SALVE A LÍNGUA CULTA. SALVE A LÍNGUA VIVA
Madrugada dessas
estava eu lá no blog Mundo Fantasmo, lendo uma das crônicas do Bráulio Tavares,
escrita em 2008, por isso, eu a li com o mesmo sabor que leio as crônicas
requentadas da coluna curto-circuito lá do Jornal do Comércio, em Pernambuco,
de autoria de José Teles que é um amigo que conheci em 1968, em Campina Grande,
no Alto Branco - bairro de tantas e boas lembranças, onde, aliás, também viveu
o Bráulio, que conheço somente pelos seus escritos.
A dita crônica “Deixa as água rolar” tem a ver
com a marchinha de carnaval Saca-rolha, de autoria do Zé da Zilda, Zilda do Zé e
Waldir Machado, composta em 1953 e que fez enorme sucesso no carnaval de 1954. Tempo
em que o politicamente correto não incomodava a criatividade nem servia de
combustível para se deflagrar o estandarte da hipocrisia. Sempre que era
tocada, na hora do refrão todo mundo erguia os braços e gritava: “deixa as
águas rolar!”.
É provável que os mais jovens questionem: - ora,
qual problema há em deixar as águas rolarem? Antes de responder, esclareço que essa
água era a cachaça, pinga, aguardente, precioso líquido como diz o Teles,
cantado nos versos: “As águas vão rolar/ Garrafa
cheia eu não quero ver sobrar/ Eu passo mão na saca, saca, saca rolha/ E bebo
até me afogar / Deixa as águas rolar”
Ao pé da letra, haverá quem diga que se trata de
uma apologia ao consumo dessa droga lícita. E, por conta do politicamente
correto, apresso-me a dizer que não recordo de ninguém que tenha adotado o
consumo dessa água e muito menos de ter ficado alcoólatra por causa de ouvir
essa marchinha, ainda que gritasse a toda voz o tal refrão, de carnaval em
carnaval.
Nunca ergui os braços nem gritei esse refrão, o
que não me impediu de apreciar e degustar, vez por outra, essa água misturada
com limão, açúcar e gelo picado. Tá bom, tá bom, eu confesso: de vez em quando a
mando goela abaixo in natura - hoje bem menos do que outrora, desde que acompanhada
de caldo quente. Hábito que adquiri nos tempos de UFPB, lá no bar do Ferreira.
Toda crônica tem a ponta do novelo, nesse caso
o autor dedicava algumas linhas à incômoda consciência de que dentre seus
leitores há professores de português. Alguns deles, de vez em quando, segundo
ele, lhe puxam as orelhas por causa dos erros de ortografia e concordância.
Naquele momento um carro de som carnavalesco passou bradando: “As águas vão
rolar,..”. Assim o texto se desenvolveu
calcado na concordância adotada, nessa frase do refrão.
Essa frase foi muito
criticada à época. A questão posta é que se o termo águas está no
plural não deveria o verbo concordar e ficar no plural?
Então, lançando uma teoria herética baseada na noção de que a língua é mais
forjada pelos ignorantes do que pelos estudiosos, o Bráulio destaca três
possibilidades que fazem com que o gramaticalmente errado se infiltre na nossa
fala:
O fato de que as pessoas
desconhecem as regras da gramática, porque não foram à escola, ou então foram,
mas foram mal. O fato de que as pessoas dão à linguagem uma função pragmática
ou estética, não dando importância para a coerência da língua, a sua evolução
ao longo do caminho natural. E, também, o fato de que a gramática é um apêndice
da língua viva, e não ao contrário. Um dos seus leitores, tendo o refrão como
referência, acrescentou outra possibilidade, qual seja o fato de que a melodia
pede uma métrica e a correção gramatical claudicaria o verso.
Depois de ler a crônica
fiquei a refletir sobre o que seria certo ou errado na comunicação. Tempos
atrás, de imediato eu diria que o certo seria a utilização da linguagem formal
(culta), pautada no uso correto das normas gramaticais e na boa pronúncia das
palavras. Logo, o errado seria o uso da linguagem informal (coloquial) que
despreocupada com as regras gramaticais, contempla coloquialismos, formas
contraídas, gírias, regionalismos e vícios de linguagem.
Hoje, tenho a serena
convicção de que a linguagem foi feita para a comunicação, então, ao fim e ao
cabo, o que interessa mesmo é entender e se fazer entender. Razão pela qual, a
rigor, não há que se falar em certo e errado neste contexto, e sim, em adequado
e não adequado. Até porque, a linguagem coloquial é a expressão viva de uma
língua em uso e o aprendizado da língua
culta está associado principalmente às oportunidades de educação formal e de
acesso à internet.
A propósito de
oportunidades, muitas crianças estão aprendendo a língua culta por meio dos
diálogos de determinados desenhos animados, na TV. Já presenciei pequeninos
dizendo: - eu vou abrir, eu estou abrindo e eu abri, afastando o usual
gerundismo: - eu vou estar abrindo. Também já ouvi dizerem: - isto é para eu
fazer, em vez do corriqueiro: - isto é para mim fazer.
Em síntese: o bom senso
nos ensina que no cotidiano da vida há momentos para falar e escrever com
formalidade e ocasiões outras em que deve predominar a liberdade e a
criatividade na comunicação. No mais, é preciso evitar a prática do preconceito
linguístico que constrange e que colabora com a exclusão social, suscitado pela
ideia de que existe uma única língua.
Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT.
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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