SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE TRÁGICO 

A violência tem sido banalizada entre nós e, em certos casos, se apresenta mais visível e mais nociva do que outrora. Na internet, via compartilhamentos sucessivos, a banalização pode se alastrar a partir de postagens daqueles que, sem maldade e sem visão crítica, lançam mão de fotos que expressam a violência extrema com o intuito de ser engraçado e de provocar gargalhadas, brincando com determinadas situações do seu cotidiano. 

Agindo assim, distorcem a realidade. Desconhecem as causas motivadoras do fato fotografado e banalizam a violência. É a criatividade a serviço da trivialidade, tendo por suporte a indiferença para com a desgraça alheia e a incapacidade de se indignar diante da tragédia humana. E essa realidade se apresenta como cômica para muitos, tal é a quantidade de vezes em que essas postagens são compartilhadas, sem contestação alguma, dia após dia. 

Nestes tempos em que o combate à violência tem sido uma ilusão midiática, não é difícil compreender as causas que explicam a ocorrência dessas atitudes. Por isso é que não emito críticas específicas a esta ou aquela postagem. Elas não causariam mudanças de atitudes na perspectiva que ora anseio. Em vez disso, receberiam uma enxurrada de comentários vazios de reflexão crítica. Voláteis. Estéreos em si mesmo. Inócuas, portanto, seriam tais críticas.

Além disso, o caminho para superar esta realidade não consiste, tão somente, em apontar o dedo na busca de identificar culpados. Até porque, em menor ou maior escala, somos todos responsáveis: meios de comunicação, pais, professores, políticos, formadores de opinião em geral e também de quem vive desconectado da realidade, achando que o mundo se restringe às futilidades, ao consumismo material e às carências afetivas, da vida de cada um.

A mídia, por sua vez, continua explorando de modo efusivo, fatos violentos, reais ou fictícios, não só como meio de informar o público, mas também para manter esse mesmo público distraído e com a atenção longe dos verdadeiros problemas sociais do país, mormente das causas que os ensejam. Tal prática, embora não seja responsável pela violência, contribui, por ser alienante, para a passividade coletiva, fazendo com que o cidadão comum, acostumado que fica, aceite-a como algo normal.

A escalada da violência está associada a erros na política de segurança pública, à existência de sistemas prisionais controlados por criminosos, à corrupção e à impunidade. Igualmente está atrelada à insuficiência de oportunidades de educação, de trabalho e de renda. Não nos esqueçamos da falta de consciência crítica daqueles que, inertes na zona de conforto e isentos de culpas, não se sentem responsáveis pelas soluções que a realidade esta a exigir. 

Por fim, é necessário superar a miopia dos que não conseguem ver o nexo entre a incapacidade de indignação e a onda de violência diária que bate às nossas portas. Urge a adoção do hábito de se contrapor em favor do que é justo. Trata-se de um bom começo e não é pedir muito a cada um de nós, com vistas à minimização do atual quadro de atrocidades. A construção de um futuro melhor pode advir de pequenas mudanças de atitudes. Elas podem propiciar grandes revoluções. 

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT

(*) foto do https://pixabay.com/pt/   

 


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