OS FUROS DA PENEIRA
Por aqui, o dia amanheceu ensolarado e agradável,
propício para se dedicar às amenidades da vida. Já nos noticiários, ao
contrário, o clima está ruim por conta da intempérie que caiu no tabuleiro da
política nacional, prenunciando que muita água ainda irá rolar e cabeças
também. Minha expectativa é que a correnteza arraste máscaras e desnude a face
oculta da verdade sobre tantas inverdades, maquiadas de dissimulações e de
falsos discursos.
Devido à excessiva repetição, desviei, por um
instante, a atenção das informações e comentários sobre o atual cenário
político, lá no planalto central do país. De repente, me veio à mente a letra
da cantiga infantil “Pomar” do grupo Palavra Cantada, composta com o propósito
de ensinar à criançada a origem das frutas, cujos versos eu transcrevo a
seguir:
“Banana,
bananeira/ goiaba, goiabeira/ laranja, laranjeira/ maçã, macieira/ mamão,
mamoeiro/ abacate, abacateiro/ limão, limoeiro/ tomate, tomateiro/ caju,
cajueiro/ umbu, umbuzeiro/ manga, mangueira/ pêra, pereira/ amora, amoreira/
pitanga, pitangueira/ figo, figueira/ mexerica, mexeriqueira/ açaí, açaizeiro/
sapoti, sapotizeiro/ mangaba, mangabeira/ uva, parreira/ coco, coqueiro/ ingá,
ingazeiro/ jambo, jambeiro/ jabuticaba, jabuticabeira”.
Pois é, minha mente tem disso. Como se tivesse
vontade própria me mostra, vez por outra, como entender melhor o que meus olhos
e ouvidos estão a ver e a ouvir. Desta feita, a mensagem esclarece que não há
porque eu ficar surpreso com esse temporal aí, pois ele era previsível. E cá
pra nós, a forma que ele desabou e suas especificidades também estão dentro do
espectro da previsibilidade. A equação não é complicada, pois, também na
natureza humana “laranja, laranjeira/ limão, limoeiro/ mexerica,
mexeriqueira...
Nessa linha de raciocínio, acrescento uma frase que
também reflete o óbvio: “ninguém dá o que não tem”. Por isso, conforme disse
Abraham Lincoln: “você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por
algum tempo; mas não consegue enganar todas por todo o tempo”. Porém, nada
mudará enquanto a sociedade continuar aceitando ser enganada: inconscientemente
- por ignorância ou ingenuidade; conscientemente - por comodidade ou escassez
de indignação; deliberadamente - por conveniências pessoais ou coletivas.
O que pensar de uma república em que a carta magna
pode sofrer - no âmbito de poderes constituídos, investidas com o fito de
desrespeitá-la ou de desfigurá-la. E o que aguardar de uma sociedade em que a
pretexto de defender o regime democrático, clama-se - à luz do dia e no breu de
interesses nada republicanos-, por medidas que contraditoriamente negam a
democracia e que, não importando a forma ou os argumentos postos, rasgam a
Constituição.
O que dizer de uma coletividade que submete o seu
futuro a inútil disputa em que sairá vencedor os responsáveis pelo panelaço que
fizer mais barulho ou que seja mais divulgado na mídia. E, nesse agir, aceita
invadir ruas e avenidas, em dias e horários pré-definidos, e amplamente
divulgados, empunhando bandeiras de causas que contemplam os mais diversos
propósitos, nem todos democráticos. Para, depois, uns comemorarem a tática
levada a efeito e outros ficarem pensando que contribuíram para salvaguardar a
liberdade.
O que esperar de um povo que vive à mercê de
heróis, forjados em períodos de calamidades, em momentos de descontentamento
coletivo, em tempos de total perda de credibilidade na classe política e em
temporadas de muitos escândalos, vindo à tona. A narrativa tem sido trivial:
basta dar conta da sua ocupação, causar polêmica e ter holofotes à sua
disposição, que pronto! Eis o nosso herói, desta sexta feira, deste mês de
primavera sem cheiro de alecrim para anunciar que, em breve, nada será como
antes tem sido, ou já foi.
E assim, vamos produzindo heróis de araque e
tendo fé neles como se fossem mortais divinizados, semideuses, mas, que não
resistem a uma chuva com trovoada. Além disso, insistimos em negligenciar o
significado da palavra herói e continuamos desconhecendo pessoas notáveis da
nossa história real, imersos que estamos neste cotidiano em que o número de
indivíduos crentes de que a realidade acontece nas redes sociais, só aumenta.
Nesta conjuntura, no exercício da cidadania, mesmo
descrente, é imperativo ter atitudes que contribuam para a construção de um
país próspero e de uma sociedade livre, justa e solidária. Até lá, além do
isolamento responsável e do uso obrigatório de máscaras é preciso se vacinar
contra a mesmice, a ignorância, os falsos profetas e a má política. E mais, é
inadiável se deixar contaminar pela curiosidade, pela leitura, pelos fatos e
pela boa política.
Fernando
Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT
(*) foto
do https://pixabay.com/pt/

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