“PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES”

O ano era 1968 e eu cursava o terceiro ginasial (correspondente à sétima série do primeiro grau, nos dias de hoje). O Brasil mergulhado no regime de exceção. O Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes) invadido por policiais: estudantes presos e estudantes foragidos. Em inúmeras cidades do país, estudantes nas ruas, de mãos dadas, caminhando e bradando: LIBERTA OS ESTUDANTES! LIBERTA OS ESTUDANTES! E, lá estava eu no meio da multidão. Pelo país afora, essas mobilizações, não raro, terminavam em confrontos com a polícia, caracterizados por muita correria e muita pancadaria.

No rádio tocava Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores. Canção cuja letra expressou o desejo contido no imaginário da juventude, se transformando em hino do movimento estudantil contra a ausência de democracia no país: contra as atrocidades que aconteciam nos porões da ditadura militar e contra o silêncio imposto à liberdade de expressão e de opção política, no Brasil. Certamente vocês conhecem os versos: “caminhando e cantando e seguindo a canção somos todos iguais, braços dados ou não. Nas escolas, nas ruas, campos, construções caminhando e cantando e seguindo a canção. Vem vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Não deu outra: a canção foi proibida no território nacional. O autor, por sua vez, foi um dos tantos brasileiros a ter que buscar exílio em outros países. Anos depois, ao ouvir a introdução, corri para a loja de onde vinha o som e comprei um LP (hoje seria um CD). Voltar a ouvi-la livremente, significava (para mim) sinal de que a redemocratização era possível e inevitável. Por oportuno, enfatizo que mesmo nos tempos em que era proibida, essa canção continuou na boca dos jovens e, por anos a fio, inclusive após a abertura democrática foi entoada pelos estudantes como instrumento de protesto e, por que não dizer, em memória da luta pela redemocratização do país.

Pois bem, ela agora faz parte da propaganda do ProUni - universidade para todos-, programa de governo que disponibiliza bolsas de estudos integrais e parciais a estudantes de baixa renda de cursos de graduação e sequenciais de formação específica, em instituições privadas de educação superior. O requisito para participar do programa é ter frequentado os três anos do ensino médio em escola pública ou privada, desde que com bolsa integral ou ser professor da rede pública sem curso de graduação. No seu primeiro processo seletivo ofereceu 112 mil bolsas em 1.142 instituições de ensino superior em todo o país. Hoje já são mais de 200 mil vagas no ensino superior, assistidas por essa iniciativa do Governo Federal.

Sem entrar no mérito do programa, confesso que a propaganda me causou inquietação. Seja pela estratégia subliminar adotada, seja porque os versos da canção que ao longo de gerações representou um instrumento de protesto contra omissões ou ações indevidas do poder constituído, remetendo-nos a um momento da história que não pode ser esquecido; e cuja lembrança nos possibilita defender com convicção o regime democrático, podem vir a ser, no imaginário da juventude, referência a uma medida específica – ainda que necessária - do poder constituído. Nesse contexto e na forma em que foi utilizada a canção perdeu o tom de protesto.

Além disso, sobretudo nestes tempos de alienação política em ascensão em que, cada vez mais, se confunde: prática indevida com exercício propriamente dito e devido da política, o que faz aumentar o desinteresse referente à participação consequente na vida política do país; toda ação capaz de contribuir, mesmo que involuntariamente, para que a história seja esquecida, ou para eliminar instrumentos que ensejam a rebeldia, concorre para dificultar tanto o aprimoramento da democracia, quanto o surgimento de novas lideranças. E essa é outra causa desta minha inquietação.

Pode até ser que estou fazendo – desnecessariamente - uma tempestade em copo d’água (consequência, quem sabe de um momento de saudosismo). Digo isso, porque é provável que a juventude de agora já não tenha essa canção como instrumento de protesto e nem sequer a associe a fatos da história política do Brasil. Mesmo assim, que essas poucas linhas representem uma forma de bradar: LIBERTA OS ESTUDANTES! LIBERTA OS ESTUDANTES! Desta feita do estado de dormência em que se encontra a capacidade de rebeldia e de mobilização, particularmente no ambiente universitário.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e ex-reitor da UFMT.

(*) foto do https://pixabay.com/pt/  

 

 

 

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