TEXTO EM RETALHOS


Certa vez, ouvi a conversa entre dois indivíduos sobre o bolsa família. O que estava com a tesoura e o pente, exercendo o seu labor, defendia a adoção daquele programa assistencial por ser instrumento capaz de melhorar as condições de vida de inúmeras pessoas, que viviam na miséria. O outro, que já havia exercido relevante cargo no legislativo federal, depois de ouvir em silêncio a argumentação afirmou que se tratava de um aliciamento estomacal, nada mais.

 

Lembrei-me disso quando lia uma reportagem sobre a prorrogação do Auxílio Emergencial, benefício financeiro que tem o propósito de fornecer proteção para o enfrentamento da crise causada pela pandemia. Sem entrar no mérito daqueles entendimentos calcados nas condições socioeconômicas dos dois protagonistas, fato é que embora necessários, esses dois programas contribuem para alavancar fortemente a popularidade do governante de plantão. Paciência!

 

Por mais que eu escute que a conduta indevida de certa autoridade tem ensejado o mau comportamento coletivo na sociedade, não consigo concordar que tais procedimentos justifiquem as aglomerações que tem ocorrido, por exemplo, em bares, shopping centers, e mormente nas areias das praias, depois da flexibilização do distanciamento social.

 

Acreditar nisso, significaria aceitar que determinado meio de comunicação pode influenciar, de forma explícita ou subliminar, o comportamento de um número de pessoas para além do que na verdade conseguem atingir - que dirá persuadir, sobretudo após o advento das redes sociais. Longe de mim está o desejo de ser servil a estratégias cujo fito é tentar, seja lá como for, manter a atenção e a fidelidade de parcela da população.

 

A decisão do Supremo Tribunal Federal que remeteu aos governadores a responsabilidade pelas medidas contra a pandemia, de um lado, contribuiu para dificultar a adoção de ações articuladas de modo nacional. De outro lado, não eximiu o Executivo Federal da tarefa de promover, entre outras ações governamentais, campanhas educativas com orientações e esclarecimentos técnico-científicos sobre a doença.

 

Nesse contexto, após seis meses de distanciamento social, movido seja pela impaciência, pela irritação ou pelo pragmatismo, estou convencido de que até se tivéssemos vivenciado outra realidade durante a pandemia, repleta de boas campanhas, de bons exemplos de comportamentos e de reportagens ou críticas imparciais, ainda assim, por conta da natureza humana, estas aglomerações estariam ocorrendo da mesma forma.

 

propósito de aglomerações e de comportamentos indevidos de autoridades, não ouvi crítica alguma ao recente procedimento do Papa, interagindo com os fiéis. A meu ver, se houvesse imparcialidade o pau que bate em Chico, bateria em Francisco. Isso poderia dar algum crédito à crítica repetida e direcionada apenas a uma autoridade. A rigor, essa narrativa não contribui para o bem comum e tampouco para salvaguardar vidas.

 

O Brasil tem cerca de 212 milhões de habitantes e, até aqui, um pouco menos de 4,2 milhões foram contaminados pela COVID-19 e um pouco mais de 125 mil vieram a óbito. Apesar de tanta dor e sofrimento, o número de mortes representa um percentual próximo de 0,06% e o de contaminados 1,96%, da população. Talvez isso e  o anseio reprimido de ir e vir, expliquem, em parte, a negligencia e a imprudência que se espalham pelo país.

  

Envolto nesta atmosfera fúnebre, permeada de pirotecnia midiática e de verborragias, agarro-me ao mundo real e não vejo nem antevejo o respeito coletivo à vida, pois, mesmo diante desta questão de saúde pública e dos riscos de contaminação, o desatino continua a navegar de vento em popa: impunimente para muitos e levando a óbito tantos outros.

 

Enquanto isso, e até às margens disso, seguimos desperdiçando a oportunidade de rever nossas atitudes na vida. E, nesta toada, não são poucos os que continuam necessitando sofrer e fazer sofrer para se sentirem vivos. Essas pessoas comumente, na toca rugem como leões famintos e quando saem dela dissimulam e miam como gatinhos saciados.

 

Não bastasse essa realidade fática, ainda temos de ficar ouvindo o confronto de retóricas, todas elas mirando convenientemente, num retrovisor seletivo, para fatos da história que devem continuar no passado, pois a nossa jovem e tão judiada democracia não pode tolerar a exceção, a corrupção e nem este radicalismo que está a soprar forte de todos os lados, levantando a poeira densa da intolerância, do populismo, do autoritarismo e da hipocrisia.

 

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT

      (*) foto do https://pixabay.com/pt/

 

 

 

 

 

 

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