Na gramática, o SE é partícula de realce e
conjunção subordinativa integrante ou condicional, podendo ser pronome: pessoal
reflexivo (o sujeito pratica e sofre a ação); pessoal recíproco (dois sujeitos
praticam a ação e sofrem a consequência dela); apassivador (o sujeito sofre a
ação praticada por outro agente); indefinido (quando o sujeito é
indeterminado).
A meu ver, uma das aplicações desse termo tem
sido usada de forma impensada e inapropriada. Refiro-me ao uso excessivo do SE
como conjunção condicional praticado por inúmeras pessoas, dentre elas muitos
jovens, para sedimentar justificativas que, na verdade, são só desculpas para
manter a vida estacionada em lugar ruim: sem sonhos, bons projetos e boas
companhias.
Essas pessoas estão acometidas pela síndrome que
denomino de SE CONDICIONAL, cuja principal característica é o uso compulsivo do
termo SE associado a afirmações que não permitem ações exequíveis capazes de
mudar o status quo. E assim, vão abraçando vida afora, progressivamente,
conclusões inócuas para o enfrentamento das adversidades do dia a dia.
Evidentemente, excluo dessa síndrome o SE associado
a afirmações infactíveis quando é utilizado como instrumento para dar passagem
à criatividade na forma de versos, como na música de 1967 “Eu e a Brisa” de
Johnny Alf (1929-2010): “Ah, se a juventude que essa brisa canta/ Ficasse aqui
comigo mais um pouco/ Eu poderia esquecer a dor/ De ser tão só/ Pra ser um
sonho”.
Por conta dessa síndrome muita gente se aferra,
consciente ou inconscientemente, ao SE condicional para entender de forma
distorcida determinadas afirmações que encontram pela vida, com o propósito de
justificar a continuidade de atitudes praticadas para além dos limites do bom
senso e até mesmo da ação responsável, inibindo a própria felicidade e a dos
que estão à sua volta.
A propósito disso, recorro à letra da música
“Maneiras”, cantada pelo talentoso Zeca Pagodinho, para exemplificar uma
possibilidade de interpretar de forma distorcida o vocábulo SE:
“Se eu quiser fumar, eu fumo/ Se eu quiser beber,
eu bebo/ Eu pago tudo que eu consumo com o suor do meu emprego” e mais adiante
“Eu estou descontraído/ Não que eu tivesse bebido/ e nem que tivesse fumado/
pra falar da vida alheia”.
Note-se que a letra não confirma a prática dos
vícios e deixa claro que para estar descontraído não precisa estar alcoolizado.
Mas, para justificar os maus hábitos, há os que se detêm à parte inicial da letra
e seguem fumando e bebendo do suor do emprego deles. Ignoram que estão
contribuindo para a baixa autoestima, para a prostração e para que tudo fique
como está: de mal a pior.
É oportuno lembrar que os pensamentos e as
atitudes educam os neurônios para ações em prol de transformações na vida, ou
para o conformismo. Isso porque, quando se acostumam às sensações advindas de
afirmações postergadoras, a vontade de ser proativo foge pela saída mais
próxima, levando embora muitas mudanças importantes que poderiam ser gestadas
no ventre do futuro.
E para não estacionar nos rumos da
vida, um bom exercício é internalizar a frase: “não deixe para daqui a
pouco”, utilizando-a para executar, sem demoras e por completo, algumas tarefas
domésticas. Esse proceder ensinará aos neurônios que o tempo urge e que, na
vida, tudo deve ter início, meio e fim. Assim, eles tornar-se-ão,
gradativamente, guardiões das grandes mudanças.
Logo, para afastar os agouros dessa síndrome,
deve-se praticar o termo SE associado a afirmações que permitam ações
proativas, ainda que, de início, sejam pequenas e com pouco efeito prático. Não
nos esqueçamos de que devagar se pode ir ao longe e que é caminhando que se faz
o caminho. Todavia, por ser pertinente, abraço a afirmação que li em uma
postagem, dias atrás, que dizia algo do tipo: não adianta mudar de caminho se
você não mudar a sua forma de caminhar.
Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia
elétrica e foi reitor da UFMT.
(*) foto do https://pixabay.com/pt/
Comentários
Postar um comentário