A
célebre frase de Joseph Goebbels, ministro da
propaganda na Alemanha Nazista: "Uma mentira dita mil vezes torna-se
verdade", está na ordem do dia e eu não acredito nela. Para mim, uma mentira
sempre será uma mentira. Jamais se converterá em verdade, contudo, na época
atual, inúmeras pessoas, ao que me parece, optaram por viver acreditando em
mentiras.
E
isso ocorre, em parte, porque se acostumaram a crer na
falsa felicidade que abunda nas mídias eletrônicas. Nelas, o que se veicula, em
inúmeros casos, nada mais é do que um conjunto de informações que diferem e até
se contrapõem à realidade vivida pelos autores das postagens. É o tempo das
inverdades virtuais e das angústias quando as luzes se apagam e o sono não vem.
Nos dias atuais, devido ao hábito de compartilhar as
informações sem reflexões ou contextualizações e sem verificar a veracidade
delas, uma mentira partilhada é mais nociva do que outrora. Essa conduta,
associada à incapacidade de análise crítica sobre o que se lê, não poderia ser
diferente, é terreno fértil para germinar a má fé, a desinformação e a
ignorância.
Nesse sentido e a propósito de eleições é mister
observar que essa prática não está desassociada das condições que caracterizam
o nosso subdesenvolvimento, sobretudo devido aos descaminhos da nossa educação,
o que, aliás, justifica inúmeras estratégias que se repetem no cotidiano
político com a finalidade de exercer controle sobre as ações e decisões dos
indivíduos.
Por ser pertinente é preciso pontuar que as eleições em
curso não são as mais importantes da história política do país. Muito menos que
se trata do embate entre as forças do bem contra as trevas do mal. Digam o que
disserem não se trata da mentira de um lado contra a verdade do outro e,
certamente, não se trata do embate entre interesses escusos e propósitos
republicanos.
Também não se trata do apregoado cotejo entre
capitalismo e comunismo; nem tem a ver com um cabo de guerra entre a burguesia
e o proletariado. Tampouco se trata do número de eleitores protestantes ou
católicos; nem se trata de cristãos contra pagãos ou deístas. Nessa linha de
raciocínio, nada tem a ver com a eterna peleja entre Deus e o anjo rebelde
Lúcifer.
A despeito da necessidade premente de ampliação do
nosso universo de bons leitores e de superação da carência continuada de
investimentos para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, com
vistas a uma educação libertadora e para reduzir desigualdades sociais, não se
trata da defesa dos livros e da ciência contra a defesa das armas e das trevas
da estupidez.
Trata-se sim da discórdia desejada e incitada. Tem a
ver com a opção por desinformar, confundir e alienar. Trata-se de alimentar
sistematicamente a prepotência, a idiotice e a mediocridade. Trata-se mormente
da escassez de indignação diante da malversação, da parcialidade e da
impunidade. Tem a ver com a quebra de juramentos e trata-se, pois, da falta de
ética e de moral.
Tem a ver com aliciação estomacal e com perpetuação da
miséria. Trata-se de angariar votos via negócios, dissimulações, demagogias e
promessas vãs que apontam para mais do mesmo. Tem a ver com ativar o emocional
das pessoas para inibir a aptidão de pensar de forma crítica e trata-se da
falta de um olhar epistêmico capaz de mudar certas características da nação brasileira.
Trata-se de fatos ocultados pela densa fumaça de
narrativas e de longas alegações. Tem a ver com justificar o injustificável e
com negligenciar o princípio da boa-fé. Tem a ver com a corrosão das
instituições representativas e dos valores democráticos. Trata-se do sono dos
hipócritas, dos desmemoriados por conveniência e daqueles que são incapazes de
enxergar o mundo real.
Tem a ver com assumir que para vivenciar e garantir a
democracia não basta dispor de um Estado que possui Constituição Federal, leis
ordinárias, medidas provisórias, decretos, resoluções, portarias e toda uma
hierarquia. Para além disso é imperativo que as ações e os posicionamentos dos
poderes constituídos se deem na direção certa e no tempo apropriado.
E evidentemente tem a ver com a reeleição, com a
infidelidade partidária, com as regras para o horário gratuito da propaganda
eleitoral e com o maniqueísmo político que inviabiliza novas lideranças e nega
a pluralidade de ideias. Trata-se, por fim, de ter em mente que mandatos
eletivos são conferidos pela quantidade de votos nas urnas e não de pessoas nas
ruas e avenidas.
Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia
elétrica e foi reitor da UFMT.
(*) foto
https://www12.senado.leg.br/noticias/destaques/eleicoes2022/@@images/image
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