POR CAUSA DO BEIJA-FLOR

Aquiete-se meu amigo, aquiete-se. Pois, embora ao longo da vida haja tanta incompreensão, há tempos em que a vida consiste em desapegos: da raiva compulsiva há muito sem sentido; da inveja latente; da cobiça sem limites...

Sossegue essa inquietude meu amigo. Compreenda que aquele que não quer brigar não levanta a voz; que a inveja não passa de uma vontade frustrada de possuir atributos ou qualidades alheias e que o importante na vida não é ter muito, e sim precisar de pouco.

Desapegue-se meu amigo, desapegue-se. Dê passagem à harmonia e ao bem estar físico, material e espiritual, resistindo e promovendo a concórdia. Aceite que as pessoas são únicas e importam; que é preciso ser feliz com o que se tem não com o que se quer sem poder ter.

Aquiete-se minha amiga, aquiete-se. Pois, embora ao longo da vida haja tanta desilusão, há tempos em que a vida consiste em desapegos: do vício que embriaga e que sufoca; da vida vazia de sonhos; de tantas bobagens e futilidades...

Sossegue essa inquietude minha amiga. Compreenda que o vício é uma forma de tentar fugir de si mesmo; que vida sem desafios é uma existência sem prazeres e que se alimentar das mentiras alheias é optar por viver de dissimulações, de frustações e de lamentações.

Desapegue-se minha amiga, desapegue-se. Corra ao encontro do futuro. Leve na bagagem as boas lembranças do passado e não temas se uma noite tenebrosa cair sobre você. Siga adiante, enfrente seus fantasmas e os vivencie para em seguida descartá-los definitivamente.

Aquiete-se meu amigo, aquiete-se. Pois, embora ao longo da vida haja tanto sofrimento, há tempos em que a vida consiste em desapegos: da obrigação de agradar a todos; da baixa autoestima; da vida miserável...

Sossegue essa inquietude meu amigo. Compreenda que a necessidade incontrolável de agradar a todos é uma prática que reflete a incapacidade de se sentir bem consigo mesmo; que a luta diária contra a baixa autoestima traz enormes problemas para seu relacionamento com as outras pessoas e que a vida, além de única, é curta demais para ser mesquinha.

Desapegue-se meu amigo, desapegue-se. Liberte-se da necessidade de aprovação. Aprenda a se livrar do domínio de práticas indevidas e repetidas à exaustão. Não queira curar as dores do mundo e caminhe em direção à aceitação de si mesmo, pois somente assim, com a devida motivação, será possível romper os grilhões da insegurança que te aprisionam.

Aquiete-se minha amiga, aquiete-se. Pois, embora ao longo da vida haja tanta ansiedade, há tempos em que a vida consiste em desapegos: do sonho antigo que não se fez realidade; da lida que já se fez desnecessária; da alegria que se fez perdida...

Sossegue essa inquietude minha amiga. Compreenda que na vida há sonhos predestinados a serem impossíveis ou desfeitos; que as tarefas que podem ser substituídas são potencialmente desmotivadoras e que a tristeza é um sentimento que também advém do desânimo, do fracasso e da mesmice na vida.

Desapegue-se minha amiga, desapegue-se. Lembre-se de que a ansiedade pode ser um alerta de insegurança ou de depressão, reaja: só você pode libertar sua mente. Feche ciclos e caminhe em busca de sonhos possíveis, de desafios pertinentes e de sorrisos sinceros.

Aquiete-se meu amigo, aquiete-se. Pois, embora ao longo da vida haja tanto desamor, há tempos em que a vida consiste em desapegos: de um ciúme doentio que atormenta; do desejo de desforra que tortura; de um querer que não se pode ter...

Sossegue essa inquietude meu amigo. Compreenda que o temor não tem serventia quando não há riscos ou a perda é inevitável; que o orgulho ferido alimenta o ressentimento e o desejo de vingança; que o amor mesmo não correspondido é desprovido de egoísmo.

Desapegue-se meu amigo, desapegue-se. Não sofras mais do que o necessário nem desnecessariamente. Não cultive o ódio, abandone essa mania de se fazer de vítima e deixe de apontar o dedo na direção da pessoa errada. Respire fundo e, resignadamente, livre-se das indecisões e se permita a outro bem querer.

Aquiete-se minha amiga, aquiete-se. Pois, embora ao longo do caminho da vida haja tanto infortúnio, há tempos em que a vida consiste em desapegos: de uma saudade que persiste; de uma ferida que não cicatriza; de uma culpa que corrói a mente e a alma...

Sossegue essa inquietude minha amiga. Compreenda que a saudade que está sempre presente e em demasia é estéril; que as feridas que sangram pela vida afora necessitam de perdão e que a culpa sem remorso, é de inútil e só contribui para a auto depreciação.

Desapegue-se minha amiga, desapegue-se. Vire a página do exclusivismo. Deixe para trás o egoísmo. Note que o mundo não gira em torno de você, por você ou por causa de você. Enxergue o outro de tal forma que a dor e a injustiça não lhe sejam indiferentes. Aprenda que amar também consiste em saber perdoar ao próximo e a si mesmo.

Aquiete-se meu amigo, aquiete-se. Pois, embora ao longo da vida haja tanta provação, há tempos em que a vida consiste em desapegos: de uma paixão que não cala; de uma mágoa que não passa; de um desejo que não sacia...

Sossegue essa inquietude meu amigo. Compreenda que o tempo do amor desperdiçado é irrecuperável; que viver de mágoas é  ingerir gotas de veneno e achar que o outro irá morrer e que os desejos que afligem a alma podem ser iguais a aparições que se vão ao amanhecer.

Desapegue-se meu amigo, desapegue-se. Permita que a vida siga em frente. Mantenha os olhos abertos e deixe o futuro entrar: vivenciando o amor e o perdão. Pratique a mensagem divina: “dai-vos e será dado”, pois, vida quanto mais se dá mais vida se tem para viver.

Aquiete-se minha amiga, aquiete-se. Pois, embora ao longo da vida haja tanta solidão, há tempos em que a vida consiste em buscar e encontrar: um ombro amigo; uma ajuda profissional; uma boa leitura e uma boa música...

Sossegue essa inquietude minha amiga. Compreenda que a natureza humana necessita de congraçamento; que há situações em que os que desejam teu bem-estar não têm as condições necessárias para te ajudar e que aquele que gosta de uma boa música e de uma boa leitura pode até, por vezes, ser sozinho, mas jamais será solitário.

Desapegue-se minha amiga, desapegue-se. Não fique em silêncio revolvendo as amarguras do passado e as dúvidas do presente. Não deixe o grito preso na garganta. Grite a sua dor e seu amor, sua insatisfação e seu contentamento. Desfrute de braços e abraços. De mãos e afagos. De beijos e cheiros. De amigos e amizades. De amores, paixões e cumplicidades.

No mais, meu amigo e minha amiga, não desistam da vida, mesmo quando for difícil entendam que ela é algo maravilhoso que nos acontece. Aceite-a com tudo o que ela traz e persevere sempre, pois viver não é somente conviver com o passar dos dias e sim é ter bons motivos para estar vivo e ser feliz. Eu, por minha vez, que não apresso o rio da vida – pois sei que ele corre sozinho, tal qual nos versos poéticos da canção: “Eu vou na ida indo que o temor desperta, cuidar da minha vida que a morte é certa”. Salve Paulo Diniz!

Fernando Nogueira de Lima é doutor em Engenharia Elétrica e foi reitor da UFMT.

(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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