QUANDO NECESSÁRIO MUDE DE ATITUDE
Tempos atrás, um amigo me contou
uma estória muito interessante e apropriada para provocar reflexões: Em um
certo tempo e local, um bom homem que morava em um pequeno sítio, sustentava
esposa e dois filhos com o que conseguia do seu roçado e do leite da vaquinha
que ele tinha e mantinha. Parte do leite ele destinava à família, sobretudo às
crianças. Com a outra parte fazia queijos e coalhadas. O que sobrasse vendia ou
trocava, na mercearia, por alimentos.
E dessa forma ele vivia feliz e agradecido com o que tinha. O tempo foi passando, a família foi aumentando e a vaquinha, que já não era tão jovem assim, começou a dar menos leite. Mais bocas para comer (e beber) e menos leite para vender ou para trocar por alimentos. Assim, a tranquilidade daquela família e do bom homem, em particular, ficou seriamente ameaçada.
Então, noite após noite, religiosamente, ele se ajoelhava e rogava a Deus pedindo ajuda dizendo: - Senhor meus Deus! Durante muitos anos eu vivi tranquilo e feliz tirando o sustento do meu roçado e do leite da minha vaquinha, só que de uns tempos para cá ela tem dado cada vez menos leite e já não consigo alimentar minha família. O que devo fazer para ela dar mais leite?
Entra mês e sai mês, ele, cada vez mais endividado na mercearia, antes de dormir, disciplinadamente, e, às vezes, desesperadamente, repetia o mesmo pedido que virou uma espécie de oração. Com o passar do tempo, o motivo da prece tornou-se justificativa usual para explicar a todos o porquê das crescentes dificuldades que ele e a família estavam vivenciando.
Mas, como toda estória tem que ter
um final, seja ele qual for, depois de certo tempo, a repetição da oração
conjugada à insistência daquele bom homem deu resultado. E certa noite, após o
pedido de costume, o Deus a quem ele pedia ajuda, resolveu, finalmente, manter
contato.
Deus, então, lhe disse: - Meu bom homem, tenho escutado teu pedido de ajuda que, de tão repetitivo se tornou um lamento. O tempo passa e não vislumbras solução para teus problemas. Quero te ajudar, mas, tens que fazer tua parte, do contrário não se criará a ambiência para afastar tuas aflições. Até aqui, convenhamos, esta tua repetição embora dê rima, não dá solução.
E o bom homem respondeu: - Senhor,
diz-me o que fazer que, de bom grado, te atenderei. Deus então perguntou: -
Conheces o precipício que tem depois que se atravessa o riacho, margeado por verdejante brejo?
- Sim! Disse o bom homem. - Pois bem, amanhã quando o sol raiar pegue a tua vaquinha
e te dirijas ao precipício e, lá, eu te direi o que fazer, concluiu o Senhor Deus.
Depois dessa conversa o bom homem foi dormir confiante de que seus problemas, enfim, seriam resolvidos. Quem sabe até sonhou com a vaquinha dando mais leite. E, então, no dia seguinte, mal raiou o sol, o bom homem já estava com a vaquinha à beira do precipício.
Na hora combinada o Deus disse: - Que bom que estás aqui com a tua vaquinha; espero que estejas mesmo decidido a resolver os teus problemas. Ansioso, o bom homem questionou: - O que devo fazer Senhor? E o Senhor Deus respondeu: - Jogue a tua vaquinha precipício abaixo.
E, numa aflição só, o bom homem retrucou: - Mas Senhor, assim fazendo, minha vaquinha vai morrer e meus problemas inevitavelmente irão aumentar. Afinal, se a situação já está ruim imagine só como ficará sem a minha vaquinha? Como poderei viver sem ela?
Então o Senhor Deus esclareceu: -
Meu bom homem, tu precisas entender que a vaquinha em vez de solução é na
verdade o cerne dos teus problemas. Enquanto ficares focado nela não conseguirás
mudar de atitude, que, aliás, é a condição indispensável para que tu possas enxergar
a solução que tanto almejas para resgatares a tranquilidade e a felicidade da
tua família.
Creio que a moral desta adaptação do conto “o sábio e a vaquinha” está clara, mesmo assim, sublinho que o sentido figurado aqui posto nada tem a ver com sair por aí matando pessoas ou animais, para auferir ganhos materiais, e sim, com mudança de atitude para ficar livre, em definitivo, de pensamentos, situações ou pessoas que causem problemas na vida, repetidamente. Dito isso, pergunto a vocês, caros leitores e prezadas leitoras: já se livraram das suas vaquinhas?
Fernando Nogueira de Lima é engenheiro eletricista e professor Titular da UFMT (aposentado)
OBS: No conto original, um sábio andarilho e seu discípulo, certa vez, pediram abrigo por algumas horas em um casebre. Durante a refeição, o sábio quis saber como aquela família conseguia sobreviver em um lugar tão pobre e longe de tudo. E, então, ficou sabendo que eles tiravam o sustento do leite da vaquinha que transformavam em queijo e coalhada. Quando sobrava, eles iam à cidade para trocar por alimentos. O sábio agradeceu a hospitalidade e partiu.
Ao dobrarem a esquina, o sábio pediu ao discípulo que retornasse e matasse a vaquinha. O discípulo relutou, mas voltou sorrateiramente e atirou o animal no precipício. Anos depois, cheio de remorso e curiosidade retornou ao casebre, e viu que aquela família havia prosperado. Então, perguntou como aquilo havia acontecido e soube que sem a vaquinha eles tiveram que buscar outras habilidades, até então não exploradas e, logo, tudo começou a melhorar para eles.
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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