A EDUCAÇÃO NO
NOVO SÉCULO
Fernando
Nogueira de Lima
Faz algum
tempo que sinto vontade de escrever sobre a palavra SE. Nela, num determinado
ponto de vista cabe tudo, porém, de fato, nada comporta quando se trata de
ensejar ou mesmo de promover mudanças de atitudes na vida. E mesmo assim é
uma das preferidas no vocabulário da vida de um sem-número de pessoas, quando
instadas a enfrentar desafios – qualquer que sejam.
O
progresso e o bem estar de uma sociedade, ou de uma nação, estão intimamente
ligados a melhores oportunidades educacionais para seus cidadãos, notadamente
os jovens. Nesse sentido, o alvorecer do século exige profissionais aptos a
aprender continuamente.
Na
tentativa de esmiuçar essa proposição, tenham eles este perfil: acentuado
domínio cultural, capacidade autodidata e interesse em assuntos gerais. Mais
ainda: visão de tendências sociais e de mercado, além de espírito empreendedor.
A isso tudo, acresça a ética e a tolerância nas atitudes pessoais e
profissionais, bem assim a capacidade de pesquisar, interpretar e aplicar
dados.
À luz do
social, impõem-se outros predicados: que sejam profissionais capazes de se
indignar diante da fome, da miséria e da injustiça. Tenham eles senso
crítico e capacidade para interferir no desenvolvimento da ciência e da
tecnologia, sendo vanguarda e retaguarda de um avanço científico e tecnológico
que respeite o ciclo natural da vida.
É de
esperar que cada sociedade se habilite para construir a educação de que
necessita, promovendo, quando e se necessário, mudanças nas práticas
pedagógicas, sem descurar das práticas políticas. A bem da verdade, o que
significa isso? Mudar as práticas pedagógicas implica renunciar ao processo
educativo assentado em dois pilares pouco sólidos: ou transforma o outro no eu,
ou exclui o outro. Mudar as práticas políticas, por outro lado, reclama
conviver com a pluralidade de grupos sociais e de sujeitos.
A
melhoria da qualidade de vida das gerações está a depender da superação do
fazer científico e tecnológico que privilegia o objeto - saber o que e o método
- saber como, introduzindo no processo ensino-aprendizagem uma ética
complementar ao fazer científico e tecnológico. Essa mesma ética
deve também ter como foco o saber por que e o saber para quem.
A
contemporaneidade requer profissionais cujo domínio de habilidades possibilite
elaborar e implementar, de forma autodidática, seu saber. Além disso,
detentores de razoável conhecimento do mundo, saibam eles pensar com agilidade,
tenham capacidade e determinação para interferir, de forma consequente, na
realidade, tomando decisões acertadas com rapidez e no momento adequado.
A
formação desse profissional deve começar na infância, no lar e no processo de
alfabetização. Aos pais e professores compete mostrar às crianças o valor de
estar sempre aprendendo novos saberes e conhecimentos. As crianças, convém
provocá-las a emitir opiniões e a tomar decisões. O senso de responsabilidade
advém do nível de conscientização da existência de erros e acertos.
Na
escola, as tarefas de grupo devem ser privilegiadas, na medida em que propiciam
prática do diálogo e a busca de soluções que reflitam o esforço coletivo. Mais
do que nunca, estamos convictos de uma verdade: as grandes soluções do amanhã
passam pela parceria.
Nesse
contexto, o ato de ler, quando realizado em voz alta, contribui para incentivar
nas crianças o gosto e o prazer pela leitura. Comprovado está: lendo e ouvindo
outros ler, as crianças aprendem a ler. Segundo Frank Smith, PhD. pela
Universidade de Harvard, o importante “não é tanto ensinar a ler, quanto ajudar
as crianças a ler”. Permitam-nos ser dogmáticos: é lendo que se aprende a ler.
Quanto
mais conhecimentos adquirimos, quanto mais experiências vivenciamos, mais
condições dispomos para ser leitores mais identificados com o mundo. Aprender a
ler é apreender o que se lê. O prazer da leitura consiste mais em ler, como
perspectiva de ampliação de sabedoria, de conhecimentos e de oportunidades, do
que associado à necessidade de estar bem-informado. Quem tem o hábito de ler,
com regularidade, estará mais bem-preparado para superar adversidades, obter
conquistas e ter êxito na vida.
Nesse universo, o ato de dar sentido e significado ao texto impresso é pôr em
exercício a capacidade de pensar e raciocinar, com ele dialogando. É atribuir à
leitura sua exata dimensão no processo de alfabetização. Ler significa estar
constantemente conhecendo, dialogando e interagindo com um mundo de saberes e
conhecimentos a ser conquistados, sem limites de tempo e de espaço. Em suma,
saber ler significa compreender e contextualizar o que se lê.
As
respostas ou provocações existentes na produção escrita, quando acrescidas ou
confrontadas com as experiências vivenciadas e acumuladas no cotidiano da vida,
constituem base sólida para o estabelecimento de contraditórios, para o
exercício da criatividade e para a prática do pensamento autônomo.
Importa,
também, entender e ensinar isto: mais do que falar, a chave para se comunicar
bem é o ato de escrever, porque ajuda a pensar e raciocinar. Escrever exige
leitura e conhecimento de mundo. Saber escrever bem possibilita uma comunicação
eficiente. E quem é capaz de ler e escrever bem, capaz é de pensar, raciocinar
e de se comunicar oralmente bem, além de estar preparado para continuar o
processo de aprender fora do lar e da escola formal.
No
limiar do século, o questionamento, a criatividade e a autonomia devem ser
instrumentos indissociáveis no processo educacional. E embora nem sempre óbvia,
a constatação, surpreendentemente simples, é que a qualidade de vida de
gerações e o avanço da ciência e da tecnologia, necessário para tanto, dependem
ainda, e fundamentalmente, das oportunidades de acesso à educação no lar e na
escola. Por acréscimo, estão associados ao correto entendimento e prática do
processo de alfabetização, atribuindo à capacidade de pensar e raciocinar a sua
devida e necessária importância.
Fernando
Nogueira de Lima, reitor da UFMT.

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