QUEM AMA CUIDA III

Fernando Nogueira de Lima

Em um dos meus textos, alertei para situações em que crianças e adolescentes ficam expostas ao perigo e se tornam presas fáceis e indefesas de pessoas que são lobos com pele de cordeiro e que estão à solta, principalmente no ambiente familiar. O agressor pode ser o pai ou outros parentes, o padrasto ou esposo e, também, pessoas outras próximas das vítimas.

Essas pessoas, sobretudo no ambiente familiar, apresentam indícios de personalidade capaz de praticar conduta violenta. Segundo estudiosos do comportamento humano tal conduta pode advir da soma de aspectos hereditários, sociais e culturais. Todavia, meu propósito aqui não é entender os porquês dessas condutas e sim de tentar contribuir para que não haja vítimas.

Apesar dos indícios ou de evidências da prática de violência doméstica ou familiar, como já disse noutro texto, por amor cego, temores inconsequentes ou conivência cruel, os demais familiares fazem vista grossa aos sinais ou às ocorrências, deixando filhos e filhas entregues à própria sorte. O final é sempre trágico e ninguém deveria fechar os olhos para esses crimes. 

Nessa perspectiva é pura ilusão ou ingenuidade acreditar que os atos de violência, de qualquer nível, são merecedores de compreensão por conta das costumais justificativas, pedidos de desculpas ou de promessas feitas pelo agressor. Não devemos nos iludir: a prática da violência, seja ela de que tipo for, é compulsivamente e inevitavelmente progressiva. 

Esses potenciais homicidas quando não cometem assassinato, condenam suas vítimas a constrangimentos e ao sentimento de culpa. Pela vida afora elas irão ter feridas na alma que não cicatrizam e que vertem lágrimas de sangue à luz do dia ou no silêncio da noite, sobretudo quando impera a conivência e a impunidade. E embora respirem, não inalam a brisa da vida. 

A pandemia tem contribuído para aumentar a ansiedade e a impaciência, predispondo as pessoas à intolerância. Contudo, isso não pode e nem deve servir para minimizar a gravidade da ocorrência de violência no lar ou fora dele. Em vez disso, é motivo para redobrar a atenção e quando necessário para adotar as medidas capazes de inibir ou de evitar a conduta violenta.

Em regra, essa violência vem a público quando envolve óbito ou quando a vítima se encoraja e denuncia o agressor. Nesse sentido é preciso dizer que ainda há muito a se fazer para que as vítimas se sintam de fato protegidas para apontar o agressor. Essa insegurança contribui para que inúmeros casos de violência continuem sendo perpetrados.

Há três casos emblemáticos desse tipo de violência sendo veiculados nos meios de comunicação. Um deles, o homicídio de uma criança de 6 anos que sofria sistematicamente espancamento no lar. Neste caso, tenho  dificuldade em acreditar que ninguém dos que conviviam de perto com essa criança tenha percebido as evidências do que estava ocorrendo.

Outro caso a que vou me referir é o da esposa que foi espancada e, conforme divulgado, morta por asfixia pelo marido antes de ser jogada da sacada do apartamento. As agressões daquela noite foram gravadas por câmeras que captaram as imagens de violência no interior do carro e do que se deu no elevador. Atente-se para a importância da instalação de câmeras.

Por último, destaco o caso da jovem que era violentada sexualmente, com penetração, desde os 9 anos de idade pelo pai. Após a separação, a mãe assumiu outro relacionamento e ele não permitiu que a filha ficasse dividindo espaço com o padrasto e acordaram dela morar com os avós. Porém, quando dormia na casa dele era abusada por ele. Trata-se de crime premeditado.

Por isso é inadiável assegurar que toda criança seja educada: no lar, na escola e via campanhas oficiais para não se intimidar diante do agressor. E mais, para não ter receios de relatar aos pais ou avós, a outros parentes ou professores que estão sendo agredidas e quem é o agressor. E, neste contexto, a adoção de aplicativos específicos que facilitem as denúncias é bem-vinda.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenheiro elétrica e foi reitor da UFMT.

(*) foto do https://pixabay.com/pt/  

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