o pai levava a filha à escola e, em dado instante, movida pela rebeldia própria da idade, ela  disse algo do tipo: - pai, não sei o porquê de você dirigir tão devagar, melhor seria vir à pé, pois eu chegaria mais cedo na escola. Ele, então, respondeu: - filha, eu dirijo devagar porque estou levando comigo o meu bem mais precioso.

A meu ver, não se tratava apenas da velocidade empreendida, mas também da cautela que se deve ter para proteger quem se ama, evitando colocá-las em situações de risco. Nesse sentido, por conta da negligência dos adultos que deixam de fazer o que deveriam fazer ou da imprudência que é fazer o que não deviam fazer, as crianças, por não terem senso de segurança estão sujeitas a acidentes graves em casa e nas imediações dela, locais que podem dar falsa confiança aos adultos.

Devido ao verão direciono minha atenção para riscos em locais com água, onde alguns segundos de desatenção são suficientes para ocorrer uma tragédia. Dados da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático-SOBRASA (2022) dão conta de que a cada uma hora e meia, um brasileiro morre afogado, sendo que 59% das mortes na faixa de um a nove anos de idade ocorrem em piscinas e residências. Crianças com menos de nove anos se afogam mais em piscinas e em casa. E maioria das crianças de quatro a doze anos que sabem nadar, se afogam pela sucção da bomba.

Ao utilizar piscinas, deve-se tomar conhecimento se têm acessórios antissucção e botão de emergência que desativa o sistema de sucção, pois a sucção pode fazer com que objetos ou um membro (dedo, braço, perna, cabelo etc.) fiquem presos no ralo. Nessas ocorrências, sem a  negligência, o responsável consegue rapidamente tirar a criança da situação de risco. Assim, em piscinas e banheiras a atenção deve ser redobrada por causa do aparelho de sucção (ralo) da água.

Numa ocorrência que vitimou uma menina que teve os cabelos sugados e presos no ralo, o defensor do Hotel, apesar de assumir que a piscina não tinha esses mecanismos de segurança, alegou que não houve irregularidade porque a piscina era infantil e a criança estava com a mãe.

Segundo a ONG Criança Segura o afogamento além de poder causar danos permanentes no cérebro é a segunda maior causa de mortes por acidentes de crianças. Logo é preciso sempre ter cautela com piscinas domésticas ou coletivas de clubes, de creches e de escolas de natação, até mesmo quando o acesso  a elas não estiver liberado, principalmente durante confraternizações.

Crianças pequenas podem se afogar em qualquer recipiente com mais de 2,5 cm de água ou outros líquidos, como tanques, banheiras de hidromassagem, máquinas de lavar e baldes usados para lavar o pano que se esfrega o piso. A curiosidade dos pequeninos faz com que caiam dentro do balde com água e por não terem apoio para sair nem serem socorridos a tempo, veem à óbito.

No litoral, as causas principais de afogamentos são as depressões no fundo das praias que são buracos produzidos pelas ondas; e as correntes de retorno formadas pelo retorno da massa d’água que é amontoada pelas ondas contra a praia, que, podem, por acaso, arrastar alguém mar adentro e que respondem, segundo o SOBRASA (2018),  por mais de 90% dos afogamentos nas praias.

Em se tratando de crianças deve-se considerar, também, o conhecido “caldo” que é decorrente da pancada de uma onda que as arremessem para baixo. Situação em que elas, ou mesmo adultos, acabam bebendo água suficiente para se afogar. Na praia o lema dever ser: “com o mar não se brinca” e a regra básica é não deixar as crianças sem um adulto atento por perto o suficiente para monitorar o quanto podem se afastar da areia e intervir, de imediato, quando estiverem em risco.

Portanto, todo cuidado é pouco nas atividades de entretenimento nos diferentes espelhos de água: piscinas, praias, lagoas, rios, cachoeiras, represas e outras possibilidades de reservatórios.

Além do afogamento há riscos incomuns como, por exemplo, o risco que existe no desamarrar o laço que prende as sungas das crianças, porque com os movimentos o sexo dos garotinhos pode entrar num dos laços e ao puxar o cordão sem cuidado é possível causar um “estrangulamento”. E desatar um nó molhado sem uma tesoura amolada, creiam, não é, nem um pouco, tarefa simples.

Por fim, para prevenir contra escorregões e quedas, não se deve deixar óleo, shampoo ou condicionador espalhados no chão dos banheiros. Isso porque, geralmente, as crianças brincam e se movem muito ao tomarem banho. E por falar em banheiros, deve-se evitar, a todo custo, que crianças adentrem sozinhas em banheiros públicos, seja nas praias, em clubes, em restaurantes, em shopping centers ou noutros ambientes, pois lá, outro tipo de risco pode estar à espreita.

Fernando Nogueira de Lima é engenheiro eletricista e foi reitor da UFMT

Foto: https://br.freepik.com/fotos/agua

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