DO MEIO

 

 DA

 

MUVUCA

  

EU


 PENSEI 


EM


VOCÊS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DICAS PARA

QUEM VAI

 LER ESTE LIVRO:

 

  

 

 

 

1. Pegar o dicionário da língua portuguesa e mantê-lo ao alcance das mãos (provavelmente você não vai precisar usá-lo durante a leitura deste livro). Em verdade o que eu desejo é que, doravante, você o mantenha aí ao alcance dos olhos e adote o hábito de consultá-lo, sempre que se fizer necessário para entender corretamente o que leu ou o que ouviu; 2. Desligue a TV e o monitor do computador; 3. Tire esse fone dos ouvidos; 4. Não vou pedir para desligar o celular porque aí seria querer o impossível; 5. Acomode–se confortavelmente onde melhor lhe convier - sofá, cama, rede etc., a escolha fica por sua conta; 6. Certifique-se de que não está com fome nem com sede; 7. Não tenha pressa em terminar esta leitura; 8. Procure identificar as mensagens que estão nas entrelinhas e nas linhas dos textos; 9. Divirta-se, a gente se vê depois do show. Até lá.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Fernando 

Nogueira de Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 DO MEIO DA

 MUVUCA

 EU PENSEI 

EM VOCÊS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cuiabá

2006




 

 

 

 

           Oferecimento

 

Ao meu filho Rafael e às minhas filhas Tatianne e Christiane, desejando que ao longo da vida sejam capazes de apreciar uma boa piada, de preservar o senso crítico, assim como a capacidade de indignação e, quando necessário, de deixar a vida seguir em frente. 

 

  

 


 

 

           Agradecimentos

                                    

Aos professores e amigos Antonio da Silva Moraes e Germano Aleixo Filho, pela paciência na correção dos meus primeiros textos e por despertarem em mim o zelo para com a língua portuguesa e o prazer de me expressar por meio da palavra escrita.

A todos que contribuíram com críticas e sugestões nas diversas versões que culminaram neste texto final.




"...Por isso na impaciência desta sede de saber, como as aves do deserto - as almas buscam beber...Oh! Bendito o que semeia livros... livros à mão cheia e manda o povo pensar! O livro caindo n’alma é germe – que faz a palma, é chuva – que faz o mar..."                         

                       Castro Alves

 

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

 

 

Prefácio...........09

Com destino à muvuca ....................14

Por falar em futebol......................18

De escândalo em escândalo.................21

Nem toda brasileira é bunda ...................25

Comendo pizza impunemente.............28

Justiça seja feita ..................................31

Tudo na vida tem o seu tempo ...............33

Desgraça pouca é meio de vida ............36

Eureka .............39

O óbvio ululante.....................41

Que pais é esse? ..................................44

Balançar a roseira ..................................47

Caiu minha ficha!!!! ..................................50

Imponham limites na vida......................52

Santa ingenuidade esta minha................54

Transpirando que nem ela só................58

Juízo. Muito juízo...........................61

A sessão de celebridades.............65

Agora o bicho vai pegar ........................68

Beleza é coisa rara por aqui.....................71

Chuva coisa nenhuma...................75

De frente para o palco.........................76

Uma via de mão dupla.........................78

É mesmo muita cara de pau .........................81

Afinal tudo é normal.......................85

Eu aceito o argumento ................88

Não se deve dar chance para o azar............................91

A vaca vai pro brejo ...................................96

O nome da Banda .................................100

Malhando em ferro frio ..........................102

Nesta altura do campeonato..............104

É dose para elefante ...................................107

         Agora o meu amor é mortal .......................110

         A origem do rock............................114

Enfim e afinal a Bigger Band ............116

Êxtase total.....123

Posfácio..........127

 

 




                                                                                                



 

 

PREFÁCIO (9)

 

 

 

 

FERNANDO GET HIS YA YA YAS OUT

Eu, réu confesso, em 1972, roubei três discos do meu melhor amigo. Os discos: School’s out, de Alice Cooper, Look at yourself, do Uriah Heep, e Through the past Darkly, dos Rolling Stones. O amigo era, e ainda é Fernando Nogueira de Lima, que conheci nos idos de 1968, na portentosa Campina Grande, a Rainha da Borborema, no interior da Paraíba. Parafraseando naquela novela, éramos três, eu ele, e outro chamado Neném, que não vejo desde aquela época. Fernando mesmo, eu não via desde 1980.

Eis que 38 anos depois daquelas caminhadas no Alto Branco, bairro da gloriosa Campina (meu padim ciço, tanto assim?), a gente se reencontra no Rio de Janeiro, no dia do show dos Rolling Stones.

PQP! Quem diria? Naquele longínquo 68, a gente nem sonhava em conhecer o Rio, e muito menos assistir a um show dos Stones ao vivo. Já poder vê-los no cinema, em Gimme Shelter, parecia ser muito, em 1971, acho. E dizer que eu fui pro Rio pra cobrir o show pro jornal!

E eis que eu aqui, no Recife, leio estas crônicas de Fernando. E li de uma tacada só. Gostei da coloquialidade, a ausência de ruibarbosismos, do engenhoso artifício de ter feito o show dos Stones o leit motiv das crônicas. Vai e volta à praia de Copacabana, enquanto vai comentando as mazelas do Brasil, do mundo, das pessoas. Gosto de crônicas, aliás, eu sou cronista dominical do Jornal do Comércio, aqui do Recife. E só não gostei de uma coisa deste texto de Fernando. Acaba logo. Coisa boa tem que demorar mais. Que venham, pois, outros.

 

José Teles

 

PS – Seguinte. Não roubei os discos. Eu morava no Recife desde 1969, e passava as férias em Campina Grande.  Foi vovó, ao arrumar minha mala, que colocou os bichos lá dentro, achando que me pertenciam. Fernando eu continuo te devendo esta, e você me devendo outras crônicas.








OLÁ, PESSOAL 

 

Recentemente conclui um material didático depois de meses de muito trabalho. Fiquei satisfeito com o resultado, porque eu colocara no papel um conjunto de conteúdos na forma em que eu gostaria que tivessem me ensinado. Foram 228 páginas contendo: fórmulas, demonstrações, exemplos, gráficos e dicas para facilitar o entendimento. Ao apresentar o resultado a um amigo de trabalho – também professor – ouvi dele o seguinte alerta:

- Ficou muito grande. Ninguém vai ler. Os jovens de hoje estão acostumados a se comunicar e a aprender por meio de mensagens telegráficas. Por isso mesmo, precisamos nos adequar aos novos tempos, ou seja, devemos ensinar aproveitando a capacidade que a juventude tem de aprender mais rapidamente.

E não parou por aí, dando continuidade às suas alegações:

- Esta era da informação via internet e os recursos tecnológicos disponíveis precisam invadir a dinâmica do processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, os jovens estão, quase que involuntariamente, fazendo a parte deles, enquanto muitos professores continuam fiéis a anotações contidas em folhas já amareladas pelo passar dos anos, não se permitindo a serem pensadores e, com isso, tolhendo a criatividade dos alunos, inclusive.

Embora o assunto possibilitasse uma reflexão interessante e eu concordasse, em parte, com o que havia sido exposto, não entrei no mérito do comentário e a conversa descambou para outros temas.

Quando decidi escrever este livro que se destina ao público jovem, me veio à mente aqueles comentários e me pus a refletir sobre eles. Por fim, partindo da premissa de que a tecnologia atual não deve ser um instrumento inibidor e sim uma ferramenta facilitadora e propulsora do processo de aprendizagem, eu cheguei a algumas conclusões:

Uma delas é que de fato os jovens, hoje em dia, pelo contato com as tecnologias disponíveis, apresentam uma característica de raciocínio que possibilita maior velocidade na apreensão de novos conhecimentos e isso precisa ser levado em conta no processo de ensino-aprendizagem: nas escolas e nas universidades.

Outra conclusão importante advém do fato de que a conjunção entre o excesso de informações disponíveis eletronicamente, com acesso quase que instantâneo, e a facilidade de se comunicarem - com êxito - por meio de símbolos, meias palavras e abreviações podem levar a uma prática que propicia um tipo de preguiça mental capaz de dificultar ou mesmo desencorajar a leitura de textos mais densos ou mais extensos.

Portanto, é necessário saber diferenciar os prós e os contras desta era da informação, potencializando uns aspectos e minimizando os efeitos de outros. Essa é uma tarefa que deve ser objeto da atenção de professores e de pesquisadores. De minha parte, continuo defendendo que o aprendizado via livros – preferencialmente na forma tradicional - e o hábito regular da leitura, aqui incluindo literatura e filosofia, representam práticas essenciais não só para a ampliação de conhecimentos e de saberes diversos, mas também para apurar a capacidade de concentração e o senso crítico. Requisitos esses, indispensáveis para a participação responsável de cada indivíduo no âmbito da coletividade, sem o que determinadas transformações sociais continuarão sendo utopias de uma parcela cada vez menor da sociedade.

Uma última conclusão se refere à constatação de que nem todos os jovens em idade escolar vivenciam esta realidade tecnológica, muitos deles sem renda e fora da escola, indicando que muito ainda há por ser feito em termos da inclusão social e da inclusão digital, no país.

Voltando ao livro decidi apresentá-lo por meio de crônicas, assim os leitores poderão acompanhar o conteúdo por crônica ou conjunto de crônicas.

Decidi também ser econômico e direto na exposição dos fatos e nas digressões que lanço mão para provocar reflexões sobre os mais diversos assuntos. Nesse sentido, evito, na medida do possível, nomes de pessoas e de locais na expectativa de induzir a capacidade de raciocínio e despertar curiosidade. Dentro dessa estratégia, alguns temas que justificariam até mesmo um livro - se abordados na sua plenitude - são inseridos no texto de forma sucinta, porém, contextualizados de tal forma que possibilitem um mínimo de meditação com vistas a uma maior inserção da juventude nas questões relativas aos conflitos sociais e aos conflitos raciais que existem na nossa sociedade, ensejando a rebeldia e adubando, quem sabe, a semente da indignação que está, ao que me parece, ignorada ou negligenciada até mesmo pela juventude.

 

 


  

                       

 

 


COM DESTINO À MUVUCA (14)

 

 

 

 

Rio de Janeiro, domingo à tarde, dezessete horas e quinze minutos. Entramos no metrô, eu e minha companheira de vida, saindo de Botafogo com destino a Copacabana, onde, logo mais, acontecerá o show dos Rolling Stones. Metrô lotado. Apenas uns gatos pingados embarcaram no metrô, nesta estação e neste horário. Na parada seguinte – Copacabana – o metrô ficou vazio. Escadas rolantes e degraus lotados, com movimentação em um só sentido, não sendo necessário conhecer o caminho a seguir, porque a correnteza, na forma de multidão em movimento, certamente, irá desaguar na Avenida Atlântica.

Dei-me conta de que, em tal condição, a minha vontade, na verdade, já pertencia ao coletivo. É como participar daqueles blocos carnavalescos, do tipo o Galo da Madrugada lá em Pernambuco, que arrastam milhares de foliões, ano após ano. É só respirar fundo e quando a multidão passar na sua frente basta dar um passo adiante, ou apenas deixar um pouco mais do que o braço à mostra. A multidão se encarrega do resto. E, uma vez lá dentro, não tem como voltar atrás. A saída é se animar e entrar no clima, mesmo porque a alegria é contagiante. Tem até a história sobre um folião desses blocos de carnaval de rua que bateu as botas no meio da folia e só se aperceberam de que ele havia morrido na Quarta-Feira de Cinzas, quando a turma parou de dançar e o defunto, enfim, pode tocar os pés no chão.

Deixando os exageros de lado, voltemos ao Rio de Janeiro onde a multidão caminha a passos firmes. Ao longo do trajeto cruzamos com muitos vendedores oferecendo cerveja, refrigerante e água, bem como bandanas, camisetas e fitinhas com motivos alusivos aos Rolling Stones. Sem dificuldades, chegamos à Avenida Atlântica onde ainda é possível se deslocar com relativa facilidade. Depois de andarmos um pouco pra lá e pra cá, eu e a minha cara metade, caminhamos em direção ao Hotel Copacabana Palace. Diante dele e a poucos metros do palco e do mar (que já não dava mais para ser visto), nos posicionamos entre os isopores de dois vendedores.

Daqui é possível admirar, à minha direita, bem ali do lado, a beleza do imponente Copacabana Palace onde se hospedaram os Rolling Stones. Sem sombra de dúvidas, um dos símbolos mais conhecidos da cidade, em todo o mundo. Tradição e luxo são marcas indeléveis deste hotel (sem falar no seu inegável valor histórico). As sacadas estão repletas de hóspedes. Algumas concorridas e outras nem tanto. Uma delas, em particular, chama a atenção da multidão que irrompe em aplausos sempre que uma elegante loira, vez por outra, surge na sacada e acena sorrido para a multidão.

Aqui embaixo, a expectativa de todos é de que, pelo menos um dos membros da banda apareça lá no alto e acene para cá. Tem até um vendedor ambulante vendendo binóculos que custam dez reais e que não resistem ao menor impacto. Caiu, já era. Foi o que ocorreu com o meu. Assim, com ou sem binóculos, os olhares se voltavam para cima, mais precisamente para o sexto andar. E, foram vários alarmes falsos. Mas, a turma da banda que é bom, não deu os ares da graça.

O palco lá adiante, à minha esquerda, é de fato apoteótico. Gigantesco. Segundo o que foi noticiado tem 60 metros de largura e 22 metros de altura (equivalente a um edifício de sete andares). Outro diferencial é que parte dele é móvel, o que possibilita avançar uns 60 metros em direção à multidão, podendo ser interpretado como uma gentileza da banda para com os fãs. No centro um enorme telão. E põe enorme nisso, são 12 metros de largura e 13 metros de altura. Tem outros oito telões localizados em pontos estratégicos, mas eu não vi nenhum deles. A ornamentação do palco é multicolorida, onde predominam as cores azul, vermelho e amarelo.

A imprensa falou muito da passarela que liga o palco ao hotel, mas cá pra nós eu não vejo nada de mais nela. Ela está lá apenas para evitar tumultos quando do deslocamento da banda do hotel para o palco e por ocasião do retorno ao hotel, depois do show. Nada mais que isso. A imprensa frequentemente tem dessas coisas, tenta criar sensacionalismo em cima de tudo e de nada. Até parece que não tem o que falar, ou, quem sabe, não quer falar sobre o que devia falar. Também por isso, é que devemos manter o senso crítico diante da TV e em relação ao que se lê.

Por falar em senso crítico diante da TV e em relação ao que se lê, vale à pena manter a vigilância epistêmica e observar que, não raro, do ponto de vista político e comportamental os noticiários, as notícias, as novelas, as propagandas e outras atrações não são imparciais. Muito pelo contrário. E assim, a serviço de uma determinada ideologia ou de interesses específicos, se prestam a veicular um conjunto de informações que, em vez de esclarecer, alienam mais ainda a população em relação à realidade nacional, notadamente no que diz respeito às causas que a ensejam. Nessa perspectiva, também se permitem a difundir comportamentos e atitudes que contribuem explicitamente ou subliminarmente para a negação de ideologias outras. Não só, também contribuem para a inversão de valores e para desacreditar o potencial de mobilização que tem a sociedade, quando devidamente esclarecida, para promover as mudanças exigidas pelo cotidiano nacional na busca de uma sociedade menos excludente. Cá estou eu a tergiversar. Atentaram para isso?

Não sei se vocês sabem, mas essa moda de shows gigantescos com duração de três horas e com palcos móveis e desmontáveis foi inaugurada pelos Rolling Stones, em 1981, durante uma excursão nos Estados Unidos. Eu confesso que sempre tive a curiosidade de ver e ouvir de perto um show como este. Fico aqui imaginando a beleza que vai ser quando o jogo de luzes, lá do palco, for acionado.

Nos edifícios residenciais festas e mais festas, com direito a ornamentações e a muita movimentação. A Avenida Atlântica está preparada para mais uma noite inesquecível.

 

 

 

 

  

                                                   

POR FALAR EM FUTEBOL (18)

 

 

 

 

No céu, lentamente, se desloca o dirigível com propagandas as quais eu não pretendo ler. Tenho dificuldade para ficar lendo com a cabeça espichada para cima, sobretudo quando o alvo e as letrinhas da propaganda estão em movimento (provavelmente por causa da labirintite, esta minha companheira de uns tempos para cá).

Quatro aviões da esquadrilha da fumaça sobrevoam a praia de Copacabana, soltando fumaça cinza (coloquei a cor para evitar a conclusão óbvia, porque água é que eles não iriam soltar, - não é mesmo?) Os aviões iam e vinham sem maiores acrobacias. Na verdade, nenhuma acrobacia, o que é plenamente compreensível, afinal de contas aqui embaixo tem milhares de pessoas se amontoando e, por isso, todo cuidado é pouco. Não quero nem pensar em tragédias, até porque o recorde pretendido é o de maior número de pessoas vivas e não de pessoas mortas, em um show de rock.

Dois helicópteros em movimento se deslocam de um lado para o outro e eu não consigo deixar de pensar na possibilidade deles se chocarem com os aviões. - O que está acontecendo comigo? Não sou pessimista assim, sai de retro ô coisa ruim. Um terceiro helicóptero se mantém parado o que, inevitavelmente, fez-me lembrar do beija flor e do Dadá maravilha, - entenderam? É que recordei daquela frase que diz: só existem três coisas que param no ar; o helicóptero, o beija-flor e o Dadá maravilha quando cabeceia. Para quem não sabe o autor dessa pérola – o Dadá - foi jogador de futebol e o atacante que fez mais gol de cabeça, jogando pela seleção. É incrível como a gente memoriza bobagem nesta vida. Bem que a memória podia ser mais seletiva (pelo menos depois dos cinquenta anos).

Mas, por falar em futebol, lembrei que estamos em ano de copa (2006), e quem sabe ano de mais um título mundial para o futebol brasileiro. Para mim, bom mesmo seria que não houvesse esta coincidência temporal entre copas e eleições presidenciais e para os membros do Congresso Nacional. Isso porque, nesses tempos, devido à nossa paixão por futebol, particularmente pela nossa seleção, a atenção do coletivo se limita quase que unicamente aos jogos e àquelas bobagens do tipo: quarteto mágico, rei, rei de Roma, rei do drible, príncipe, imperador, fenômeno, especialista, melhor do mundo e coisas do gênero. Bobagens essas que, aliás, não ganham copa nem jogo.

Assim, se  o povo, no dia a dia,  já não acompanha a vida política do país com regularidade e na forma devida, que dirá em tempos de copa. Nesses períodos, a porta fica escancarada para ações indevidas no mundo político. Além disso, não nos esqueçamos de que logo depois da copa começa a maratona das eleições para Presidência da República, Governadores, Deputados e Senadores. E nesses tempos, precisamente nesses tempos, não custa nada manter o senso crítico diante das propagandas e pronunciamentos ufanistas, enaltecendo o verde e amarelo. Por ser pertinente, lembro de quando o Brasil conquistou o tri campeonato mundial de futebol, em 1970. Naquela época, enquanto, nas ruas, o povo comemorava o feito, diversos brasileiros eram torturados nos DOI-CODI da vida. Isso mesmo pessoal, a tortura era prática corrente naquele tempo. E mais. Parte dos que foram detidos sumiu para nunca mais voltar. Sobre isso, já foi dito que muitos foram vítimas da prática de lançar corpos em alto mar. Era a época do regime de exceção. Tempos sem democracia, aqui compreendida como a ausência de alternância do poder por meio do voto popular, que vigorou por 21 anos no Brasil.

- Como? Você acha que eu não gosto de futebol e que sou contra o direito dos brasileiros se divertirem? Então você não está entendendo nada do que eu estou dizendo. Sei não, das duas uma: a ficha ainda não caiu, porque você vive sem se aperceber do quanto é importante acompanhar e vivenciar a realidade política do país, ou talvez, você está se fazendo de desentendido quando na verdade está compreendendo muito bem o que estou a afirmar.

Se de fato a sua ficha ainda não caiu, não é motivo para preocupação. Não vai ser por conta da leitura destas poucas linhas que você vai mudar, da água para o vinho, a sua forma de ver e de viver o cotidiano político do país. Seria muita pretensão da minha parte. Mesmo porque meu desejo aqui é, tão-somente, provocar reflexões. Nada mais que reflexões. Mudar ou permanecer na mesma é uma decisão que somente diz respeito a você. Além disso, eu sei que ninguém muda da noite para o dia. As verdadeiras mudanças demandam tempo e bastante introspecção.


 



 

                            

DE ESCÂDALO EM ESCÂDALO (21)

 

 

 

Por estar pensando em política no meio desta multidão, as lembranças da minha pré-adolescência inevitavelmente vieram à tona e me transportaram para o ano de 1968, que foi marcado por muitas mobilizações populares pelo mundo a fora. Aqui no Brasil, não era diferente e as mobilizações contrárias ao regime vigente se dava com a participação de estudantes, artistas, intelectuais e outros setores da sociedade brasileira. As aglomerações, sobretudo, as de cunho político não eram bem-vindas e muitas delas terminavam em correria e pancadaria, devido à repressão policial. Em muitas delas houve detidos e feridos. Esses tipos de mobilizações cessaram com o Ato Institucional 5 (AI-5), divulgado em dezembro de 1968, para coibir a onda de manifestações e protestos contrários ao governo militar. 

Essa realidade começou a mudar a partir da promulgação da Lei da Anistia, aprovada em 1979 que preparou o caminho para o retorno ao regime democrático, beneficiando os que cometeram crimes políticos ou eleitorais e quem sofreu restrições em seus direitos políticos, entre 1961 e 1979, o que permitiu aos exilados políticos a possibilidade de retornarem ao país. A lei também anistiou os militares e os responsáveis pelas práticas de tortura, contudo, não alcançou os condenados por crime de terrorismo, atentado pessoal ou sequestro.

Naquele período, na busca de fazer valer a ideologia que defendiam, os opositores do regime vigente praticaram sequestros de embaixadores que eram trocados por presos políticos, cometeram ao menos dois assassinatos, fizeram assaltos a bancos e a um trem pagador para financiar suas ações na luta armada contra o regime militar, na perspectiva de uma revolução socialista que culminou, na década de 1970, com centenas de mortos, exilados e desaparecidos

A violência não escolhia lado, e quando o processo de abertura para o retorno da democracia estava em curso, houve até um frustrado ataque a bomba ao Centro de Convenções do Riocentro, em 1981, onde ocorria uma comemoração do dia do Trabalhador, impetrado por setores do exército que estavam insatisfeitos com a abertura política. Uma das bombas explodiu dentro do carro no estacionamento do Riocentro, onde estavam dois militares, matando um deles e ferindo gravemente o outro. Uma segunda explodiu, sem alcançar o intento desejado, no pátio da miniestação elétrica responsável pelo fornecimento de energia do Riocentro. No vácuo desse ato extremo, que por pouco não causou uma carnificina, olho para o enorme isopor que está bem aqui do lado e ao imaginar que nele caberia uma bomba eu concluo que, por certo, um show como este não seria autorizado pelos governantes, naqueles tempos. 

Violências à parte preciso pontuar que ente os extremos de uma e de outra ideologia, havia incontáveis estudantes, artistas, intelectuais e outros setores da sociedade brasileira, que clamavam especificamente pelo fim da censura e pelo retorno ao regime democrático que a rigor, na minha opinião, só aconteceu no início de 1990, porque o movimento político de cunho popular denominado de Diretas Já, que levou às ruas milhares de pessoas reivindicando  a retomada das eleições diretas para presidente da República não logrou êxito, tendo em vista que o Congresso Nacional frustrou a grande expectativa da sociedade brasileira ao deliberar pela eleição indireta, levada a efeito, em janeiro de 1985, pelo Colégio Eleitoral, em Sessão do Congresso Nacional. Pois é gente, não é de hoje que aquela casa de Leis, por vezes, fica de costas para os anseios da população.

Tempos sombrios aqueles, que foram descritos pelo compositor, músico, dramaturgo e escritor carioca - um dos artistas que utilizava sua arte em defesas da redemocratização do país -, na letra da música de título vai passar, como: “um tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações”. Tempo em que “dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. Hoje, aqueles tempos fazem parte da história e, nesse sentido, a pátria pode até ter acordado (tenho cá as minhas dúvidas quanto a isso), mas continua, de escândalo em escândalo, sendo subtraída, quotidianamente.

- E vocês aí já pensaram nisso, alguma vez? O que? Você é apolítico e não está dando a mínima para política? E vocês também? Sinto muito, mas, para vocês e tantos quantos se sentem assim não dá nem para repetir o verso bíblico que diz: perdoe pai, eles não sabem o que fazem, pois, tanto a alienação política quanto a desinformação sobre a realidade nacional têm cura. Sendo assim, eu espero que a ficha de vocês não demore para cair. Participando ou não, somos todos responsáveis pela maneira como a política é exercida e pela forma como os benefícios (ou malefícios) resultantes dessa prática são socializados.

Peço licença para me dirigir a você que está se fazendo de desentendido, para dizer que isso ocorre porque, provavelmente, você faz parte do grupo de pessoas que praticam a política na ótica do benefício individual ou de grupos específicos. Por isso mesmo, não se preocupando e nem atentando para o fato de que a prática política deve buscar, cotidianamente, as condições que ensejem o desenvolvimento do país. Agora se você ainda insiste em dizer que não está entendendo o que estou dizendo, não me resta outra opção a não ser baixar o nível desta conversa e mandar você comprar bastante óleo de peroba. Haja cara de pau meu amigo, haja desfaçatez minha amiga.

 

 

 

 

 


 

NEM TODA BRASILEIRA É BUNDA (25) 

 

 

 

Skol, coca, ice e red bul! Skol, coca, ice e red bul!

Entoa o vendedor aqui do lado esquerdo.  Só que o faz baixinho e pausadamente, ensaiando passos de dança ao som do DJ Marcelo Janot, segurando duas latas - uma em cada mão e sorrindo generosamente para todos. Provavelmente ele irá vender pouco, mas, certamente, se divertirá bem mais do que muita gente que está aqui. Eu, inclusive, que, aliás, custo a acreditar que estou no meio desta multidão, visto que, normalmente, fujo de aglomerações e de barulho. Mas, na vida tem sempre uma primeira vez para tudo, então que seja aqui e agora. Afinal, será um show histórico, com recorde e coisa e tal.

Sendo assim, e já entrando no clima de metas inócuas, me ponho a imaginar:

- E se eu não estivesse aqui e faltasse exatamente uma pessoa para atingir o tal recorde pretendido, será que eu me sentiria culpado pelo resto da vida? Já imaginaram o Brasil não conseguir o recorde de maior show de rock da história por minha causa? Logo eu que não gosto de culpas e nem de culpados; e que sou fã incondicional dos Beatles e dos Rolling Stones.

O que sei é que dessa culpa estou antecipadamente isento, porque aqui estou eu fazendo a minha parte. Só não entendo mesmo é o que vai melhorar no (ou para o) Brasil, depois que o tal recorde for estabelecido.

- E quanto à gratuidade do show? Ela se deu para assegurar a quebra do tal recorde? Foi jogada de marketing da banda, dentro da estratégia comercial da gravadora? Teria por objetivo a propaganda da cidade maravilhosa, tendo em vista que a prefeitura desembolsou R$ 1,6 milhão, algo em torno de 16% do orçamento do show? Não faço a mínima ideia.

A propósito de propaganda, mesmo sendo um admirador-mor das reentrâncias e das saliências da mulher brasileira, esteja ela vestida, quase vestida ou na forma em que veio ao mundo; incomoda-me, sobremaneira, a veiculação do Brasil centrada, quase que exclusivamente, na plástica feminina nacional, ensejando a pornografia e o turismo sexual, notadamente no litoral deste nosso vasto país. Afinal, nem toda brasileira é bunda meu bem, como diz a letra da música.

Em se tratando de prostituição, sobretudo a infanto-juvenil, questiono: alguém aqui tem dúvidas de que a ausência de políticas públicas, a miséria, a dificuldade de acesso à educação, a falta de empregos e de renda, assim como este mísero valor de salário-mínimo, além da hipocrisia de muitos e da indiferença de inúmeros; também são componentes responsáveis por essa vergonha nacional?

Ações isoladas e pontuais, assim como a prática de veicular essa tragédia, em horários nobres na TV são estratégias válidas e merecedores de apoio e de elogios. Porém são insuficientes para a reversão desta triste realidade. Os dados sejam eles oficiais ou oficiosos comprovam essa minha afirmação. E você que mora longe do litoral não se engane. Certamente aí, onde você vive, tem muitas jovens (até mesmo crianças) que estão se prostituindo como meio de sobrevivência pessoal e familiar, inclusive. E o mais trágico nisto tudo é que é crescente o número de pessoas que financiam a prostituição infanto-juvenil ou que fazem dela uma fonte de renda. Isso é um insulto à dignidade humana. Não nos esqueçamos, aqui, de casais e de quadrilhas que se especializam em sequestrar crianças e adolescentes para alimentar redes de pedofilia e o comércio da prostituição infantil, condenando as vítimas a todo tipo de submissão e exploração sexual.

Destaco que há, no Congresso Nacional, via Projeto de Lei, iniciativas para tornar lícita a prostituição com objetivo de melhorar o padrão de vida das prostitutas, contemplando direitos sociais, tais como carteira de trabalho assinada, filiação à previdência social, assistência médica e aposentadoria. Com isso, segundo os proponentes, elas não mais se submeteriam às regras do submundo criminoso. Não ficariam, por exemplo, à mercê da exploração de cafetões que ficam com a maior parte dos pagamentos e, por vezes, às submetem a todo tipo de constrangimentos e de riscos.

Segundo os defensores do projeto, com a legalização da profissão seria mais fácil impedir o envolvimento de crianças e adolescentes nas atividades de prostituição. Ainda assim, eu continuo a afirmar que a prostituição (legalizada ou não) pode até ser uma opção pessoal para quem, livremente, quiser exercê-la. Todavia, jamais, em tempo algum, deve ser exercida de maneira impositiva ou o único meio de sobrevivência de quem quer que seja.



  

 

 

 

COMENDO PIZZA IMPUNEMENTE (28)

  

 

 

 

- OLHA O PESADO!!!! OLHA O PESADO!!!!!

É o grito de abre-alas dos vendedores (com seus isopores) tentando encontrar os locais mais estratégicos para se posicionarem ou mesmo reabastecerem seus pontos de venda, fixos. Não pude deixar de observar que se trata de brasileiros tentando ganhar honestamente o pão de cada dia, enquanto tantos outros compatriotas por aí estão é roubando, repetidamente e impunemente, padarias inteiras. E ainda temos que ficar assistindo via TV Câmara a distribuição de pizzas.

Aqui cabe um questionamento pertinente a esse assunto:

- Alguém sabe o significado da sigla CPI?

Se você pensou ou respondeu Comissão Parlamentar de Inquérito, então você precisa se atualizar. CPI quer dizer Comendo Pizza Impunemente ou, se preferirem, Comilança de Pizza Inaceitável. Para essas mazelas, a solução continua sendo vergonha na cara, fim da impunidade e uma boa dose de ostracismo político.

Mantendo a atenção no cenário político atual e lembrando de que os jovens de hoje é que serão as lideranças políticas do amanhã, é imperativo questionar por onde anda a juventude? Parcela significativa dela continua alienada em relação às questões políticas e aos problemas que afligem o país. Não compreendem o quanto vale a democracia e o quanto custou reconquistar a liberdade democrática. Não se sentem atingidos quando ela é ferida. São incapazes de expressar um mínimo de indignação e de rebeldia. Desconhecem seus direitos e não percebem que são capazes de promover mudanças políticas e sociais. Além disso, a parcela dita politizada se mobiliza, na sua maioria, amparada em bandeiras partidárias. Porém, com exceções, suas ações nem sempre refletem coerência revelando que não se movem por convicções ideológicas, e sim, por conveniências pessoais e partidárias.

- OLHA O PESADO!!!! OLHA O PESADO!!!!!

Com vistas a uma participação mais efetiva e consciente na vida política do país, um bom começo para as novas gerações (e não apenas para elas) é conhecer a realidade nacional: índices sociais, características e razões do nosso estágio de (sub) desenvolvimento, bem assim como ter um mínimo de informações sobre a luta pela redemocratização do país: fatos, atos e personalidades. Assim, por um lado poderiam exercitar uma compreensão crítica em relação a tudo quanto se publica nos jornais e revistas, ou que se divulgue nos noticiários do radio e da TV. E, por outro lado, poderiam fortalecer a convicção necessária à defesa do regime democrático ao tomarem conhecimento das atrocidades que já foram cometidas no solo pátrio e dos que perderam até suas vidas em defesa da liberdade democrática.

 - OLHA O PESADO!!!! OLHA O PESADO!!!!!

Seria cômico, se não fosse trágico. Os honestos sobrevivendo do pesado e os desonestos vivendo da moleza. Quiçá, um dia essa moleza vai acabar. Todavia, até lá é imprescindível o incremento, no país, das oportunidades de acesso à educação, em todos os níveis. Claro que me refiro a uma educação libertadora que seja capaz de ensejar o exercício da cidadania e de tal forma que saber ler, escrever, pensar criticamente e ter a iniciativa de participar, interferindo na realidade com vistas ao bem comum sejam características predominantes na nação brasileira.

- OLHA O PESADO!!!! OLHA O PESADO!!!!!

A ausência de visão crítica do mundo em geral e de sua realidade em particular, lamentavelmente, não se restringe às pessoas que sobrevivem à margem da cidadania: analfabetos, desinformados e guiados pelo estômago e isso constitui um dos principais impedimentos para conquistar a necessária e tão almejada justiça social.

 

 

 

 

 

 

JUSTIÇA SEJA FEITA (31) 

 

 

 

- LÁ VEM A TURMA!!! LÁ VEM A TURMA!!!

É o Corpo de Bombeiros (com mais uma pessoa na maca), atropelando tudo e todos. Compreensível, pois estão com pressa porque alguém precisa de socorro (atenderam 281 pessoas durante o show).

O tumulto inesperado me fez ficar matutando:

- Talvez se colocassem um deles na frente com uma sirene manual as coisas ficassem menos difíceis, além de evitar a possibilidade de gerar tumultos em cadeia que nem aquelas pedras de dominós umas caindo sobre as outras.

E foram macas passando na altura dos joelhos, na altura dos ombros e até acima das cabeças. Sem falar naquelas pessoas que por falta de macas eram carregados nos ombros. Justiça seja feita, todos que foram carregados pelos bombeiros estavam devidamente acomodados em macas.

Essa urgência no atendimento me fez lembrar o descontentamento de um amigo ao criticar a denominação: Pronto Socorro de Urgência, utilizada em determinados hospitais. Ele questiona até hoje e o faz argumentado que não há a necessidade de socorro que não requeira o pronto atendimento. Além disso, se o socorro é de imediato, falar em urgência constitui uma redundância desnecessária. Ele sempre cita como exemplo o fato de que quando alguém grita por Socorro é porque necessita de ajuda naquele exato momento. Não fosse assim, alguém se afogando teria que gritar:

- PRONTO SOCORRO!! PRONTO SOCORRO!! Para deixar claro que a ajuda não pode ficar para mais tarde.

Mas o que eu não consegui entender mesmo foi por qual motivo é que a fileira de policiais tinha que avançar com tamanha força bruta; mesmo porque não carregavam nenhum fã precisando de socorro e, pelo menos onde estou, eles não perseguiam nenhum delinquente. Felizmente só passaram por aqui umas três vezes. Em uma das vezes um fã aproveitou o embalo e o vácuo criado pelos policiais para tentar tirar uma fã da muvuca, carregando-a nos braços multidão afora em direção a outros pontos da muvuca.

Truculências à parte, ainda que desnecessárias, em se tratando desses profissionais o mais importante é afirmar que eles deveriam ter melhores remunerações, além de condições mais adequadas de trabalho. Digo isso não apenas em virtude da importância para a sociedade das atividades que exercem, ou mesmo devido aos riscos a que se submetem no exercício da profissão. Mas, também para que possam viver com dignidade e de tal forma que os mais necessitados e até mesmo os mais fracos de caráter não se sujeitem aos desvios de conduta ética que contribuem para fragilizar as corporações, ensejando o descrédito em relação à eficiência necessária, e desejada, na perspectiva de preservar a ordem pública, de proteger pessoas e o patrimônio, de realizar a investigação e repressão dos crimes, além do controle da violência. 


  

 

 


TUDO NA VIDA TEM O SEU TEMPO (33)

 

 

 

 

Quando eu gritar AFRO, então vocês respondem: REGGAE.

É o vocalista do Afroreggae dando início a uma sessão de narcisismo acústico, da banda.

-   AFRO!!

-   .......

-   AFRO!!

-    ......

-   AFRO!!

-    .......

-   AFRO!!

E nada de Reggae, pelo menos até onde minha audição pode alcançar. Vai ver que estou desatento e meu pensamento, por instantes, viajou para longe daqui. Não que eu esteja com a razão, mas acho desnecessário esse tipo de autopromoção de grupos musicais. O sucesso, assim como a empatia com o público, não é consequência da repetição do nome da banda.

Nada a ver, mas a repetição me fez recordar certo homem de religião que, na TV, na madrugada adentro, fica repetindo à exaustão, versos quase monossilábicos como se por pura repetição se adquirisse o direito ao paraíso. Como bem observou o meu filho, certa vez: - pai, será que ele acha que Jesus é retardado ou tem dificuldade para escutar?

Aí eu fico a me perguntar:

- Se o criador sabe do que necessitamos antes mesmo de que cada um faça o seu pedido, então para que tanta repetição?

Sei não. Posso até estar enganado, mas começo a acreditar que a quantidade de canais televisivos, de distintas religiões, orientando o caminho do paraíso está se tornando uma torre de babel celestial. Em vez de torre de babel o que eu queria escrever mesmo era febre ou epidemia, não fosse o fato de que essas palavras têm a ver com doenças e pragas. As estratégias para atrair os fiéis são as mais diversas (para confundir também). Algumas delas inacreditáveis, só mesmo vendo para crer. Diante disso tudo, de duas coisas eu tenho certeza: uma delas é que mais e mais pessoas se submetem a essas estratégias e a outra é que no dia do juízo final (seja ele quando for) isso tudo, também será passado a limpo. Até lá, ao que parece, repetir-se-ão em escala crescente a comercialização da fé; as encenações; as dissimulações; a ocorrência de milagres (milagres?), em cascata, do tipo um atrás do outro, além das pregações equivocadas com enfoques cheios de parcialidade.

Calma pessoal, eu sei que há controvérsias quando se trata da prática de crenças religiosas e do exercício da fé. Então, deixemos esse assunto para outra hora e vamos voltar para a praia de Copacabana.

Aqui, o Afro dá início à sessão de discurso político interessante e atual é verdade, mas, que eu tenha observado ninguém prestou atenção àquelas palavras, revelando que tudo na vida tem o seu tempo, sua forma e conveniência para ocorrer. Discursos políticos não representam exceção.

Todavia, em se tratando dessa turma, é sempre oportuno lembrar e registrar que eles pertencem a um grupo cultural que desenvolve, há mais de uma década, um trabalho social dos mais relevantes em comunidades carentes, particularmente em favelas do Rio de Janeiro. Esse trabalho é desenvolvido na perspectiva da reversão do quadro de degradação social que ocorre no país e tem contribuído para que inúmeros adolescentes e crianças não se envolvam com mundo do crime ou se afastem dele. Essa iniciativa representa uma opção não só ao tráfico de drogas, mas principalmente à ociosidade e à baixa autoestima.

 Finalmente o Afroreggae resolveu cantar e a multidão entrou no ritmo. Agora as pessoas além de caminhar, também cantam e dançam sem parar. Se os espaços já eram pequenos imaginem então como ficaram.

 

 

  

 

 

 

DESGRAÇA POUCA É MEIO DE VIDA (36)

 

 

 

 

Eu já sabia que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. No meio desta muvuca aprendi que um corpo pode ocupar o lugar de quatro corpos ao mesmo tempo.

- Gente! Acreditem! O cara é gordo mesmo. Do tipo rei momo tradicional.

Tudo bem que se trata de um jovem gaúcho muito educado (educado mesmo gente, não pensem que ele é gay, vocês estão ouvindo muitas piadas de gaúcho ultimamente), mas, daí querer colocar os quatro lugares dele exatamente no meu lugar é covardia.

Uma das minhas frustrações na vida foi não conseguir engordar. Quando eu era universitário me diziam:

- É só formar e arranjar um emprego que você engorda.

Não funcionou. Depois falaram:

- Quando você se casar não tem jeito, você vai engordar.

E nada.

Por fim, disseram:

- Se algum dia você levar um tiro, (cruz credo!!!), pimpa!!, (ou seria bang?!!), você vai engordar e virar um sapo.

Não estava nos meus planos, mas até tiro já levei e continuei magro. Depois disso, desisti de querer engordar. Eu hein? Não quero nem imaginar que sugestões viriam a seguir, com vistas a mais alguns quilos na balança.

Desgraça pouca é meio de vida (nunca entendi bem esse ditado popular, mas foi o que me veio à mente neste instante), porquanto não bastasse o excesso de quilos; e o espaço ocupado (ou a ocupar), o gaúcho é mais um fumante presente e daqueles que não conseguem fumar o cigarro inteiro, parece que o prazer está em acender o cigarro e não em fumá-lo.

Em determinado momento fiz um teste. Ao acenderem um cigarro do meu lado e vários outros em pontos diferentes (a impressão que eu tinha era de que a fumaça, vinha de todos os lados), aspirei forte, levantei a cabeça e em seguida soprei o ar. E não deu outra, eu consegui tragar sem ter que acender ou mesmo empunhar um cigarro. Assim, deixei a minha contribuição de fumaça no ar e certamente nos meus pulmões. Além disso, vocês não fazem ideia dos malabarismos a que todos somos intimados a realizar quando os fumantes caminham com os cigarros acessos (não sei se vocês sabem, mas a temperatura daquela parte luminosa do cigarro é equivalente a três vezes a da água fervendo).

A propósito de cigarros e de fumantes, achei muito interessante o tipo de abordagem adotada em determinado livro que trata da dependência da nicotina (o autor é médico, professor e pesquisador). Nele, o problema é analisado de forma multidisciplinar. Dessa maneira, o tratamento pode envolver profissionais das áreas da medicina, da psicologia e da nutrição. Isso em função das necessidades de cada paciente. Caso você esteja pensando em se livrar do vício da nicotina, vale a pena se predispor a adotar essa estratégia de tratamento, procurando profissionais especializados. Se você tiver êxito, seus pulmões irão lhe agradecer, e nós outros – não fumantes -, também. Boa sorte.

 

 

                           

 

 

 

EUREKA (39)

 

 

 

Pois é brother o que podemos fazer é ir para o outro lado - disse a graciosa jovem à sua turma, apontando para o norte.

E, não sei se eu já estava tonto ou se não tinha mais referenciais o fato é que todos concordaram com ela e se deslocaram sem titubear para o sul. Não entendi nada.

- É A MOSCA MEU IRMÃO!! É A MOSCA MEU IRMÃO!! - Gritou o vocalista do Afro e tinha a ver com aquela música do roqueiro maluco beleza que diz: “Eu sou a mosca que posou na sua sopa. Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar...”.

Então, pensei aqui comigo:

- É, deve ser mesmo por causa da mosca.

Por falar em mosca, há muito tempo que eu procuro rever um vídeo que, em minha opinião, deveria ser assistido por todo aspirante a pesquisador. Ele é sobre uma determinada doença que faz com que os ossos das crianças não parem de crescer, deformando-as e levando-as ao óbito. Você deve estar se perguntando: - e o que tem a ver com a mosca, meu irmão? Explico. É que com a publicação dos resultados das primeiras pesquisas sobre aquela doença e sobre a mosca, foi possível a troca de informações entre pesquisadores que se dedicavam, em locais distintos e a temas também distintos.

Esse intercâmbio possibilitou, a partir de estudos em andamento sobre a mosca, a identificação das causas que provocavam a inibição do mecanismo responsável por fazer com que, em determinada idade, os ossos parem de crescer. A grande sacada, o “eureka” dessa solução foi observar que a estrutura que dá sustentação às asas nas moscas está situada na parte externa da asa, diferentemente do ser humano onde os ossos se situam na parte interna do corpo.

Ao que parece, o exercício da pesquisa, muitas vezes, requer a capacidade de enxergar o óbvio. Talvez seja por isso que as grandes ideias quase sempre são simples. - Não entenderam? Então deixa pra lá, isso é inegavelmente coisa de pesquisadores. Mas respondam vocês, alguém aqui já havia, em algum momento na vida, imaginado que a mosca servia para alguma coisa além de provocar nojo? Quem aí souber como conseguir esse vídeo, gentileza me informar ou me enviar cópia.

Esse assunto me fez lembrar que na vida assim como na pesquisa, alguém ou mesmo algo que, a priori, nada tem a ver conosco nem com as nossas dificuldades, pode ser a solução dos nossos problemas. Porém, como tudo nesta vida tem um contraponto, temos a outra face dessa moeda, ou seja, a origem dos nossos problemas pode estar em algo ou mesmo em alguém que faz parte do nosso cotidiano, e o faz de tal maneira que, a priori, jamais imaginaríamos que poderia nos causar ou desejar mal algum. Em um lado da moeda as surpresas agradáveis. Do outro lado, as decepções amargas da vida. Em síntese, o mal, assim como o bem, pode advir de onde a gente menos espera.

 

 

 

 

 


O ÓBVIO ULULANTE (41) 

 

 

 

Eu já sabia que a fila do lado sempre anda mais rápido do que a nossa. Mas, ser exatamente este local onde estou, no meio desta muvuca, o escolhido para que a multidão da fila à esquerda passe para a direita, e vice-versa é pura sacanagem. Até porque, não creio que eu tenha cara de passagem, mesmo tendo me hospedado na Rua da Passagem, em Botafogo, aqui no Rio de Janeiro.

Digo isso porque quando os Titãs engrenaram o rock brasileiro e a multidão dava prenúncios da doidice que estava por vir, um cabeludo de meia idade que passava diante de mim ao ouvir os primeiros acordes da banda se projetou para o alto gritando o refrão da música dos Titãs. Ao tocar os pés no chão, com os braços para cima e o semblante exultante cruzou seu olhar com o meu. E, certamente o que ele viu não deve ter sido animador, uma vez que congelou imagem por segundos para, depois, de queixo caído e ainda mantendo os braços para cima, arregalar os olhos e curvar as duas mãos para baixo, expressando um misto de perda de ânimo e incredulidade. Logo depois, braços abaixados e balançando seguidamente a cabeça de um lado para o outro como que para reafirmar que não acreditava no que estava vendo, dirigiu-se a mim e disse:

- Não, isto é hilário e inacreditável. Eu tenho que preservar esta imagem e vou te enviar via e-mail.

Em seguida, dizendo que a máquina dele era descartável (máquina de brinquedo), mandou ver uma foto (tinha flash). Depois, me abraçou, balbuciou um monte de coisas que eu não entendi bem, falou que não ia mais me enviar porcaria nenhuma, me abraçou novamente, beijou o rosto da minha companheira e saltitando sumiu no meio da multidão. Só então, dei-me conta de que no meio daquela movimentação (vertical e horizontal e uma combinação desses movimentos) só eu estava imóvel, braços cruzados e fitando o palco lá adiante, com cara de paisagem. Talvez isso explique a minha sensação de que todos giravam em torno de mim, diante de mim, ou por detrás de mim.

Falando em girar, quero dizer que essas pessoas do tipo que se acham o centro do mundo, que são prepotentes, arrogantes e cheias de não me toques; que reclamam de tudo e de todos; que são donas da verdade e têm respostas para tudo na ponta da língua, se comportando como se tudo girasse em torno delas, para mim, nada mais são do que um pé no saco. Invariavelmente estão predestinadas à solidão e à infelicidade. Azar delas por insistirem em não ver o óbvio ululante, isto é, que o mundo não gira em torno delas, muito menos gira por elas ou por causa delas. Na verdade, o mundo gira independentemente e apesar delas.

Como provavelmente alguns de vocês não têm o costume de consultar o dicionário da língua portuguesa e nem de acompanhar a dinâmica do nosso idioma, eu já vou esclarecendo que óbvio ululante é uma expressão cunhada por um dos mais ilustres torcedores do tricolor das Laranjeiras – importante dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro, nascido em Pernambuco e radicado, desde criança, aqui no Rio de janeiro -, para classificar algo que de tão óbvio chega a ser gritante. 

 

 

 

 

 

 

QUE PAÍS É ESSE? (44)

 

 

 

 

- QUE PAÍS É ESSE!!? - Cantava o vocalista da vez, lá no palco.

E a resposta coletiva se fez presente. Prestei atenção e agucei a audição:

- É A PORRA DO BRASIL!! - Gritava a multidão, a uma só voz.

Eu bem que gostaria neste momento, de poder dizer: não ouvi e não gostei; parafraseado o general e ex-presidente da República que gostava de cavalos (nada contra os cavalos) e que ao responder a um questionamento sobre o que ele achou de uma reportagem sobre as ações do governo, disparou: não li e não gostei. Porém, apesar de não gostar do que eu estava ouvindo, entendi e concordei com a multidão. É que com essa zorra toda que está o país, com desvios de recursos públicos na ordem do dia não tem mesmo como discordar. Ideal mesmo é que esse desabafo se materializasse em voto consciente nas eleições vindouras e nas posteriores a ela. Foi esse o desejo que me veio à mente por mais utópico que possa ser ou parecer que seja.

A propósito de eleições, tudo bem que o país é muito grande, mas a existência de fidelidade partidária e coerência nas alianças entre partidos é o mínimo que podemos exigir de um processo eleitoral com vistas a um regime democrático, cujos representantes políticos tenham a ética como princípio inegociável.

- QUE PAÍS É ESSE!!?

- É A PORRA DO BRASIL!!

Além disso, já estamos cansados de discursos moralizantes sem consequências práticas.

- QUE PAÍS É ESSE!!?

- É A PORRA DO BRASIL!!

Enquanto isso o fisiologismo e a demagogia superabundam na política nacional.

- QUE PAÍS É ESSE!!?

- É A PORRA DO BRASIL!!

Não bastasse, o país é afrontado diariamente pela violência crescente e corroído, à luz do dia, pela corrupção desenfreada. Tudo isso calcado na expectativa da impunidade.

- QUE PAÍS É ESSE!!?

- É A PORRA DO BRASIL!!

E assim vamos convivendo passivamente com taxas alarmantes de analfabetismo e com parcela significativa da população mergulhada na fome e na miséria, sem esperanças ou perspectivas de melhoria efetiva dessa situação deplorável.

- QUE PAÍS É ESSE!!?

- É A PORRA DO BRASIL!!

- E que traseiro é este!!? (?)

- ..........................................

Epa?!! Esse refrão não faz parte da letra nem do som uníssono. É coisa da minha imaginação.

Paciência, quem viu, viu e quem não viu perdeu. Não me interpretem mal, é que não tinha como não ver (era uma linda mulher, daquelas que os molejos graciosos e as belas curvas representam fonte de inspiração inclusive para o nosso mais renomado arquiteto, que incorporou à sua obra o que ele denomina: curva livre e sensual). Ela me fez recordar de um octogenário que conheci tempos atrás (com certeza já passou para o lado de lá – morreu). Ele um carioca muito gente fina afirmava que, naquela idade, seu maior prazer era encontrar, no meio da multidão, um rostinho lindo de mulher e admirá-lo pelo simples prazer de admirar o que é belo. Pelo visto, ainda não estou me limitando à beleza facial das mulheres.

Aliás, com ou sem beleza física, não dá para acreditar com facilidade na história de que a mulher foi feita da costela do homem. E ainda por cima, de uma só costela. Nesse sentido, o que eu acredito mesmo é que o criador ao idealizar a mulher estava no seu maior e mais criativo estado de criação. Eu seria capaz de dizer que ele superou a si mesmo se eu tivesse a certeza de que tal afirmação não representaria uma heresia.

E, por favor, não me venham com aquela conversa de que eu sou daqueles que não pode ver um rabo de saia, que já fica todo assanhado. Estou me referindo à mulher como um todo, na sua plenitude: fonte de vida, de amor, de beleza, de sensibilidade, de sensualidade, de competência, de tentação, de disputa, de discórdia e de inspiração.

 

 

 

 

 


BALANÇAR A ROSEIRA (47)

 

 

 

 

Rio 40 graus. O suor abunda bunda adentro. Eu devia ter permitido que me comprassem uma camiseta dos Stones, certamente ela é mais leve e adequada para o momento do que esta minha camisa jeans que insisto em vestir nos finais de semana e nos eventos musicais. Assim aqui estou eu, imóvel, fumando contra minha vontade e me derretendo em suor, vestido de jeans de cima até embaixo.

Nesta altura dos acontecimentos, os desodorantes começam a perder o efeito, notadamente o do vendedor do lado direito que, sem camisa, levanta seguidamente os braços para poder deslocar as cervejas e as garrafas de água para os compradores que se comprimem, gradativamente, mais e mais. O espaço já é exíguo até para trocar de pensamentos. Mesmo assim, a multidão vai e vem sem parar um só instante.

Então me pus a imaginar:

- Será que é possível piorar?

E parece que lendo os meus pensamentos alguém gritou:

- NOSSA!!! AQUI PARECE QUE RESOLVERAM RASGAR AS BUNDAS!!!

Exatamente, meus caros amigos e diletas amigas, alguém que provavelmente havia comido sardinha com coca cola ou camarão (no alho e óleo) com cerveja, resolveu balançar a roseira, liberar flatulências, gás sulfídrico. Felizmente foi alguém que estava de passagem visto que a experiência foi única. Vai ver que foi o carinha que deu o alarme, tentando se inocentar.

Este odor desagradável fez-me lembrar do encontro, na floresta, entre o macaco e o elefante dias depois de uma festa no céu, onde não pode haver luxúrias e por isso todos tiveram que deixar as “partes sexuais” na portaria. Festa essa que terminou em confusão e muita correria. 

- Olá compadre elefante que cara de doente é essa?

- Você nem imagina compadre macaco. Quando eu saí correndo lá na festa, peguei um orifício anal muito pequeno e tem cinco dias que eu não consigo cagar.

Sem titubear o macaco respondeu:

- Você teve é sorte compadre elefante. Eu, na correria peguei um orifício anal muito grande e toda vez que eu solto um pum, fico pelo avesso. RSRSRS (vocês conseguem imaginar a cena e a cara do macaco querendo voltar para o avesso do avesso?) RSRSRS (segundo a minha filha caçula, isso significa riso de velho na internet, já que riso de jovem é rsrsrsrs ou kkkkkkkk).

Como uma piada puxa outra, então vou contar algumas inspiradas nessa história de mau cheiro:

Os dois se conheceram na internet e marcaram um encontro. Ela sofria de halitose (mau hálito), quando eles se encontraram ela sorriu e disse:

- Bom dia!

- Cagaram!! – Respondeu ele.

Sem entender a resposta ela indaga:

- O que você disse?

E ele de pronto responde:

- Cagaram outra vez!! RSRSRSRSRSRS.

 

O rapaz se enche de coragem e vai pedir a mão da namorada ao pai dela (não sei se hoje ainda se faz isso; ou mesmo se esta garotada de agora sabe do que se trata). Diante do pai da jovem ele falou:

- Amo sua filha e quero casar-me com ela.

O pai muito sério perguntou:

- Quanto você ganha por mês?

Confiante, ele respondeu qual era o salário mensal dele. Ainda mais sério o pai disse:

- Meu caro isso que você ganha não dá nem pra pagar o papel higiênico que ela gasta por mês.

Depois dessa resposta o rapaz se retirou da sala e se dirigiu ao terraço onde lhe aguardava a namorada que, ansiosa, foi logo perguntando:

- E aí meu bem como foi a sua conversa com o papai?

E ele com cara de desdém, responde:

- SUA CAGONA!!! RSRSRSRSRS.

 

Vocês querem mais uma? Então lá vai.

O velhinho (sentado na cadeira da sala) se inclina um pouco para a esquerda para facilitar a saída do pum. Desesperado o garotinho grita:

- Gente! Segura o vovô que ele tá caindo. RSRSRSRSRSRS.

 

Agora chega de piadas.

 

 

 

 



CAIU MINHA FICHA!!!! (50)

 

 

 

De repente me veio à mente o filme Titanic. Teria sido pela crônica do livro do amigo de infância José Teles que revi aqui no Rio de Janeiro, após quase três décadas? Ou foi por causa daquela cena do Leonardo DiCaprio com hipotermia, prestes a sucumbir na água gelada? É que nesta altura do campeonato minhas pernas estão que nem os versos daquele poema que diz: mil vezes a dor da bursite do que a dor do amor que é uma dor que dói, dói e vai doendo. OK! OK! Sei que hipotermia só ocorre quando o corpo é submetido a temperaturas muito baixas, o que não é o caso da temperatura aqui nesta muvuca. Na minha ignorância sobre o assunto creio que quando ocorre essa tal de hipotermia o corpo fica dormente e, portanto, não se sente dor, apesar de um frio de lascar o cano. Caiu minha ficha! A lembrança do frio deve ser o meu subconsciente buscando formas inúteis de abrandar meu sofrimento. Aí, para ajudá-lo olhei para o pessoal confortavelmente instalado nas sacadas dos apartamentos no Copacabana Palace e pensei com toda a força da minha convicção:

- Eles devem estar sentindo o maior tédio por não vivenciarem a energia que rola aqui embaixo.

Não funcionou. Com este calor, suores e odores, além deste empurra-empurra, da fumaça socializada e de outros aspectos negativos não há a menor chance de funcionar. Neste caso, nem livro de autoajuda irá abrandar este meu sofrimento (brincadeirinha gente, brincadeirinha, eu também duvido da eficácia desses livros que, salvo melhor juízo, só ajudam mesmo a aumentar o saldo bancário de alguns autores e de suas editoras). É muito provável que muitos de vocês estão discordando de mim e devem ter vários livros de autoajuda na cabeceira (dificilmente quem lê um, se limita a um, - não é fato? Sem falar que, do livro inteiro, vocês só se identificam com alguns parágrafos; sobretudo aqueles trechos que servem para consolidar as atitudes e os comportamentos que justificaram a busca desse tipo de leitura. Estou certo? Não é isso mesmo o que acontece?).

Na minha desconfiança da eficiência dessas autoajudas o que acredito é que, dependendo da forma em que é lido, em vez de ajudar pode é complicar mais ainda a vida de quem lê (notadamente quando a leitura se dá de forma solitária e compulsiva). Mas, pensando bem, eu não tenho nada que me meter nesse assunto, isso porque o dinheiro é de vocês, o tempo também e quem precisa de ajuda são vocês. O que posso sugerir é que além dessas leituras, vocês deveriam mesmo é procurar a ajuda de profissionais especializados. Eu sei, eu sei pessoal! Vocês não precisam ficar zangados. Concordo que cada caso é um caso e, nem sempre, se faz necessário recorrer a esses profissionais. Embora assim, eu insisto: se vocês têm mais de quatro desses livros em casa, procurem ajuda de especialistas antes de comprar mais um. Com a ajuda deles é possível até que essas leituras tenham chances de servir - de fato - para alguma coisa útil e duradoura na vida de vocês.

 



 



IMPONHAM LIMITES NA VIDA (52)

 

 

 

O vendedor do lado esquerdo anunciava, no mesmo tom, dançando lentamente no próprio ritmo:

- Agora o patrão endoidou: red bul com whisky.

Lá adiante, indo e vindo, mãos para cima, com coloridos tubinhos de plástico outro vendedor gritava:

- MEL COM CANINHA!! (Não sei de onde, não deu para entender).

E que eu tenha visto apenas um fã degustou a preciosa bebida naquele recipiente prático, criativo e descartável, parecido com um canudo de plástico.

- MEL COM CANINHA!!

Se você me conhecesse certamente perguntaria por que eu que tanto aprecio a cachaça não provei da tal caninha? Respondo e esclareço. Desde jovem sempre tive intolerância orgânica a bebidas alcoólicas, notadamente as fermentadas. Por isso, optei pelas destiladas e aprendi a degustar uma boa cachaça acompanhada, preferencialmente, de um caldinho quente de peixe, de feijão ou de mocotó (ou mesmo de uma mistura deles). Todavia, confesso aqui, de público, que nunca fui merecedor da fama que tenho de bom tomador do precioso líquido, notadamente de uns tempos para cá. É que a idade vai chegando e a máquina vai cansando.  Mas, como diz o ditado popular, faça a fama e se deite na cama.

Por oportuno (eu não poderia perder esta chance); mesmo sabendo que agora a caninha deixou de ser bebida da periferia e passou a ser, também bebida de Presidente da República e de seus convidados, informo, aos amigos e conhecidos, que já disponho de estoque suficiente para presentear, colecionar, beber (sozinho ou acompanhado) pelo resto da minha vida. A casa agradece, mas chega de me presentearem com garrafas de cachaça. E se me permitem deixo aqui uma sugestão: o vinho tinto, embora seja bebida fermentada, ajuda a baixar o colesterol que, no meu caso, ao contrário do meu estoque de whisky (que é uma bebida destilada) está altíssimo.

Como aqui tem muitos jovens, eu vou falar uma coisa para vocês:

- Quando se trata de bebidas alcoólicas o certo não é olhar se o copo está vazio para prontamente voltar a enchê-lo e em seguida entorná-lo.

Em vez disso, ou mesmo antes disso a atitude correta é observar se a sua cabeça já está com alto teor etílico e adotar medidas para baixá-lo. Uma medida adequada é tomar água e dar um tempo na ingestão das demais bebidas. Se lembrem de que um minuto de excesso pode valer toda uma vida. Portanto imponham limites na vida. E o façam não apenas quando se tratar de bebida alcoólica. Nessa perspectiva, compreendam que sob a ótica da sabedoria, liberdade não significa ultrapassar limites. Ao contrário do que possa lhes parecer, a liberdade tem tudo a ver com o estabelecimento de rígidos limites. Portanto sejam sábios na vida. Ou pelo menos tentem sê-lo. Nesse sentido, uma boa opção é aprender a atentar para o óbvio, porque na vida as coisas podem ser simples, nós é que insistimos em complicá-las. 

 

 

 

 

 


SANTA INGENUIDADE ESTA MINHA (54)

 

 

 

 

Neste instante me lembrei dos anjos do inferno. Aqueles motoqueiros de São Francisco (refiro-me à cidade americana, não ao santo); que se fizeram presente em um show dos Rolling Stones, com acesso gratuito na cidade de Altamont no estado da Califórnia, em 6 de dezembro de 1969, dando uma de seguranças e culminado por assassinarem, com um golpe de faca nas costas, um dos participantes durante a execução da música Sympathy for the devil. Aquele show entrou para a história da banda pela violência explícita e gratuita daqueles babacas (rolou um comentário que o motivo para tamanha violência teria sido o fato de o jovem, Meredith Hunter, que foi assassinado, ser negro e estar acompanhado de uma linda loira. Existe também a alegação de que ele estava apontando uma arma na direção do palco, quando foi esfaqueado). Recordei deles porque a versão tupiniquim denominada de anjos do asfalto com suas motos e indumentárias, está marcando presença aqui em Copacabana. Que eu tenha visto, em pequena quantidade e com caras mais amistosas. Mesmo assim, dois deles resolveram assediar determinada jovem que estava desacompanhada. Shortinho preto, camiseta e meia calça na cor rosa, pele clara, cabelos bem curtos e sem maiores encantos.

 Beija aqui, beija ali.

         Apalpa aqui, apalpa ali.

                     Beija aqui, beija ali.

                               Encosta aqui, encosta ali.

                                        Beija aqui, beija ali.

                                                   Alisa aqui, alisa ali.

E, pobre donzela, sorrindo sem graça, desviava pra lá, desviava pra cá, no intuito de, sem sucesso, livrar-se daquele assédio.

O carro da polícia vez por outra se deslocava, ora em um sentido, ora em sentido contrário provocando deslocamentos coletivos de pessoas. Por alguma razão os dois anjos do asfalto decidiram seguir no vácuo do carro da polícia. Não sem antes, mãos fechadas, cumprimentarem a jovem entrelaçando os dedos mínimos, levemente. Pois é, quem vê cara não vê coração, já dizia o adágio popular. Aí me lembrei do ocorrido ontem à tarde, quando, passeando pelas ruas de Botafogo, dei de cara com um bêbado caído no chão e um rapaz bem-vestido - aparentando uns vinte e poucos anos, inclinado sobre ele tentando acordá-lo dizendo:

- Acorda cara e fecha a carteira senão vão roubar teu celular.

Olhei para a pochete semiaberta com documentos e celular à vista e constatei que tem muita desgraça neste mundo, mas, também que existem as pessoas de bom coração sempre prontas a ajudar os necessitados.

Santa ingenuidade esta minha. Bastava observar que, bêbado como ele estava não iria acordar e muito menos acordar para fechar a carteira. Além disso, aquele bom samaritano poderia ter fechado a pochete (que estava pendurada no ombro do bêbado) e seguido adiante, sem aquele teatro todo. É isso mesmo pessoal. Algumas horas depois, na mesma rua, que estava tão deserta quanto antes, eu dei de cara outra vez com o tal bêbado, que, naquela ocasião, com dificuldade, conseguia ensaiar alguns passos, se deslocando lentamente (ora quase saindo da calçada e ora se apoiando nas paredes dos imóveis). E, obviamente sem carteira alguma. Só então me dei conta de que quem só vê aparências não vê as intenções do ladrão, que vislumbra oportunidade para roubar até diante da desgraça alheia. Naturezazinha deplorável esta do ser humano. Como já dizia o meu primo irmão: o ser humano quanto mais se conhece, mais a gente se decepciona com ele.

Por falar em na natureza do ser humano, (ou seria mais adequado dizer desumano?), tomei conhecimento de que na América Latina, hoje em dia, existem mais de um milhão de pessoas submetidas ao trabalho escravo. Para vocês terem uma ideia melhor dessa quantidade, isso equivale à torcida de cerca de doze estádios do Maracanã, totalmente lotados. Essas pessoas, vítimas da pobreza, da falta de instrução e de trabalho decente, são mantidas em condições degradantes e sem liberdade. A falta de liberdade se dá por meio da apreensão de documentos, da presença de guardas armados, por dívidas ilegalmente impostas ou pelas características geográficas do local, que impedem a fuga.

O trabalho escravo envolve produtores e empresas de todo tipo e todo lugar, em vários cantos do país. No Brasil, o combate a esse tipo de trabalho – segundo o que li em um site na internet - é muito difícil devido à dimensão do país, às dificuldades de acesso, à precariedade de comunicação. Além das limitações de inspeção. Nesse contexto, um dos aspectos inaceitáveis, para além da escravidão em si, é a constatação de que libertar escravos no Brasil, em pleno século 21, após mais de um século da abolição da escravatura, virou notícia banal. Por isso é que eu indago: vocês acreditam que houve mesmo abolição no Brasil?

 

  

 

 

 

  

TRANSPIRANDO QUE NEM ELA SÓ (58)

 

 

 

Milhares de pessoas se acotovelando. Vez por outra, carros da polícia ou das ambulâncias em movimento no meio da multidão. Oxigênio cada vez mais escasso e temperatura cada vez mais elevada. Daí, por diante, com dificuldade para respirar, muitos passaram mal sem, contudo, necessitarem do apoio de macas. Solidariedade, água gelada e um pouco de espaço eram suficientes para o restabelecimento. E quando parecia que tudo iria acalmar eis que surge o som de uma moto acelerando (com aquele barulhão característico) no meio da multidão. Desta vez o tumulto foi de tal monta que gerou medos e pânicos para delírio daquele irresponsável motoqueiro anjo do asfalto.

A jovem que mora próximo daqui e que resolveu ver o show mais de perto, surge diante de nós com os olhos esbugalhados, lágrimas rolando, dificuldade visível para respirar e transpirando que nem ela só. Felizmente a solidariedade coletiva e água gelada tranquilizaram a assustada jovem que optou por ficar por aqui. E pouco a pouco, o som da aceleração foi ficando cada vez mais longe até não se fazer presente em nossos ouvidos.

Já que me referi aos ouvidos deixa eu me dirigir a você que, por ingenuidade, desinformação ou de propósito, tem ouvidos e não escuta; tem olhos e não vê; tem boca e não fala (ou ao falar só diz bobagens) quando se trata da intolerância racial, que também existe entre nós brasileiros: vocês precisam parar com essa conversa de que não há racismo, ou que ele é muito sutil em nosso país tropical. Porque ele é tão sutil quanto um elefante (de verdade) em uma caixa de fósforo (também de verdade), como bem disse a ativista negra, anos atrás, diante de tal posicionamento.

A sociedade brasileira se recusa a reconhecer e a discutir a existência do racismo e continua presa ao mito da democracia racial, representado pela falsa ideia de que no Brasil não há discriminação racial e que somos um povo com uma mistura de raças sem par no mudo, vivendo sem conflitos raciais. Essa é uma leitura do ponto de vista das classes dominantes e seguramente não corresponde aos fatos. É só observar o que ocorre nas camadas mais abastadas e nas camadas mais miseráveis, da nossa pirâmide social, quando se trata de acesso à educação, a serviços de saúde e a oportunidades de empregos.

A hierarquia social no nosso país se reproduz no mercado de trabalho, onde a população negra vive uma situação de enorme desigualdade, ocupando os postos de trabalho mais vulneráveis, sem formalização e proteção social adequadas. E olha que eu nem me referi aos níveis salariais e às condições de moradia. E ainda há quem acredite que a adoção da referência afrodescendente, estabelecida pelo poder constituído, irá modificar efetivamente esta realidade posta. Ah, dá licença!

E o que dizer, para denunciar as condições de vida das comunidades indígenas? Não dá para aceitar, passivamente, a prática que ocorre, em determinadas etnias, do suicídio e do consumo sistemático de bebida alcoólica (e na falta dela, do próprio álcool). Certamente há razões que justificam essas atitudes que negam a vontade de viver. Quem sabe uma das causas seja a perda, gradativa, de identidade, que vem acometendo esses povos. Em acréscimo, não nos esqueçamos dos conflitos pela posse das terras e das riquezas naturais, lá existentes e da mortalidade materna e infantil, por desnutrição, fome e miséria que atingem os povos indígenas. Que me desculpem os roteiristas de plantão, mas, longe de inspirar romances com final feliz, a realidade desses povos - brasileiros tanto quanto nós -, é quase que, de ponta a ponta, uma tragédia previsível. 

 

 

 

 

 

 

JUÍZO, MUITO JUÍZO (61)

 

 

 

No ar um novo odor. A maconha rola solta. Eu não vi, mas teve gente que até jurou que viu o vendedor da frente distribuindo a marijuana a quem se mostrasse interessado. Que eu me lembre essa é uma das denominações dessa droga, que também é conhecida por baseado. Tem até a letra daquela música (da década de setenta) do cantor e compositor natural aqui no Rio de Janeiro e conhecido por Tremendão - pioneiro do rock no Brasil, amigo de fé e irmão camarada do seu parceiro, o Rei-, que diz:

“Só ela me traz beleza/ nesse mundo de incerteza/. quero fugir, mas não posso/ esse mundo inteirinho é só nosso/ Eu quero Maria Joana/ eu quero Maria Joana/ Eu vejo a imagem da lua refletida na poça da rua, eu penso da minha janela eu estou bem mais alto que ela/ Eu quero Maria Joana/ eu quero Maria Joana/ Eu sei que na vida tudo passa/ o amor vem como nuvem de fumaça/ fumaça/ fumaça”.

Provavelmente os autores não tinham filhos nem filhas naquela época. E se tinham prole certamente era em idades nas quais estavam distantes dos riscos do vício.

Não que eu queira defender um dos ídolos da minha juventude que, junto com seu parceiro, compôs inúmeras canções que marcaram a história da música brasileira e de tantas paixões, mas, preciso dizer que o próprio artista declarou em entrevista que naquela época não se sabia dos perigos e dos efeitos colaterais dessa droga, e que deixou de cantar essa música porque ela não representa sua proposta de vida. Além disso, apesar do alvoroço que causou por causa da letra sobre maconha, o fato de eu ouvir essa música nas madrugadas, por inúmeras vezes, pela rádio AM Mundial do Rio de Janeiro, lá nos primórdios dos anos setenta, isso não me fez enveredar pelos caminhos da droga e nem de desejar me sentir mais alto que a lua.

- Lembram do refrão: “Legalize já, legalize já”?

Isto mesmo, Planet hemp. Possivelmente também não tinham filhos nem filhas naquela época. Pimenta no orifício anal dos outros é sempre refresco.

Sem essa de que se trata de uma droga sem maiores riscos. Como é do conhecimento de vocês essa tal de maconha pode ser a porta para o convívio com outras drogas e com o mundo do narcotráfico. Mundo esse, que é alimentado e prospera, sobretudo, à custa de quem tem dinheiro. Trata-se de um comércio milionário e violento onde a vida é moeda de menor valor. Combatê-lo representa tarefa inadiável e intransferível do Estado. Nesse sentido, a repressão por si só, está longe de ser a solução.  Nas últimas décadas, o resultado do combate às drogas e ao poder do crime organizado, via medidas e leis repressivas, tem sido desalentador, aqui e lá fora.

A legalização, por si só, do uso da maconha, também não será solução definitiva, pois, creio eu, a demanda por substâncias psicoativas continuará a existir, destruindo a dignidade e a vida de uma parte dos usuários que se tornará dependente. Contudo, a descriminalização, como forma de regular droga ilícita na perspectiva de gerar resultados positivos e mensuráveis, e não necessariamente o agravamento do consumo deve ser uma possibilidade a ser considerada pelas autoridades constituídas. É o que penso.

Diante do drama que caracteriza o convívio com as drogas, o que menos necessitam milhares de famílias que vivem atormentadas, desassossegadas, sofrendo sob a égide do medo devido à presença da sombra sorrateira que está à espreita, na noite sem luz em que estão vagando os dependentes químicos é que a Lei se apresente ignorando que tal situação é um problema de saúde pública. Isso porque o dependente químico, conforme já concluído pela Organização Mundial da Saúde é portador de uma doença grave, ou seja, não é um criminoso e o que ele necessita é de tratamento médico, não de prisão. Já não bastam os grilhões que o vício lhe impõe?

Na realidade atual, carecemos ainda de políticas públicas que assegurem o incremento do acesso à educação. Mais ainda, que garantam melhores salários, mais oportunidades de empregos e uma melhor distribuição de renda, no país. Assim, pelo menos uma parcela de jovens não seria aliciada pelo narcotráfico. Obviamente que, independentemente das políticas e ações de Estado e de Governos, cada um pode e deve fazer a sua parte, ficando longe das drogas e se mantendo vigilante (e cuidando) para evitar que os filhos e as filhas se envolvam com drogas. Nesse contexto, é necessário superar a miopia da própria sociedade civil, que não consegue ver claramente o nexo entre consumo corriqueiro de narcóticos por parte dos seus filhos, e a onda de violência cotidiana que bate às nossas portas.

O mundo das drogas representa uma realidade de muitas faces, todas elas trágicas. Que seja assim, ninguém está imune aos tentáculos e tentações dos riscos do mundo do narcotráfico e dos prazeres das drogas. Muitas das vezes o perigo mora ao lado e a curiosidade (ou outros fatores) pode falar mais alto do que a prudência. Portanto, moçada: JUIZO. MUITO JUIZO. Não vacilem. Droga por droga, curtam a vida que às vezes é uma droga. Porém, quando bem vivida dará prazeres inimagináveis a você, a quem te ama e a quem você ama. Além disso, atentem para o fato de que, quem consome drogas financia o tráfico e, portanto, também contribui para que inúmeros jovens (crianças, inclusive) se envolvam com o comércio de drogas, se tornem dependentes químicos e tenham prematuramente um cotidiano e um fim trágico. Portanto, não se permitam matar o futuro.  Inclusive o de vocês.

Por oportuno, eu pergunto a você aí, que está me achando careta: - já não basta os níveis atuais de violência, assim como a triste realidade de milhares de crianças fora da escola, em virtude de terem que trabalhar horas a fio (e muitas das vezes no trabalho pesado) para ajudar a colocar comida, em suas casas? E você ainda fica, com esse seu vício e com esse seu dinheiro amaldiçoado, contribuindo para aumentar a violência urbana e a quantidade de brasileiros que são vítimas de injustiça social. AH! VOCÊ FAÇA-ME O FAVOR: SE CONSCIENTIZE, PROCURE AJUDA E SAIA DA ROUBADA QUE VOCÊ ENTROU. E O QUANTO ANTES, MELHOR.

 

 

  

 

 

 

A SESSÃO DE CELEBRIDADES (65)

 

 

 

Vindo de trás, ouvi dois sujeitos. Um de meia idade e o outro mais jovem que insistiam em achar tudo muito engraçado. Falavam pouco e riam à toa de tudo e de todos. Uma risadinha era chata pra caramba e a outra, por sua vez, insuportável.

Aí começou a sessão de celebridades. Um dizia:

- Olha a Fátima Bernardes e AHAHAHAHAH!!!, (gargalhada em dueto, primeira e segunda voz).

E o outro emendava:

- Olha o Cid Moreira e AHAHAHAHAH!!!

E foram alternando celebridades

- Olha o Faustão e AHAHAHAHAHAH!!!

- Olha a Ana Paula Arósio e HAHAHAHAHAH!!!

- Olha o Reinaldo Ganechini e AHAHAHAHAH!!!

- Olha o Jô Soares e AHAHAHAHAH!!!

- Olha o Luciano Huck e AHAHAHAHAH!!!

- Olha não sei quem mais lá e AHAHAHAHAH!!! 

Este desfile imaginário de personalidades do mundo da TV, patrocinado por estes dois idiotas, parece não ter fim. E o pior de tudo é que não consigo compreender onde é que está a graça. Então me lembrei de alguém que tinha o apelido de risadinha porque quando começava a rir não conseguia mais parar de rir, até que um dia não deu outra e ele morreu de tanto rir. Claro que não eu não quis que batessem as botas de tanto rir. Mas, desejei que pelo menos fossem acometidos de algum mal que contribuísse para dar um fim àquela idiotice. Porém, mais rápido do que pronunciar Pindamonhagaba desisti desse desejo ao lembrar que aí, então, viriam os bombeiros ou a ambulância. Por isso, a solução foi esperar que as celebridades imaginárias procurassem outro lugar da muvuca para se fazerem presentes.

Meu senso de justiça me diz que para eu ficar em paz com a minha consciência é preciso que vocês saibam que lá para as tantas, quando já não havia água gelada para ajudar o carinha do lado a respirar melhor; o idiota de mais idade prontamente meteu-se na multidão, retornando, em seguida, com a milagrosa água gelada. Vai ver que a idiotice era apenas resultante da bebedeira a que ele se permitiu durante o show. Logo atinei para o fato de que a ajuda pode vir de onde a gente menos espera.

Aproveito este clima de solidariedade e deixo aqui uma reflexão para vocês:

Vida é para se dar e não para receber, vida quanto mais se dá, mais vida se tem para viver. Nesta vida tudo se resume ao amor. À sua plenitude ou à sua insuficiência. Por isso mesmo, não se envergonhem de demonstrar os seus sentimentos a quem vocês amam (as formas são incontáveis). Descubram que viver não é conviver com o passar dos anos, em vez disso viver é ter motivos para estar vivo. Além disso, atentem para o fato de que perdoar é um ato de amor. Só quem tem a capacidade de perdoar é que está preparado para amar e ser feliz.

Sendo assim, não façam como aquelas pessoas que, por não saberem perdoar – nem a si e nem aos outros -, não conseguem deixar a vida seguir em frente e continuam presas ao passado, se consumindo em mágoas, em culpas, em ressentimentos e em dissimulações. Alimentando-se de discórdias e, quase sempre, saindo pela vida injetando baixa estima em quem estiver ao alcance das suas palavras (originalmente, essa frase seria, saem etiquetando baixa estima em quem estiver ao alcance de suas mãos).

O que mais me incomoda nesse tipo de pessoas é que elas têm chances de êxito quando as vítimas são jovens, com a personalidade ainda em formação, fase propícia para palavras de incentivo e não de desestímulo. Bem por isso, meus caros jovens se alguém, vez por outra, diz coisas que põem vocês para baixo, parem um pouco e reflitam sobre o que ela fala. De repente ela tem razão e vocês precisam mudar alguma coisa na vida. Agora se for alguém que etiqueta baixa estima em vocês o tempo todo, então ignore o que ela disser. O problema não está em vocês. É nela, que ele reside. Ela que vá cantar noutra freguesia. Que vá plantar batata. Que vá pentear macaco. Que vá catar coquinho. Que vá chupar parafuso até virar prego. Que vá se f..., ou que se toque e promova mudanças na vida dela. Até porque, paciência tem limites e neuroses têm tratamentos, - não é verdade?

 

 

 

 

 


AGORA O BICHO VAI PEGAR (68)

 

 

 

Consulto o relógio e constato que transcorreram pouco menos de três horas desde que aqui cheguei, quando, no ouvido direito escuto o som grave e ríspido, de alguém dizendo:

- PASSE MAIS DEVAGAR!!!!

E o outro, pelo visto apressado, do alto dos seus um metro e oitenta de altura e metade disso de largura, retruca:

- O QUE FOI QUE VOCÊ FALOU?!!

Eles estão a poucos centímetros um do outro e de mim. Aí pensei:

- Agora o bicho vai pegar e me preparei para o pior, face à proximidade física que impossibilitava distinguir entre eles e eu.

Ainda no mesmo tom, escutei:

- PASSE MAIS DEVAGAR!!!!!!

 Agora olho no olho o grandalhão questiona:

- O QUE ISSO QUER DIZER?????

- QUER DIZER PASSE MAIS DEVAGAR!!!!! – Disse o outro

Fecho os punhos e me preparo para bater e para apanhar. Eu não tenho nada a ver com essa discussão, mas, cá na muvuca, tudo é socializado. Não apenas a fumaça e os odores. Nela ninguém é inocente; todo mundo se torna cúmplice e culpado. Porém, não sei se por ter entendido que estava errado, ou se simplesmente havia amarelado diante de alguém mais baixo, menos forte e mais decidido o fato é que aquele guarda-roupa ambulante disse ok! E saiu caminhando lentamente até sumir na multidão.

Uns aqui devem estar achando que ele amarelou porque é um frouxo. Outros certamente acreditam que ele além de usar o bom senso, teve a grandeza de reconhecer que estava errado. Já imaginaram se pelo menos um dos dois fosse do tipo que reage pelo primeiro impulso? Teria sido um desastre e a troco de nada, ou quase nada. Reagir movido pelo primeiro impulso emocional quase que invariavelmente conduz a atitudes equivocadas. Por essa razão, até mesmo quando se vai falar, muitas vezes é prudente pensar antes de abrir a boca, dando uma chance a, pelo menos, algum lampejo de razão, sobretudo quando diante de fortes emoções. Pois é, canja de galinha, tolerância, serenidade e equilíbrio não fazem mal a ninguém. Claro que não estou aqui defendendo que cada um de nós, na vida, tenha como regra fugir dos enfrentamentos ou ser eternamente dócil e cortês. Evidentemente que não, porque há momentos na vida em que cada um de nós tem que virar a mesa; chutar o pau da barraca; falar duro e por aí, vai... para mostrar que está vivo e que não tem sangue de barata.

Agora só porque eu falei isso você não vai sair pela sua vida aos gritos e solavancos. Existem diversas formas de fazer valer os seus direitos e a sua dignidade. A via judicial é uma delas, ainda que algumas vezes se torne excessivamente lenta, sob a ótica de quem necessita dela. Notadamente quando se está na condição de réu e sendo injustamente acusado. Se algum dia você se encontrar nessa situação lembre-se do ponto de vista de um ilustre Procurador do Ministério Público Federal quando ele afirma que processos judiciais também servem para resgatar a dignidade de quem é acusado injustamente.

 

 


 

 

 

BELEZA, É COISA RARA POR AQUI (71)

 

 

 

Áa!!! Úu!!!, (refrão dos Titãs no ar). Áa!!! Úu!!!,

 Que biquinho maravilhoso é este?

Áa!!! Úu!!! Áa!!! Úu!!!

Pena que se foi tão rápido.

Eu sei pessoal, eu sei que tudo que é bom, dura pouco. Parafraseando o poeta carioca, que também foi diplomata, jornalista e compositor, que me perdoem as feias de boca, mas um par de lábios bonitos é fundamental e faz-me lembrar do filme os desencontros da vida, de 1982. Filme esse com o bailarino soviético russo - um dos mais celebrados bailarinos do século XX -, e com a bela e talentosa atriz alemã, nascida em Berlim no início da década de sessenta. Na primeira vez em que ele se dirige a ela o faz com o seguinte elogio:

- Você é muito bonita, não devia usar maquiagem alguma. Principalmente batom. Tens os lábios cheios e generosos, não devias chamar a atenção para o que já é belo ao natural.

Não deu outra, na cena seguinte já estavam juntos e protagonizando ao longo da película muitas cenas picantes, até serem separados pelo desfecho trágico do enredo.

Por conta da lembrança dos lábios dessa bela atriz, confesso a vocês que quando se trata de beleza feminina, os lábios me encantam e despertam toda a minha admiração:

 Lábios de contornos salientes, despropositadamente atraentes, generosos e naturalmente buliçosos: ao natural, na cor de carne ou qualquer um dos tons vermelhos. Lábios carnudos da mulher amada, fonte de beijos e de cumplicidades, de boca que não cabe motivos para inibições e nem insatisfações. Lábios que mesmo se não tivessem os atrativos que possuem, fascinam desde o primeiro terno olhar e nos afagam por toda a vida. Lábios sensuais que semiabertos emolduram uma boca a ofertar malícias involuntárias e inevitáveis. que ao se projetarem na nossa direção nos tomam para si, deixando-nos reféns de desejos impossíveis de serem saciados.

Lábios na cor vermelho claro para não contrastar com a tez clara e buscar, em vão, discrição no cotidiano da vida. Lábios finos e belos que no sorriso revelam uma boca escandalosamente provocante. Lábios anônimos de passagem na multidão que nos fazem desejar que segundos fossem minutos, para prolongar nosso deslumbramento. Lábios proibidos do desejo correspondido, de beijos roubados, improváveis, desejados e convertido em silêncio.  Lábios cujos beijos não deveriam ser exclusivos de um afortunado sem consciência do relicário que lhe pertence: não os admira e nem os elogia. Não preenche seus desejos.  

Lábios que outrora encantavam na cor vermelho sangue, revelando que a beleza e o desejo nela não persistem para sempre. Assim, as cobiças não correspondidas e as reminiscências de cumplicidades, mesmo aquelas que revigoram ou que resgatam a autoestima e o prazer diante dos espelhos e da vida, estão fadadas a se perderem nos labirintos das boas recordações: Sem ofensas nem inibições. Sem culpas nem mágoas. Sem traumas nem temores.

Pois é pessoal, mas, ao alcance da vista, beleza é coisa rara aqui onde estou. É mesmo incrível a quantidade de gente feia que tem nesta muvuca. Claro que tem as exceções, afinal estamos no Rio de Janeiro, indiscutivelmente local de mulher bonita por excelência. Mas ao que me parece pessoas dotadas de beleza provavelmente estão em casa, no Copacabana Palace, na área vip ou lá no epicentro da muvuca.

De repente, não mais que de repente alguém grita:

- MICHEEEEELLE POOOORRA!!!!!

Tudo bem que Michelle lembra os Beatles (por causa da música de mesmo nome). Mas tinha que gritar dentro do meu ouvido como se a tal da Michelle tivesse se escondido lá por detrás da bigorna e do martelo? E ainda por cima nem pude ver se a tal Michelle pelo menos era uma mulher bonita.

E eu bem que podia ser crítico de música ou celebridade, assim eu poderia estar na parte vip sentado, sem sede e sem fome, além de poder assistir ao show de uma posição privilegiada. Ou, melhor ainda, podia ser um milionário. Nesse caso, eu estaria lá no Copacabana Palace de frente para o mar e para o palco sentindo a brisa e as minhas pernas (sem dores e sem dormências).

O casal que passava apressado repetia:  

- Daqui não dá para ver nada, muvuca por muvuca vamos lá pro meio.

E sumiram na direção da areia da praia, de frente para o palco.

Temperatura em franca ascensão. Vez por outra uma brisa tímida se fazia presente. Porém, diante do mais discreto elogio, se perdia no meio da multidão.

- REENAAAAAAATA!! CADÊÊ VOCÊÊÊÊ????!!

Mais uma gritaria no meu ouvido. Putz! Eu não sabia que dentro do meu ouvido cabia tanta gente e fosse tão profundo. Haja paciência!

O público aqui nesta muvuca é composto por pessoas de todas as idades. Tem gente com idade compatível com as idades dos Stones. Tem a turma entre os trinta e os cinquenta anos. Tem a galera que já passou dos vinte e não chegou aos trinta e, tem, também, os adolescentes.

- MÂÂÂÂIÊÊÊÊÊ!!!! Ô MÂÂÂÂIÊÊÊÊÊ!!!!!!!!

E claro, tem as crianças com seus pais desatentos.

 

 

 

 

 

 

CHUVA COISA NENHUMA (75)

 

 

 

Cerveja dois reais, água um real e coca dois reais. O red bul eu não faço a mínima ideia. O mesmo eu digo da caninha com mel. Isopores indo e vindo e eu tentando me equilibrar mantendo pelo menos um pé no chão, e, algumas vezes, com uma garrafa vazia de água entre os pés e o chão. E vamos chutando garrafas de plásticos para os lados que, pelo óbvio, insistiam em retornar para o local de antes (eu chutava pra lá e o pessoal chutava para cá).

De repente água no meu pescoço. Então eu pensei:

- A previsão do tempo estava certa aí vem a chuva. E, puxa vida, como a chuva aqui no Rio de Janeiro é gelada!! E, põe gelada nisso.

Chuva gelada?!!! Chuva coisa nenhuma, era mesmo água gelada que jorrava de um saco de gelo suspenso e parado esperando passagem. E claro, tinha que ser por entre estes dois isopores situados à minha esquerda e à minha direita. A camisa molhada só aumentou minha inquietação.

 

 

  

 

 

 

DE FRENTE PARA O PALCO (76)

 

 

 

Não sei cantar as músicas do Rappa, do Afro nem dos Titãs. E, nem dos Stones. O jeito foi fazer como tanta gente faz quando toca o hino nacional em solenidades públicas, incluindo é claro, equívocos na sequência dos versos. Não sei vocês, mas sou daqueles que defendem a importância de cantar corretamente o hino nacional. E mais, de sentir orgulho em cantá-lo. De se sentir brasileiro ao ouvi-lo.

Patriotismo à parte, uma boa dica para curtir o show na sua plenitude é aprender antecipadamente, as letras das músicas – pelos menos os sucessos da turma que vai se apresentar no palco. Claro que há riscos de não dar certo. Foi o que ocorreu com o carinha que decorou inteirinha a letra da música Don’t stop e a turma dos Stones não a incluiu no repertório do show. Fazer o que? Quem mandou decorar apenas uma música.

Além disso, bom mesmo é vir com uma turma animada. Dá gosto de ver a animação do pessoal aqui do lado. Uma turma de jovens que não para de dançar e de cantar corretamente, em alto e bom som, todas as músicas (cantaram até parabéns pra você, para um deles que estava aniversariando). Sem falar que quando estão abraçados em círculo e pulando não tem como ficar assim que nem eu nesta muvuca, parecendo uma estátua. E, claro, para aproveitar o show bom mesmo é ficar próximo e de frente para o palco.

Pois bem, se no show a melhor posição é ficar de frente para o palco, na construção do amanhã o melhor posicionamento é aquele no qual o caminho está pela frente. Essa perspectiva é verdadeira mesmo quando se faz necessário retroceder, voltar atrás. Nessas situações, basta ter coragem para dar meia volta e vislumbrar, de frente, o caminho a seguir. Isso porque é caminhando que se constrói o caminho, ainda que parte desse caminho seja repleto de destruição.

 

 

 

 

  

 

UMA VIA DE MÃO DUPLA (78)

 

 

 

Uma trégua no fundo musical. Então me pus a refletir sobre o fato de eu estar no meio de mais de um milhão de pessoas e de certa forma me sentir sozinho, pois o que menos rola aqui na muvuca é diálogo entre os presentes. É cada um na sua e todos voltados para o show.  Aí, me veio à mente o que eu chamo de prática do coletivo individual: você sozinho em seu quarto teclando na internet com um monte de gente (conhecida ou desconhecida) ao mesmo tempo. É cada um sozinho e todos voltados para o monitor, se comunicando monossilabicamente. E, vez por outra, acessando um monte de porcarias ou lendo (e escrevendo) um monte de inverdades (notadamente os adultos).

Por isso mesmo é oportuno ressaltar que no mundo virtual da internet, nas salas de chat, existem inúmeras pessoas que se predispõem a enganar ou a serem enganadas na ilusão de que assim resolverão os seus problemas emocionais. Ledo engano, a dissimulação não é solução para nada nem para ninguém, na vida real. Além disso, o universo da internet é cheio de possibilidades e de riscos concretos. E, às vezes, a maldade de uns se encontra com a ingenuidade de outros e o resultado pode acarretar danos irreversíveis. Nesse sentido é preciso cuidar e ter cuidado cotidianamente.

Nestes tempos da prática do “eu comigo mesmo”, um montão de jovens, quando em seus lares ficam se revezando entre o computador e a TV não importando qual seja o horário do dia ou da noite (incluindo a madrugada). De minha parte, aceito até mesmo que os jovens fiquem horas e horas diante da TV ou do monitor, desde que isso não caracterize fuga das verdades e das responsabilidades do mundo real. E mais, que saibam discernir entre o certo e o errado, mantendo o senso crítico e sendo minimamente rebeldes. Assim, terão a capacidade de se indignar diante das injustiças sociais não se permitindo ser massa de manobra.

Claro que eu concordo com vocês, melhor seria que dedicassem parte desse tempo à leitura de bons livros. Assim, teriam contato com mentes brilhantes e com histórias maravilhosas e, quem sabe, até despertariam vocações antes nunca imaginadas. Poderiam também, dedicar algum tempo para exercitarem o diálogo na forma presencial, seja entre amigos ou na família. Assim, seria mais fácil (ou menos difícil) aprender a sonhar, a ter metas na vida e a persegui-las com perseverança. Em acréscimo, se acostumariam a fazer perguntas e a procurar respostas.

Nesse contexto é importante que não nos esqueçamos de que o diálogo é uma via de mão dupla, sendo imprescindível que os pais tomem a iniciativa não esperando pelos filhos. Do mesmo modo, e pelas mesmas razões os filhos devem tomar a iniciativa, não aguardando pelos pais para que o diálogo se torne uma rotina, no ambiente familiar. Por meio do bate-papo é possível compartilhar experiências, dúvidas, desejos, incertezas, sentimentos, aspirações e tantas outras coisas na perspectiva da ampliação do conhecimento individual, do conhecimento do próximo e do conhecimento do mundo.

Agora muito cuidado!!!! Só não façam como aqueles que confundem o ato de compartilhar com a prática de invadir a vida do outro, negando-lhe inclusive a individualidade, a privacidade, o poder de discernimento e a possibilidade de tomada de decisão e, com isso, transformando o diálogo em interminável e insuportável bate-boca. E, ninguém merece isso. 

 

 

 

 

 

 

É MESMO MUITA CARA DE PAU (81)

  

 

 

Não esqueçam, É PAZ E AMOR! Não esqueçam, É PAZ E AMOR! - Repetia calmamente o hippie anos 60 enquanto se deslocava lentamente.

- ROCK ROLL E MUITA SACANAGEM!  ROCK ROLL E MUITA SACANAGEM! – Emendava a garota da turma de trás.

Essa história de paz e amor foi uma marca registrada da minha geração, na juventude. Era, sobretudo, um grito de resistência contra as guerras. Teve o seu papel na luta pela paz, mas não impediu (nem tinha como) a continuidade dos conflitos armados. Eles, atualmente, continuam ceifando vidas e movimentando na indústria bélica, bilhões de dólares por ano no mundo. E, cá entre nós é muita cara de pau dizer que as guerras objetivam a paz. Como diria o nosso poeta maior, nascido em Itabira do Mato Dentro – MG e homenageado com uma estátua no calçadão da praia de Copacabana, a guerra assume tantos disfarces que às vezes é chamada de paz.

Não sei para vocês, mas para mim as guerras estão relacionadas é com este desejo incessante pelo poder, que acompanha o homem ao longo da história da civilização. Tudo bem, pessoal, eu concordo com vocês que de uns tempos para cá o motivo principal é mesmo o petróleo. Mas também não podemos nos esquecer das guerras que acontecem por domínio territorial e econômico, por motivos étnicos ou devido a ideologias fundadas no extremismo religioso. O resultado é esta insanidade desenfreada que rola mundo afora - invasões, atentados, homens bombas, fanatismo religioso, intolerância racial. Violência. Muita violência. Tempos de morte, não de vida. Já estão afirmando por aí, que daqui a uns tempos em vez de guerrearem por petróleo o farão por água potável. Era só o que estava faltando, mesmo. E o mais grave é que do jeito que estamos tratando os nossos rios e mananciais hídricos em geral, a água potável, que é imprescindível à vida, corre o risco de se tornar, no futuro, um bem raro e insuficiente corroborando para afirmações desse tipo.  Já há quem diga que dentro de trinta anos 50% da população mundial não terá acesso à água potável.

Em relação a essas questões, somente sendo muito ingênuo para acreditar que a paz que se faz necessária será estabelecida simplesmente pelo uso coletivo da cor branca ou devido a discursos e passeatas de ocasião. Ou mesmo por meio de frases de efeito. O buraco é mais embaixo. E bem mais embaixo. Essas atitudes, quando muito, propiciam efeitos pontuais e passageiros, ou seja, são praticamente inócuas diante de tanta violência.

Ademais, paz não significa tão somente ausência de conflitos armados. Um exemplo (e dos mais absurdos) de ausência de paz é o fato de que, a cada 3 segundos, morre uma criança por conta da miséria e da fome, no mundo. Como vocês sabem o dia tem 24 horas, então façam uma continha rápida e me digam: quantas crianças são vitimadas pelo descaso do ser humano, diariamente? E no Brasil, quantas crianças vão a obtido por dia, devido a questões relacionadas com a falta de alimentação? Este é um dado que faz parte das estatísticas oficiais, caracterizando um problema que, muito embora clame por solução imediata, não recebe a devida atenção dos governos. E como vocês devem saber é um dado que é solenemente ignorado pelos internautas, assim como tantas outras informações que dizem respeito às condições de vida da população brasileira, que sobrevivem abaixo da linha da miséria.

Outo exemplo gritante de ausência de paz é o fato de o número de pessoas subnutridas, neste mundão de meu Deus, já beira os 900 milhões– algo próximo de 5 vezes a população do Brasil. Mas, vocês estão cobertos de razão ao me alertarem que estou, mais uma vez, a tergiversar e dando chances para que alguns de vocês venham defender as políticas compensatórias, levadas a efeito pelo Governo Federal, como sendo a solução para esta questão. Então voltemos para Copacabana.

No meio da multidão surge outro personagem (baixinho e franzino) que bêbado, caminhava com o dedo em riste dizendo em tom de advertência:

- CUIDAADO! Vocês tenham cuidado, senão eles vão enfiar uma coisa bem grande na bunda de vocês. CUIDAADO!!! MUITO CUIDAADO!!!.

Perguntei a mim mesmo:

-Teria sido um cassetete?

Nada disso pessoal, eu não estou acusando ninguém desse tipo de violência, que vocês estão imaginando. Apenas lembrei-me de que numa das vezes em que a tropa, o pelotão, ou dizendo de forma mais apropriada, a fila indiana de policiais passou por mim (ou quase por sobre mim); deu para ver de perto o tamanho dos cassetetes, mesmo porque não tinha como não ver, pois passaram a milímetros do meu nariz. Vai ver que, involuntariamente, um daqueles cassetetes percorreu as nádegas ou se meteu por entre as pernas dele. E, bêbado como ele estava ficou a imaginar, quem sabe, outras coisas. 

 

 

 

 



AFINAL TUDO É NORMAL  (85)

 

 

 

- AIIII!!! SANTO SAPATO DE SALTO FINO!

Esbravejou em dor o vendedor do lado direito, que não media esforços para vender seu estoque inteiro de bebidas. Podia ter sido no meu pé, mas, antes no dele do que no meu. Todavia, bem que a mocinha devia ter vindo com outro tipo de calçado (aqueles centímetros a mais não iriam ajudar em nada). Eu aqui dos meus um metro e setenta e seis de altura (já contando com os dois centímetros do salto) me sentia pequenino. É que entre mim e o telão havia inúmeras cabeças (com e sem bonés) que insistiam em concordar comigo. Eu inclinava a cabeça para esquerda e as cabeças também pendiam para a esquerda. Então eu inclinava a cabeça para o lado direito e lá estava o telão. Aí, todas as cabeças também pendiam para o lado direito e adeus telão. Quis que discordassem de mim. Porém ao longo de todo o show, não fui atendido.

Associando o termo estrutura ao biótipo das pessoas, creio que a grande contribuição da rainha dos baixinhos, apesar da indumentárias, foi retardar a puberdade de uma geração, assegurando mulheres com estatura compatível com as de países desenvolvidos. Com a chegada daquelas bandas com aquelas bundas (e que bundas) à mostra e a sensualidade jorrando pelos poros e pela TV não deu outra, as meninas começaram a menstruar mais cedo e, por consequência, a estatura de inúmeras mulheres é esta que está aí. Nada contra as mulheres de baixa estatura (e sim contra a menstruação precoce, induzida pelos meios de comunicações televisivos e virtuais), mesmo porque acredito que nós os homens, de uma maneira geral, nos sentimos atraídos de uma forma especial pelas mulheres de baixa estatura. Além disso, ao longo da vida elas aparentam menos idade do que realmente têm (a natureza é sábia ao compensar os desejos de uns centímetros a mais nos tempos de adolescência).

Se essa minha ilação tem alguma chance de ser uma hipótese verdadeira, nestes tempos atuais repletos de sacanagens explícitas, seja via internet ou via TV, é possível que a puberdade precoce se torne regra e, assim, a primeira menstruação das meninas - quase crianças -, ocorrerá cada vez mais cedo (há 100 anos a idade média da primeira menstruação se dava aos 14 anos. Hoje é de 12 anos, mas é cada vez mais frequente garotas tendo a primeira menstruação aos 10 anos).

Aqui pra nós, não estou convencido de que esta realidade virtual/visual seja um problema mundial devido à globalização e ao avanço dos meios de comunicação. Tampouco é uma estratégia para reduzir a estatura média das mulheres brasileiras. Claro que não. Para mim, tem tudo a ver com a quebra (ou negação) de valores éticos e de valores morais, o que possibilita entre outros danos irreparáveis às novas gerações, o exercício do poder nas mãos erradas e com práticas igualmente erradas. Sem limites e sem vergonha.

Afinal tudo é normal! É assim que esse mundo virtual tem ensinado às novas gerações. A mudança desta realidade é tarefa dos pais, dos profissionais da educação, dos formadores de opinião em geral e da classe política. Resta saber se estamos preparados e dispostos para modificar tal situação.

 

 

 

 

 

 

EU ACEITO O ARGUMENTO (88)

 

 

 

EU ODEIO A FERNANDA. Era o que estava escrito na camiseta do carinha que devia mesmo odiar a tal da Fernanda, pois não parava de balançar a camiseta diante de todos. Qual teria sido o crime dessa tal Fernanda? Quem seria ela? Seria a Fernandinha Abreu? Se for ela, certamente ele não é carioca porque aqui, no Rio, todos amam essa cantora. Confesso que depois da Blitz, aquele grupo musical genuinamente carioca que, na década de oitenta, fez sucesso do Oiapoque ao Chuí, eu perdi a sintonia com ela e só me vem à mente aquela história de bater lata (música que fez um enorme sucesso).

Para mim, quando se trata da vida real, esse negócio de bater lata é coisa com gosto musical questionável e meio sem futuro, mesmo em se tratando desses programas de assistência a menores e maiores abandonados, visando desviá-los ou retirá-los dos caminhos do crime. Tudo bem, eu aceito o argumento de que é melhor bater lata do que ficar na rua à mercê do mundo do crime. Mas, convenhamos que ninguém, em sã consciência, suporta ficar batendo, ouvindo ou olhando bater lata pela vida inteira. Nem mesmo os turistas. Uma vez vá lá. Duas vezes até que dá, mas três vezes eu duvido. Felizmente esses programas não ficam apenas nas latas e contribuem para que muita gente tenha a perspectiva de um futuro minimamente decente. Nesse sentido, bom mesmo seria que existisse entre nós a prática corrente de participar de trabalhos voluntários. Além de ser uma experiência de vida gratificante, essa atividade contribui para o pleno exercício da cidadania. Uma alternativa viável seria adotar aquela proposta na qual todo aluno de universidades deveria participar de trabalhos comunitários, durante pelo menos um ano (ou mais) da sua formação (valendo inclusive carga horária para a conclusão do curso).

Em relação a isso, li, recentemente, que os jovens de hoje em dia em vez de se interessarem pela militância política estão optando pelo trabalho voluntário. Essa atitude reflete de um lado o interesse em participar e contribuir para minorar determinados problemas que existem no país e, de outro lado, reflete a desilusão com a atividade político-partidária. Todavia, no meu entendimento, uma coisa não substitui a outra, porque, são atividades que se complementam. Bem por isso, eu fico a imaginar a dimensão do impacto social de uma juventude esclarecida politicamente, com visão humanitária, fortemente engajada na militância política e participando de ações voluntárias de interesse social e comunitário.

Nessa perspectiva, é impreterível estripar do cotidiano nacional as regras vigentes para a existência de partidos políticos, assim como as estratégias utilizadas para se chegar e permanecer no poder. Do contrário, continuaremos rumo à metástase do nosso tecido político-social. Já não dá mais para justificar que todos os equívocos e distorções da atual prática política se devem aos longos anos de regime de exceção representado pela ditadura militar e, que continuamos sobre o efeito da ressaca daqueles tempos, reaprendendo a conviver com a democracia.

 

 

 

 

 

 

NÃO SE DEVE DAR CHANCE PARA O AZAR (91)

 

 

 

Eu sei que em cidades grandes não se deve dar chance para o azar. O carinha aqui do lado também:

- Você fique esperto. Aqui eles põem a mão no seu bolso e você nem sente - alertava ele ao turista ou amigo.

O gaúcho educado, - lembram dele? O gordinho (estou retribuindo a educação), queria saber se na hora de voltar para o apartamento em que estava hospedado à Rua Barata Ribeiro, bem ali ao lado, haveria risco de arrastão? Isso mesmo, aquela turma de delinquentes que passa arrastando e levando tudo de valor de quem eles encontram pela frente. Inclusive nas areias das praias, à luz do dia e das câmeras de TV. Pelo que ouvi a dúvida permanecerá com ele até adentrar no hotel. A dúvida do sulista mês fez lembrar do desespero do turista no metrô a caminho do show, apavorado e com receios de errar, na volta, a parada que o levaria de volta para o hotel no Largo do Machado, quando era só contar três paradas e saltar, ou apenas, ficar atento à voz que anuncia, via serviço de som ambiente, o nome da próxima estação que o metrô irá parar. Dei-me conta, então, de que a televisão pinta um Rio de Janeiro com mais violência do que é de fato numa cidade deste porte e com os problemas de ordem social que lhes são peculiares. Obviamente essa minha impressão não pretende nem diminui a violência que realmente existe nesta cidade maravilhosa, mas, na forma e na persistência em que é veiculada, até parece que não existe violência no resto do país.

Essa violência que assola o país não é novidade para ninguém e advém, dentre outras causas, das desigualdades sociais e das comparações entre classes que elas ensejam (Quem tem, tem; quem não tem não se conforma e quer ter também). Investimentos maciços e continuados em educação com certeza contribuiriam para minorar significativamente essa realidade nacional. E, olha que, não estou puxando a brasa para minha sardinha pelo fato de ser professor. Todo e qualquer governante minimamente sério sabe do que eu estou falando já que são inúmeros os problemas que assolam o país e cujas soluções passam pela educação ou se agravam e se perpetuam pela ausência dela.

Eu sei pessoal e concordo com todos vocês que uma política consequente na área de educação só surtirá efeitos a médio e longo prazo. Por isso é justificável a adoção de políticas sociais compensatórias como os programas governamentais de cunho assistencialista, que garantem um mínimo de alimentação e outros benefícios às camadas mais necessitadas da população brasileira (do tipo Vale Escola; Vale Gás, Vale Alimentação, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, Bolsa Família etc.). Porém, é inaceitável que esses tipos de programas se tornem solução (paliativa) de médio e de longo prazo, ou apenas instrumento de captação de votos para os governantes da vez. Também por isso, é que urge a retomada do desenvolvimento econômico sustentado do país, que deve ser caracterizado pelo crescimento econômico associado ao desenvolvimento social e cultural.   

Para tanto, dentre outras iniciativas, é necessário investir no setor produtivo para que ele tenha capacidade de gerar novos empregos e ter produtos competitivos no mercado internacional, assegurando o incremento na capacidade de exportação. Além disso, é preciso mais recursos para o setor de infraestrutura do país - transporte, estradas, energia e saneamento básico. Por outro lado, é necessário que haja um controle rigoroso por parte do governo das contas públicas, incluindo medidas para reduzir o impacto de curto e de médio prazo da dívida pública na política econômica. Imprescindível, também, a adoção de políticas públicas que assegurem a melhoria dos serviços públicos de saúde e educação, de modo a garantir dignidade social e um melhor nível educacional e profissional, da população brasileira. E claro, há que se melhorar – e muito - a distribuição de renda, que é péssima, com vistas à diminuição das severas desigualdades sociais que existem no Brasil.

O desenvolvimento social pode ser analisado por meio do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, que pondera e examina a renda, a educação e a longevidade) e pelo Índice de Gini (que mede a Concentração de Renda, ou seja, o nível da pobreza e da riqueza). O crescimento econômico, por sua vez, pode ser medido por meio do Produto Interno Bruto, que nada mais é do que a soma de toda a produção de bens e serviços ocorrida no país. Na soma total resultante dessa produção não é considerada a nacionalidade dos que se apropriaram dessas rendas nem se desconta as rendas que foram enviadas para o exterior e, não são incluídas as recebidas do exterior.

Quanto maior o PIB, mais rico o país. Quanto mais ele cresce melhor é a situação do país no que se refere à produção de bens e serviços, não necessariamente no que se refere ao desenvolvimento social, mesmo considerando a ampliação nas oportunidades de empregos. O PIB, descontado da renda enviada ao exterior e somado à renda recebida do exterior é chamado Produto Nacional Bruto. O PNB considera as rendas recebidas do exterior por nacionais do país e desconta as que foram apropriadas por nacionais de outros países.

A Renda Nacional Líquida, por sua vez, é obtida subtraindo-se do PNB as perdas por depreciação, no período desejado. No Brasil, o PNB é menor do que o PIB porque uma parcela do PIB brasileiro não é usufruída por brasileiros e sim enviada ao exterior na forma de lucros, dividendos e juros do capital estrangeiro. Por isso, a Renda Interna Bruta é menor do que PIB. 

O Brasil cresce ano após ano, com índices do Produto Interno Bruto (PIB) abaixo da média de crescimento do resto do mundo e a expansão média anual nos últimos 10 anos (1996 a 2005) do PIB é da ordem de apenas 2,2%. Para vocês terem uma ideia do tamanho do problema que temos pela frente, segundo os economistas de plantão, se o país crescer com índices anuais do PIB na ordem de 5% levará três décadas para alcançar a renda média de um país desenvolvido da Europa. Outro fato que deve ser considerado é que o PIB deve crescer ao menos 4% para criar os empregos necessários à acomodação de mais de um milhão de pessoas que ingressam no mercado de trabalho a cada ano. E se isso não ocorrer, a equação é simples: mais desemprego e menos renda e todas as demais mazelas decorrentes disso.

No ano de 2005, considerando a América Latina, o PIB brasileiro superou apenas o PIB do Haiti. Isso mesmo, gente, aquele país em que a população está mergulhada na miséria e à beira de uma guerra civil. Todavia, para os próximos anos, espera-se que o país aproveite o bom momento da economia mundial e alcance índices do PIB, mais animadores. No mais é torcer para que não ocorram crises de grandes proporções na economia mundial, senão os índices do Produto Interno Bruto (PIB) irão encolher. Nessas situações, para além da desaceleração da economia, conforme seja a gravidade da crise, pode ocorrer redução significativa do crédito bancário para as empresas e taxas elevadas de desemprego. Aqui e lá fora. É que a corrente se rompe no elo mais fraco, que é o trabalhador.

Agora que vocês sabem o significado do PIB, espero que doravante, tenham a curiosidade de acompanhar a evolução desse índice econômico, ano a ano.

  

 

 

 

 

 

A VACA VAI PRO BREJO (96)

 

  

Como ainda temos tempo para o início do show, então eu vou falar um pouco mais sobre a economia brasileira. De início, é preciso dizer que, neste ano de 2006, o Brasil, é um dos cinco países com maior potencial para desenvolvimento e, contraditoriamente, um dos cinco países com maior risco para se realizar investimentos. Nesse ano de 2005 o PIB do país foi de 2,3 % ao ano, enquanto a média mundial de desenvolvimento foi algo em torno de 4,4 % ao ano. Ou seja, comparativamente a outros países, o Brasil se arrasta em termos de desenvolvimento econômico. Particularmente se considerarmos os países, que a exemplo do nosso, são classificados como emergentes.

Para vocês terem ideia do tamanho do problema, se o país crescer com índices anuais do PIB na ordem de 5% levará três décadas para alcançar a renda média de um país desenvolvido. Nesse contexto, é importante atentar para o fato de que desse índice divulgado, deve ser descontado um percentual em torno de 1,5% devido ao crescimento populacional. Ou seja, quando a economia cresce de 5% ao ano, o PIB por habitante (PIB per capita) aumenta de 3,5%. Outro fato que deve ser considerado é que o PIB deve crescer ao menos 4% para criar os empregos necessários à acomodação de mais de um milhão de pessoas que ingressam no mercado de trabalho a cada ano.

Para entender um pouco mais sobre essa situação vamos começar pela taxa de câmbio que é o preço (cotação) de uma moeda em relação à outra moeda, representando o preço em termos monetários nacionais da divisa estrangeira correspondente. Já a Balança de Pagamentos é o registro contábil das transações econômicas - financeiras de um país com outros do mundo. Tem duas contas principais: a conta corrente (movimento de mercadorias e serviços); e o movimento de capitais (deslocamento de moeda, de créditos e de títulos, representativos de investimentos). Por meio do saldo da Balança de Pagamentos em transações correntes é possível saber se, em determinado período, o país exporta ou se importa, capitais. O saldo positivo indica exportação. O Balanço de Pagamentos pode ser superavitário, deficitário ou equilibrado. É superavitário quando a quantidade das divisas que entraram durante o ano, for superior à que saiu, aumentando as reservas do país. O ajuste do Balanço de Pagamentos se dá via desvalorizações reais da taxa de câmbio. Isso ocorre, por meio da redução do nível de atividade econômica, ou seja, por medidas de restrições tarifárias às importações, por subsídios às exportações e pelo aumento da taxa interna de juros, além de controle da saída de capitais e rendimentos para o exterior e, também, pelo aumento de impostos (carga tributária).

O superávit primário, por sua vez, é a diferença positiva entre receitas e despesas do país. Nesse caso, excluídos os gastos financeiros ao final do período em análise. Uma das medidas para obtê-lo é reduzir os gastos financeiros (congelar salários, diminuir investimentos em infraestrutura, em educação em saúde etc.). Outra possibilidade é aumentar as exportações (aqui cabe registrar que a alta do dólar é um fator que contribui para melhorar o desempenho das vendas externas).

As despesas do país estão relacionadas, sobretudo com a dívida pública (soma de tudo aquilo que todos os órgãos do Estado brasileiro devem. Ou seja, o Governo Federal, os Estados, os Municípios e as Empresas Estatais). Comumente, é classificada em dívida interna (o que os municípios e os estados devem à União), que pode ser paga em moeda nacional, e em dívida externa, que deve ser paga em moeda estrangeira. Sendo assim, se o dólar subir esta dívida sobe, também. Vejam vocês que complicação. Se o dólar sobe então melhora as exportações e aumenta a dívida externa. Se o dólar cai então diminui a dívida externa e dificulta a exportação gerando crise na agricultura nacional, por exemplo.

Há mais, a rolagem da dívida interna é vinculada a juros pós-fixados e à correção cambial. Portando parte da dívida interna cresce com o aumento das taxas de juros. A dívida interna advém do financiamento de novos gastos públicos em bens e serviços em qualquer nível de governo ou entidade pública; dos gastos com pagamento de juros sobre dívidas já contraídas e da política monetária e cambial cuja responsabilidade é do governo central. O crescimento da dívida interna se deu principalmente devido a grandes déficits na balança comercial e, que para equilibrar as contas optou-se por atrair capitais externos, a juros altos.

O PIB atual não possibilita o crescimento econômico. Apesar disso o país não pode parar e é preciso financiar a educação, a saúde, os programas assistencialistas, a máquina dos estados e municípios, o pagamento aos credores, financiar a renegociação da dívida interna.  E ainda por cima segurar a inflação.

Para entender os efeitos da inflação, imagine que o quanto você ganha é suficiente para comprar 100 pães (não que eu queira que você só coma pão, é só para facilitar a explicação). Se a inflação ao mês for de 2% e o seu salário não for reajustado nesse percentual, então no mês seguinte você vai poder comprar 98 pães. Persistindo a situação seu poder de compra será cada vez menor a cada mês subsequente. Assim, o padeiro vende menos e ganha menos (o mesmo ocorre com os vendedores dos produtos usados para fabricar o pão), daí ou ele aumenta o preço do pão ou demite funcionários (qualquer que seja a decisão, mais gente vai comprar menos pães).  Se ele fabricar menos pães gasta menos energia, então as companhias de energia elétrica passam a ter menos lucros e se a queda na arrecadação, considerando os demais setores produtivos, for significativa elas têm que aumentar o valor da energia (ou demitir pessoal) para compensar a queda de arrecadação. E, se a inflação disparar a vaca vai pro brejo de uma vez.  E nós todos, vamos juntos. Esse raciocínio pode ser aplicado em todos os setores da economia, seja ela formal ou informal.

Vejam vocês em que sinuca de bico o Brasil está metido. Tem que melhorar o PIB, investindo no crescimento econômico e, em vez disso, até para assegurar que o país não pare o Governo tem adotado, sem buscar alternativas outras, a política de superávit primário e de remunerar, a juros elevados, o capital especulativo (que só gera capital especulativo), estagnando a economia.

 

 

 

 

 


O NOME DA BANDA (100)

  

 

- Você sabe de onde saiu o nome da banda?  - Questiona o garoto da turma do lado.

- Você sabe de onde saiu o nome da banda?  - Questiona o garoto da turma do lado.

- No ano de 1960 os dois amigos de infância Mick Jagger e Keith Richards, se reencontraram num trem de Dartford a caminho de Londres e descobriram que tinham o mesmo gosto musical (Jagger levava discos de blues - que chamou a atenção de Keith). Jagger convidou o amigo a se juntar à sua banda. Enquanto isso um guitarrista chamado Brian Jones tocava noutra banda em um clube londrino, local onde o trio viria a se conhecer. Tempos depois, em 1962, decidiram montar a banda que se chamaria The Rolling Stones, por sugestão do Brian Jones inspirado no nome de uma canção de Muddy Waters (músico americano de blues), Rollin Stone. A inclusão da letra “g” se deve a Andrew Oldham, produtor que descobriu e ajudou a banda a se tornar um mito da história do rock. Ele acreditava que se você abrevia seu nome, você também está abreviando seu potencial de ser levado a sério.

- E a formação da banda é esta desde o início? – Quis saber ele.

Então aproveitei para contar um pouco de história:        

- Em 1962, calcando sua sonoridade no blues, a banda surgia como uma opção que se contrapunha à imagem de bem-comportados dos Beatles, tendo por formação inicial Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Bill Wyman. Um ano depois, Charlie Watts assumiu a bateria, completando a formação definitiva da banda e, de lá para cá, o rock inglês nunca mais foi o mesmo. Mas, em 1969, Brian Jones (considerado um visionário e o idealizador do grupo) abandonou oficialmente os Stones, sendo substituído por Mick Taylor. Ele (o Brian) era tido como o mais excêntrico da banda, sempre exilado em suas próprias ideias e sem muito tempo para o mundo exterior. Poucos meses depois de sua saída, Brian Jones foi encontrado morto no fundo da piscina de sua casa, na Inglaterra, em circunstâncias até hoje pouco esclarecidas. Existem duas versões. Em uma delas, ele se afogou sob influência de drogas e álcool e, na outra, ele foi afogado propositalmente por um dos empreiteiros contratados para fazer obras na propriedade. O laudo sobre a causa da morte foi suicídio. Rola até hoje dúvidas se esse laudo está correto. Tem até filme abordando o assunto. Nesse filme há uma afirmação que o tal empreiteiro, no seu leito de morte, teria confessado que matou o Brian. Seja qual for a versão que corresponda aos fatos, essa foi uma fatalidade que marcou a trajetória dos Stones.

- Valeu tio, obrigado, disse ele, abrindo um largo sorriso.

 

 

 

  

 

 

MALHANDO EM FERRO FRIO (102)

 

 

 

Dizem que no início dos anos noventa Mick Jagger e Keith Richards não se toleravam mais e, que não conseguiam sequer dividir o mesmo ambiente, exceto o palco, sem se atracarem – comentou minha companheira de show e de vida.

- Possivelmente, ficavam juntos artisticamente em função da grana que a banda assegurava aos dois e, evidentemente, por ser ótima vitrine para as incursões musicais solo deles - respondi tentando justificar o porquê daquele comentário.

Bom, se isso é fato ou boato nós não sabemos. A verdade é que continuam dividindo o palco e a autoria de um montão de músicas. Nessa situação, convenhamos que ter quarenta anos de convivência musical harmoniosa, não deve ser coisa fácil para ninguém mesmo. No caso desses dois deve ter sido (ser) coisa do tipo eu não te suporto, mas não consigo viver sem você.

Vou pegar um gancho nessa história de ficar junto sem se gostar para dizer a vocês que viver a dois, nada mais é do que a difícil arte de transformar, diariamente, dois em um, assegurando a individualidade tanto de um quanto do outro. Sendo assim, o essencial para o êxito de um relacionamento não está nas semelhanças e sim nas diferenças. Melhor dizendo está no reconhecimento e no respeito às diferenças (esses, e não outros são os aspectos que devem ser considerados na busca da dita alma gêmea).

Nessa perspectiva, o reconhecimento significa não fechar os olhos nem fazer de conta que determinadas diferenças não existem. O respeito, por sua vez, é o reflexo da capacidade de tolerância em alguns casos e de renúncia em outros casos. É uma via de mão dupla. Fácil não? Fácil coisa nenhuma, mesmo nas coisas mais simples nós, os seres humanos, temos a incrível capacidade de complicar. E põe complicar nisso. Por isso mesmo é bom não esquecer que, em se tratando de relacionamento a dois, cada caso é um caso não sendo recomendável fazer comparações. Ou seja, se um relacionamento fracassou não quer dizer que o mundo acabou e que outro relacionamento não possa dar certo.

Agora meus caros jovens, o mais importante nesta conversa aqui é vocês compreenderem que não são culpados pelo fracasso do relacionamento dos pais de vocês, se isso ocorrer. Além disso, se o convívio deles já foi para o espaço (um para cada lado) ou se, no mesmo espaço, continuam distantes (um para cada lado) não significa que vocês não terão êxito nos relacionamentos atuais, ou futuros de vocês. Nada a ver mesmo. No máximo, aprendam com os erros deles. Sem essa de filho de peixe, peixinho é. Um bom começo é ficar imune ao vício da discórdia.

Portanto, se permitam amar e ser feliz. E quando algum relacionamento não der certo, deixem que a vida siga em frente e sejam capazes de amar novamente. Eu sei gente, não sou de ferro (já fui jovem e sei o que é desilusão). Sei que muitas vezes não é fácil superar um revés amoroso. Mas, se entregar às bebidas, ao desânimo, à anorexia e a outras atitudes autodestrutivas, não é, nunca foi e nem nunca será solução para o mal de amor. Não entrem nessa. Ao contrário disso ponham a autoestima para cima. Nesse sentido, sejam menos rigorosos quando o assunto for relativo a vocês: fisicamente, emocionalmente, intelectualmente. Em outras palavras, quando diante do espelho não sejam tão exigentes com vocês mesmos. Refiro-me aqui ao espelho que reflete o próprio físico e, também, ao espelho imaginário que permite, a cada um de vocês, olhar para dentro de si e vislumbrar-se: sem máscaras e sem dissimulações.

Sei que na vida, há momentos em que exigimos e esperamos muito dos outros ou de nós mesmos. Há momentos outros em que temos a tendência de nos depreciarmos em demasia. Nesses momentos é salutar lembrar de que, nesta vida, a dose certa é a dose do equilíbrio. Por isso, não queiram dar ao mundo ou às pessoas mais do que esperam e precisam de vocês. Tampouco devemos esperar das pessoas mais do que elas possam ou desejem nos dar.

Ah! Eu já ia me esquecendo de dizer algo muito importante a vocês: as pessoas se gostam e se amam, não por força de contrato ou via decretos. Elas se gostam e se amam naturalmente. Espontaneamente. Fora disso, o que existe são dissimulações cotidianas (reservadas ou de público) e decepções (contidas ou explícitas). Por isso, que é imprescindível compreender (e aceitar) que tudo termina quando acaba, e não ficar gastando energia e tempo malhando em ferro frio.

 

 

 

 

 


NESTA ALTURA DO CAMPEONATO (104)

 

 

 

Fico aqui imaginando:

- É extraordinário como esta banda, formada em 25 de maio de 1962 continua no topo, depois de tanto tempo de sua formação original. A crítica internacional é unânime: eles estão melhores do que nunca.

Nesse sentido, há críticos que atribuem o sucesso, assim como a longevidade da banda à criatividade musical do Keith Richards que se mantém fiel ao gênero musical blues que está nas gênesis da banda (no começo eles eram considerados uma banda de brancos, cantando e tocando músicas de negros). E não aos rebolados sensuais (tipo serpente) e à barriga do Mick Jagger. Pelo sim ou pelo não, o que sei é que sem a liderança, o talento, a presença no palco e a voz marcante do Mick Jagger a banda perderia sua identidade e, nem de longe, seria a mesma. Nesta altura dos acontecimentos não dá mais para abrir mão de nenhum deles. Vai ver foi por essa razão que só recentemente (1995) é que o Ronnie Wood foi considerando um membro efetivo da banda. Por anos seguidos ele atuava como um músico contratado e a serviço da banda, substituindo o Mick Taylor, que optou muito tempo atrás, por seguir em carreira-solo. Como abrir mão, por exemplo, do estilo do Charles Watts que toca bateria como se estivesse em estado de graça, ou do estilo de roqueiro rebelde do Keith Richards. (O outro membro original, Bill Wyman, deixou o grupo em 1991 e, para o seu lugar foi escalado o baixista Darryl Jones, que é apenas músico contratado, não sendo considerado membro oficial da banda).

Agora o que eu acho surpreendente mesmo é o fato do Keith Richards, com aquele jeito e aparência de revoltado (e de maluco), ser o responsável pelo momento mais romântico do show com a música This place is empty que em português quer dizer este lugar está vazio. Pois é, às vezes, as aparências enganam.

E, por falar em enganar, eu posso até estar equivocado quando classifico de enganosas um monte de propagandas que estão passando aí nas programações televisivas. Como? Não gente, eu não estou me referindo ao horário político eleitoral (mesmo sabendo da enganação danada que rola neles). Estou fazendo referência àquelas propagandas de determinados produtos nas quais, em letras enormes, anuncia-se um determinado valor da prestação mensal (usualmente menor do que o da concorrência) e, lá embaixo, em letras pequeninas, está escrito que aquele preço só vale para os três meses iniciais. Tem também aqueles cartazes indicando um preço e lá nas letrinhas pequenas está dizendo que aquele é o valor de uma das cinco prestações. Há um monte de propagandas por aí, com esse tipo de esperteza. E, não me venham com a argumentação de que se trata de estratégia de marketing. Para mim, é pura enganação. E a olhos vistos.

 

 

 

 

 


É DOSE PARA ELEFANTE (107)

 

 

 

Já que vocês se lembraram do horário político eleitoral, me deixem dizer uma coisa para vocês: - Discordo dos que defendem, ou entendem que esses programas devam acabar ou mesmo que não tenham utilidade alguma. Trata-se de oportunidade ímpar para conhecer nossos políticos (bem como os que pretendem ser políticos), suas propostas e seus entendimentos sobre o Brasil. Agora assisti-los é indubitavelmente dose para elefante. Não dá para negar. Nem vou tentar convencê-los do contrário.

O objetivo central desses programas é levar os candidatos ao poder (e aí vale tudo). Vale até apresentar um Brasil que não corresponde ao que estamos acostumados a ver, seja no dia a dia, seja nas notícias veiculadas nos meios de comunicação. Além disso, inúmeras soluções são oferecidas como exequíveis e infalíveis e, de tal forma que, como num passe de mágica, eleitos e empossados os governantes, principalmente o Presidente da República, os problemas estarão resolvidos em curtíssimo prazo, sejam eles conjunturais ou estruturais. É impressionante como fica fácil, nos períodos de campanha, identificar soluções para problemas cotidianos, assegurando que essas soluções serão finalmente colocadas em prática, - vocês já perceberam isso? Porém, transcorridas as eleições o que estamos acostumados a ver é o descompasso ou, até mesmo, a discrepância entre as propostas de campanha e as ações de governo; entre o perfil do candidato e a prática do governante; entre a ideologia anunciada e parte dos interesses que são priorizados.

Calma pessoal, os políticos não são os únicos culpados nem tampouco os profissionais de marketing. Não nos esqueçamos das regras do jogo que ensejam uma prática política nociva à democracia e dificultam ou mesmo inviabilizam a realização do que se promete em épocas de campanha (não estou me referindo àqueles que prometem o mundo e o fundo). Sem uma profunda reforma política o futuro vai continuar repetindo o passado. Além disso, o nível de conscientização política de parcela significativa do eleitorado (vítimas da desinformação e do poder econômico) é de dar dó.  No final das contas sofrem eles e sofremos todos nós, outros (só não sofre quem conseguir ser eleito, - vocês não acham?).

Nessa conjuntura, cabe à sociedade, notadamente aos formadores de opinião, refletir sobre esses programas e sobre os debates que ocorrem entre os candidatos; e devem fazê-lo de tal forma (e com tamanha persistência) que os resultados da vontade popular nas urnas redirecionem os seus conteúdos e modifiquem os critérios utilizados para a escolha dos nossos representantes políticos.

O conteúdo desses programas e os seus personagens serão diferentes dos atuais quando tivermos, predominantemente, bons políticos e bons eleitores (aí sim, teremos de fato uma democracia consolidada, onde coexistirão partidos políticos e instituições democráticas, igualmente fortes e atuantes) e, nessa parte, vocês podem ajudar e muito. Quem sabe dos dois lados. 

   

 



AGORA O MEU AMOR É MORTAL (110)

 

Não sou mexeriqueiro e nem gosto de boatos. Tampouco aturo quem pratica a fofoca. Porém não tive como deixar de ouvir a conversa do  casal, aqui do lado. Ele afirma:

- O herdeiro brasileiro do líder da banda foi concebido no jardim de uma casa onde rolava uma festa.

Ela, por sua vez, discorda alegando:

- Os dois certamente prefeririam um local mais reservado, já que são celebridades.

Ele não insiste nesse ponto e diz:

- Bom, onde o fato ocorreu é irrelevante para a gravidez que veio em seguida.

E nessa parte ambos concordam.

- A mãe do herdeiro já afirmou que ele (o roqueiro) estava usando proteção, donde se conclui que a tal camisinha não resistiu e furou – disse ela.

Por fim ele disse:

- O cara é indiscutivelmente um azarado. Um garanhão azarado. Pegou a ex-modelo (e apresentadora) e na hora agá, lá se foi a camisinha.

- Pois é, paciência, isso realmente pode acontecer com qualquer pessoa, porquanto esse tipo de ocorrência não é um privilégio das pessoas famosas, disse ela e mudou de assunto.

Comentários da praia à parte, a verdade nua e crua é que os dois tiveram um relacionamento no final dos anos 1990 que, segundo a apresentadora, durou alguns anos entre idas e vindas. Para mim, o mais relevante nessa história toda é que o famoso cantor é um cara responsável que assumiu a paternidade do filho. E mais, que se faz presente na vida deles mantendo um relacionamento normal entre pai e filho.

- E vocês aí, fazem sexo seguro? Sério? Vocês afirmam que sim, mas que eu saiba é inacreditável a quantidade de pessoas (jovens e adultos) que não estão nem aí para os riscos de doenças sexualmente transmissíveis ou mesmo de uma gravidez indesejada (precoce ou não), e continuam fazendo sexo sem proteção alguma.

No caso de gravidez, ainda que indesejada, o problema é menor. Você vai ouvir gatos e lagartos da sua família, mas, com o tempo, tudo se ajeita e você passa a conviver com novas responsabilidades na vida. E, também, com outras perspectivas de futuro (mas, não se engane porque daí por diante sua vida vai virar de cabeça para baixo). Diferentemente disso, quando se tratar de doenças tipo o tal soro positivo HIV (que está por aí mais vivo e presente do que nunca) a tragédia é completa (com ou sem gravidez). A melhor explicação está nos versos da canção (ou em entrevista, não me lembro bem) daquele famoso cantor e compositor, natural aqui do Rio de Janeiro, que morreu vitimado pela AIDS: “Agora o meu amor é mortal baby”.

- Vocês não sabem quem é?

Sabem sim, numa das músicas ele dizia que o tempo não para. Frase essa, que virou título do filme sobre a vida dele. Aliás, trata-se de um filme que precisa ser visto e revisto, pois, mostra, para além da criatividade do artista por meio das suas composições, o que não se deve fazer com a vida, sobretudo sabendo-se que o vírus HIV está à solta. Pois é, tanto talento sepultado precocemente por conta de escolhas pessoais indevidas, drogas e de sexo inseguro (e, quem sabe, com já se especulou, excesso de mimos). Não fosse essa tragédia ele certamente estaria aqui no palco cantando seus sucessos: aqueles que conhecemos e os que não tivemos o prazer de conhecer, por ele não ter tido tempo para compor.

A propósito de sexo e sem a hipocrisia de falar que os jovens de hoje são mais liberais e fazem mais sexo do que os jovens de ontem é preciso registrar que existe uma enorme diferença entre fazer amor e fazer sexo. Eu sei que vocês conhecem a letra daquela música da tia (roqueira) e do tio (comentarista político), o que eu não sei é se vocês conseguem compreender corretamente o que a letra está dizendo. Na abordagem a que estou me propondo aqui, o relevante é que vocês saibam o porquê e a quem vocês estão se entregando, na busca de prazer.  E o façam necessariamente com a devida proteção. Nesse contexto, se permitir ao sexo antes do casamento não é um bicho de sete cabeças e nem coisa do outro mundo. Isso acontece todos os dias. O que não pode acontecer é achar que não fazer sexo antes do casamento é coisa ultrapassada, ou motivo de gozação, ou ainda motivo de constrangimento. É preciso saber respeitar a opção e as razões, de cada um.

Vale lembrar que reflete imaturidade imaginar que você é melhor do que alguém que ainda não fez sexo, simplesmente pelo fato de você se permitir e conseguir fazê-lo. Pela mesma razão, é imaturo quem se sente diminuído pelo fato de ainda não ter vivenciado o sexo. Nada a ver pessoal. Nada a ver, mesmo. Para além de deixar a imaturidade de lado, o fundamental nesse assunto é ter a consciência de que existe o momento mais adequado e, quando ele chegar melhor será se você estiver com a pessoa certa. Na hipótese de você constatar que não era a pessoa certa, então paciência, levante a cabeça e siga em frente. Não será o fim do mundo. No máximo uma imensa decepção e o fim de um relacionamento que não deu certo.  As feridas o tempo se encarrega de cicatrizar, podem apostar nisso. Todavia, melhor será se você for capaz de evitar a ocorrência de feridas dessa natureza.  Nesse sentido, a religião por meio da fé é uma alternativa para superar as tentações da carne e do mundo material. Creio que é por essa razão que a igreja condena o uso da camisinha. Se agisse de outra forma estaria desacreditando no poder da fé e da oração. A questão é que nem todo mundo é religioso.

Agora eu vou fazer um comentário para as mulheres de um modo geral, e em particular para você mocinha que está com o fogo alto, mal conseguindo segurar a onda dos desejos carnais:

- Cuidado para não sofrer por ações precipitadas e impensadas. Além disso, cautela em relação a quem você confia – não dê bobeira, seja com drogas ilegais, seja com excesso de bebidas. Não perca o comando do que pode acontecer com você.

 

  

 

 

 

 

A ORIGEM DO ROCK (114)

 

 

As luzes do palco se apagam. O show está na iminência de começar e eu me pego a recordar do que se deu há cerca de cinco décadas nos Estados Unidos, época em que aconteceu o choque entre o velho repertório dos caipiras brancos e o cancioneiro popular dos negros e mestiços, fazendo surgir o principal gênero musical do século XX: o rock and roll. É inevitável constatar que de lá para cá, esse gênero musical acompanhou as mudanças sociais na forma de canções que revolucionaram o comportamento da juventude e que, também, foi determinante para uma das mais importantes revoluções do comportamento humano, propiciando o fim da segregação racial entre negros e brancos antes que as políticas governamentais o fizessem.

Para se entender a origem do rock é preciso ressaltar a importância da Chess Records em Chicago que nos anos sessenta foi a gravadora onde o blues elétrico se promoveu, trazendo para o grande público os nomes do blues e R&B (rhythm and blues) que hoje fazem parte da história desse tipo de música, como Muddy Waters, Willie Dixon, Little Walter, Howlin´Wolf, Etta James e tantos outros. Vale lembrar que Muddy Waters ganhou fãs pelo mundo todo, inclusive um novo grupo de jovens ingleses chamado Rolling Stones, que lá pelos idos de 1964 e 1965 realizaram um dos seus grandes sonhos e gravaram 26 músicas nos estúdios da Chess Records. Essas músicas podem ser encontradas no CD dos Rolling Stones intitulado The Chess Sessions.

Muitos afirmam que o Chuck Berry foi de fato o inventor do Rock and Roll. Ele apareceu na cidade de Chicago em meados da década de 50. Na gravadora Chess Records tornou-se um revolucionário da música. Influenciado pelo Blues e pelo Country, criou o seu próprio estilo musical. Era o Rock and Roll. E o que contagiava as pessoas nas suas músicas não eram as letras e sim o ritmo e o timbre inconfundível da sua guitarra. Nos seus shows ninguém conseguia ficar parado.

Naquela época, músicos negros tocavam em teatros cuja plateia era dividida por raças, sendo que os brancos ficavam nos camarotes e os negros embaixo. Chuck Berry foi um dos artistas negros que conseguiu misturar brancos e negros nos shows. A música que produzia fazia tanto ou mais pela quebra das barreiras sociais que as ações dos líderes políticos. Durante as apresentações de alguns artistas negros, os brancos pulavam de seus camarotes e desciam e se misturavam ao público negro. Portanto, não é exagero afirmar que esse fenômeno musical ajudou a acabar, de certa forma, com a segregação racial.

Somente em 1968, com a promulgação da Lei de Direitos Civis norte-americana, negros e brancos puderam se sentar juntos nos assentos de ônibus. Mas nesse momento, a vida apenas estava imitando a arte. Bem antes das decisões políticas alcançarem a legislação, o rock and roll permitiu que negros e brancos dançassem juntos, evidenciando que a cor da pele não pode separar pessoas.

Aqui, em Copacabana, pelo entusiasmo da multidão, o show está na iminência de iniciar, então, vou parar de pensar na história do rock para prestar atenção no palco.



 

 

 

 


ENFIM E AFINAL A BIGGER BAND (116)

 

 

 

Na hora marcada (21h45min) o palco explode em luzes e em sons anunciando o início do show e sugerindo a explosão que deu origem ao mundo. Enfim e afinal a Bigger Band.

O Mick Jagger surge lá no palco vestindo jaqueta prateada, camiseta e calça preta colada, cinto de strass e tênis. De saída rolou a música Jumping jack flash. Daqui pra frente não há palavras para descrever o que estou sentindo. É só emoção (e que emoção). Isso porque o som dos Rolling Stones está no ar e faz parte da trilha sonora da minha vida.

- Olá Rio! Olá, Brasil!

Sem esperar a resposta do público emenda a canção it’s only rock in roll (no palco o azul se alterna com o lilás e, no telão, surgem ora imagens do show, ora imagens de videoclipes da banda).

Thank you very mutch, tudo bem? Boa noite, galera! Âhhh?

E manda ver You got me rocking (sem a jaqueta e sob a cor prateada do palco).

Agora, entre um gole e outro de água, ele informa (em inglês) que o show está sendo assistido pela TV no Canadá, nos Estados Unidos e no México. Tumbling dice rola no ar. Em seguida, sob os acordes finais dessa música, ele percorre a pista em direção ao público, batendo palmas com as mãos acima da cabeça. O palco explode em luzes amarelas e no telão aparece a multidão. De volta ao palco ele conversa com o público:

I-êê-a! Yes! Un-un! Copacabana, esta é a melhor festa do mundo, âhhh?

E anuncia uma nova música: On no, not you again

One, one, two, tree!

E lá vamos nós de novo. Mais rock and roll no ar (as luzes alternam a cor prata, o azul, o lilás e o vermelho).

Acenando com a mão direita, ele cumprimenta o pessoal lá de trás:

I-ééé everybody in the back!

Alguns segundos de silêncio no palco. O Mick Jagger retorna vestindo uma blusa de seda azul (desabotoada) por sobre a camiseta preta e inicia a música romântica White horses (o lilás predomina no palco e a brisa do mar se encarrega de fazer tremular a seda azul, causando um efeito visual a mais).

Silêncio no palco, outra vez.

O Mick Jagger, agora com guitarra, questiona:

- Tem gente de São Paulo aqui âhn? E da Bahia? E de Porto Alegre? E do Rio? (Gritaria geral). Vocês são fantásticos âhn! E anuncia a próxima música: Rain fall down.

One, one, two, tree!

E vamos nós de Rain fall down (o destaque vai para o solo do baixista Darryl Jones).

- Muito obrigado! - Agradece o carinho dos fãs.

Uma breve parada técnica para o Mick Jagger tirar a blusa de seda, enxugar o rosto, tomar um pouco d’água, pegar a gaita e mandar ver a canção Midnight rambler (o solo de gaita confirma a habilidade do vocalista com esse instrumento). Mais uma vez ele vai para o meio da multidão e de braços para o alto ele agita a galera, que vai à loucura com os trejeitos e provocações faciais e corporais do roqueiro; que caminha até o final da pista e, em seguida, retorna para o palco sem dar trégua à galera, continuando a coreografia corporal sinuosa até que se rende à sede e se permite a um breve descanso para tomar um pouco de água. Em seguida de volta às suas origens musicais canta a música em ritmo de blues. Retoma o fôlego e manda ver mais rock and roll.

Thak you very much. I have good time. I have good time. Evebody says ô-i-ê-êê! ôô-i-ê-êê! ôô-i-ê-êê!

O Mick Jagger inicia a homenagem a Ray Charles com a música Night time is the right time (acompanhado da vocalista da banda). No telão a imagem do homenageado.

Thank you very much. Muito obrigado. Que linda noite para um show!

Dessa forma ele iniciou a apresentação dos músicos. Quando apresentou (por último) Keith Richards, a multidão foi à loucura (creio eu que nem ele estava preparado para aquela homenagem). Após girar um pouco e agradecer o carinho curvando-se (por duas vezes) diante do público Keith, diz:

Ôiii! …Rio is good to be back. Is good to be anywhere!

A multidão continua aplaudindo.

- Obrigado! – Disse ele.

A multidão não para de aplaudir. Ele sorri, dá um trago no cigarro. Sorri novamente. Curva-se, mais uma vez, agradecendo os aplausos. E após levar a mão direita à cabeça, num último gesto de quem não estava esperando aquela emoção, então, anuncia uma nova música e canta: This place is empty encantando a todos e protagonizando o momento mais romântico do show.

- Obrigado! – Agradece mais uma vez.

O público mantém o clima de homenagem ao músico, ensaiando espontaneamente o refrão:

- Olêê-olê-olê-oláá, Keith, Keith, Keith!!

OK, these fans could be happy! – Respondeu ele, para logo em seguida emendar a canção Happy, com direito a um show particular de solo do Ron Wood (o amarelo novamente ilumina o palco).

De volta ao palco, guitarra na mão, jaqueta prateada (desabotoada) e camiseta vermelha com motivos tribais na cor branca, o Mick Jagger canta Miss you e parte do palco começa a se movimentar em direção à multidão (lá atrás o lilás e o vermelho prevalecem no palco). Já no meio da multidão (área vip) tira a jaqueta e engata Jough Justice, Get off of my cloud e Honky tonk women (o palco começa a retornar). No telão listras vermelhas e azuis, em movimento. No palco principal, explodem luzes amarelas e laranjas.

O show pegando fogo, camisetas girando no ar e a animação rolando solta. Alguém apressado fala:

- Não dá para ver nada, mas é uma energia maravilhosa a que rola aqui.

De minha parte eu trocaria, sem pestanejar, toda esta energia e a que ainda irá rolar até o final do show, por um lugar em uma daquelas sacadas ali em frente. Ou ainda por um sofá na frente de uma TV (daquelas bem grandes do tipo home theater, é claro). Portanto, a poltrona não poderia ser na minha casa. Sou apenas um professor universitário que, para viver com um mínimo de dignidade, tem que, a contragosto, fazer, por repetidas vezes, greves de mais de 100 dias; tanto em governos ditos de direita, quanto em governos ditos de esquerda e que, na prática e no trato com as questões relativas à educação, particularmente em tempos de greve, se confundem e se nivelam.

Nesse sentido, defendo que mais eficaz do que fazer greves seria eleger a nossa bancada no Congresso Nacional, comprometida com as nossas reivindicações e não apenas com o ideário deste ou daquele partido político. Assim, certamente, muita gente iria pensar duas vezes antes de virar as costas para as nossas necessidades. Além disso, dúvidas eu não tenho. A maioria da comunidade universitária e seus familiares, além de parcela significativa da sociedade apoiariam essa causa em troca de menos greves, mais possibilidades de acesso à educação e melhores condições para o processo de ensino-aprendizagem.

Mas antes da sociedade abraçar essa ideia é imprescindível que os sindicados dos profissionais da educação a aceitem, e sejam capazes de diversificar seus instrumentos de mobilização e de resistência, em defesa da educação pública. Eu sei que existem membros desses sindicatos que dirão que nós já fizemos isso, elegendo colegas professores e professoras e não deu certo. A eles eu respondo que o que fizemos foi eleger colegas que faziam parte e defendiam bandeiras e ideologias partidárias, com as quais tínhamos identificação. E, nem de longe é isso que eu estou propondo. Cá estou eu a sofismar mais uma vez.

O vermelho se faz presente e no telão surgem imagens que lembram peles de cobras. Um longo solo de teclado, quando surge o endiabrado Mick Jagger todo de preto: camiseta, blusão longo (lilás na parte interna) e chapéu para cantar Symphaty for the devil. Música da década de 60, que Mick disse ter se inspirado em uma visita a um centro de candomblé na Bahia e responsável pela maior parte das acusações de satanismo  que a banda sofreu ao longo de sua trajetória. Dessa vez o show particular foi do Keith Richards no solo de guitarra.

Agora o roqueiro se livra do blusão e é a vez de cantar Start me up (com as luzes permutando as cores branco e prata e o telão projetando a multidão), seguida da canção Brown sugar que tem um longo solo de saxofone (no palco luzes vermelhas, laranjas e amarelas surgem uma depois da outra). Um pouco mais de água para abrandar a sede, porque ninguém é de ferro.

Mais uma pausa no som do palco. A multidão já não tem como se conter e inicia, de maneira espontânea e generalizada, aplausos e gritos de euforia. No telão a marca registrada dos Stones – a boca com a língua de fora. Esse logotipo criado em 1971 foi inspirado, a pedido do Jagger, na língua da princesa Kali, divindade indiana da criação eterna e, também, na boca do vocalista; que agora retorna ao palco de blusa dourada e camiseta branca com a bandeira brasileira estampada entre os nomes do Brasil e do Rio de Janeiro, para cantar You can’t always get what you want. Mais uma vez, ele percorre a pista e vai ao encontro da multidão. Desta vez ele se limita a caminhar comportadamente com os braços levantados e acenando, na ida, para a multidão e aplaudindo quando do retorno para o palco, de onde convoca o público a cantar com ele o refrão daquela canção:

All right baby, come on!!

A multidão não decepciona e responde:

-         You can always get what you want. You can always get what you want!!!

-         Come on, come on!!  

-         You can always get what you want. You can always get what you want!!!

-         Come on, come on, come on!!

-         ….

O show está caminhando para o seu final, mas o Mick Jagger continua com todo o pique: físico e fôlego de dar inveja a muitos jovens, por aí (e por aqui também, nesta muvuca). 

 

 

 

 

 


ÊXTASE TOTAL (123)

 

 

 

Uma breve pausa no som. E o Mick Jagger (sem a blusa dourada) manda ver:

Riô!! Riô!! Riô!!  i-êê-ê!!  i-êê-ê-ê!!! all right!!!

Para, em seguida, rolar o solo inconfundível de Satisfaction (aquela música quarentona que já se tornou um hino do rock). Êxtase total, a multidão vai ao delírio. Eu vou junto. Esse momento foi mesmo de arrepiar.

Ao que me parece todos que estão aqui sabem cantar esta música. O Mick Jagger ainda tem disposição para girar a toalha acima da cabeça. O gesto se espalha pela multidão. O show chega ao seu clímax e sob os últimos acordes da noite ele percorre a pista em direção ao meio do público. E o faz ora com os dois braços para cima, ora apontando para os fãs que estão mais distantes. Durante o percurso ele grita incessantemente:

Rrê – rrê – rrêê!!!          

Rrê – rrê – rrêê!!! – Devolve a multidão.

De volta ao palco e fim de show. E que show!!!.

O jogo de luzes lá do palco, ao longo do show foi de fato um espetáculo à parte. Uma maravilha de se ver.

Terminado o show (23h45m) a melhor opção é desistir de sair junto com os mais apressados e aguardar um tempo, contemplando a sujeira geral na forma de garrafas, sandálias, sapatos, documentos e outros tipos de objetos pessoais, espalhados pela calçada, pelo asfalto e pela areia da praia; para, só então, com muita dificuldade, retornar ao metrô (que ficou lotado) e minutos depois desembarcar juntamente com uns gatos pingados, em Botafogo.

Da estação até a Rua da Passagem as pernas já não respondem aos comandos do cérebro para dar os últimos passos, e eu bem que podia ter vindo de tênis, os meus pés teriam me agradecido. De quebra, em diversos pontos ao longo do percurso, aquele mau cheiro de urina dormida impregnado nas calçadas e nas paredes, o que me fez recordar daquelas ruas mais apertadas lá do centro histórico da cidade que foi a capital brasileira durante 214 anos. E que certamente faria vocês recordarem de muitas ruas de outras cidades, pelo Brasil afora. Vocês não precisam concordar comigo e podem até me chamar de chato ou do que quiserem, mas acho uma falta de educação essa prática de esvaziar a bexiga no meio da rua.

Por fim, nada melhor antes do merecido sono do que um demorado banho (com água quente), um bom lanche e de quebra a notícia na TV daquela meta inócua: recorde alcançado. Foram mais de um milhão e trezentos espectadores na praia de Copacabana.

Espero que na transmissão do show, a apresentadora ou o apresentador não tenha ficado fazendo aqueles comentários óbvios e desnecessários entre uma e outra música ou entre uma e outra parte do show.  E, com isso nocauteando a vontade, de quem quer que seja, de assistir ao show, via TV.

Agora é conseguir o DVD do show e assisti-lo de cabo a rabo e, antes de guardá-lo, escrever de próprio punho que eu estava lá (acreditem se quiserem, porque, eu não escrevo para provocar convencimento. Possibilitar reflexões, despertar consciências e ensejar a rebeldia isso sim é o meu objetivo, sempre que me disponho a escrever).

 

 

 

 

 

 

VALEU STONES!!

 

 

VALEU RIO DE JANEIRO!!!

 

 

VALEU COPACABANA!!!!

 

 

 

 

 

 

Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2006.

 

 

 


 

 

 

POSFÁCIO (127)

 

 

Fernando,

 

Pelo que conversamos, seu texto seria um relato do show dos Stones e recados para destinatários jovens (seus filhos?): “pensei em vocês”. Como relato do que aconteceu antes, durante e depois da “muvuca”, o texto perde o vigor da narrativa cuja sequência fica prejudicada pelas digressões sobre os conselhos, os comentários.

Focando o texto em “close-up”, observei que:

- há insegurança (às vezes impropriedades) no uso da pontuação;

- o uso de provérbios e “alusão a provérbios”, em número exagerado:

- as digressões ganham mais ênfase que a narração propriamente dita, a descrição, os diálogos, todos os componentes de um texto narrativo;

- o evento, em si, o show, foi menos importante que suas circunstâncias e lições que dele pudessem ser tirados.

Bem, vamos aos comentários, por parte:

- a pontuação, como tudo na língua, é um elemento de convenções: no caso dos sinais de pontuação, eles definem as unidades, as funções, a prosódia da frase: mas se o autor implicitamente deixa ao leitor a tarefa de pontuar mentalmente uma frase, a pontuação explícita é dispensável; veja, como exemplo, os textos de Saramago;

- dizem que os provérbios são expressões linguísticas da sabedoria popular, são lições de moral (costumes cristalizados), de filosofia (cogitações metafísicas); os escritores fazem uso deles, ou porque são preguiçosos para dizer com novas fórmulas, ou porque são excedentes objetos retóricos que conferem aparência velha para um pensamento novo, como patinar na moldura de gesso, como técnica eficaz de invencionice à maneira de Saramago; seu uso exagerado denota preguiça;

- como o subtítulo do texto, a frase “eu pensei em vocês” diz mais sobre o destinatário (explícito) que sobre o objeto do relato, a muvuca; daí porque abundam lições de vida, regras de comportamento, informações socioeconômicas etc.; daí o perigo de descambar para um manual de autoajuda, um vade-mécum ou coisa que valha; o relato sobre o evento reduziu-se a poucas páginas; mas se era este o objetivo...; no mais, o importante é escrever, é dizer o que pensa, o que você fez; merece os parabéns.

 

Nota do escrevinhador destes comentários 


Toda crítica é apenas um ponto de vista. Tudo o mais sobrevive a ela.

Entrego-lhe em manuscrito porque não sei usar computador.

 

Abraços

 

Antônio da Silva Moraes (in memoriam)

 

 

 

 

 

 


Credenciais do Autor:

 

Professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Mato Grosso;

 

Graduado em Engenharia Elétrica, pela Universidade Federal da Paraíba;

 

Graduado em Administração, pela Universidade Federal de Mato Grosso;

 

Mestrado em Engenharia Elétrica, pela Universidade Federal da Paraíba;

 

Doutorado em Engenharia Elétrica, pela Universidade Federal de Uberlândia;

 

Reitor da Universidade Federal de Mato Grosso, no período de outubro/1996 a outubro/2000;


Fã dos Beatles e dos Rolling Stones.


 



Link para assistir ao show:

https://www.youtube.com/watch?v=pt-TXDHQN1E













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