OS DENTES SÃO INOCENTES
Certo dia
quando eu escovava os dentes, uma das minhas filhas adentrou o
ambiente, posicionando-se ao meu lado, diante do espelho, para uma última
olhada e retoques na maquiagem antes de seguir para a lida da vida,
caracterizada, tal qual a da irmã, por cuidar da saúde bucal dos seus
pacientes. Na saída, olhou para mim e disse: - pai tenha calma ao escovar seus
dentes. Sem refletir, eu reagi como a maioria das pessoas quando se sentem
criticadas: - filha, eu estou calmo – respondi, quase que rispidamente.
Ao adotar
a postura de autodefesa sem considerar a intenção dela em relação a como eu
cuidava da saúde dos dentes, eu quis apenas contrariá-la. Ela, já fora do
alcance dos meus olhos sentenciou: - se de fato você está calmo, então escove
com menos força; seus dentes não têm culpa. Sem poder retrucar só restou-me
concluir aquela obrigação que incluía o uso do fio dental e ocorria duas ou
três vezes por dia, porque, às vezes, com desculpas silenciosas eu dormia sem
escovar os dentes, mesmo quando devorava doces.
Durante
algum tempo continuei negligenciando o alerta de uma profissional especializada
em cuidar para além do sorriso, do bem-estar, da autoconfiança e da prevenção
de males advindos de doenças bucais. Creio que ela constatou outras vezes que
eu continuava culpando os dentes. Mas, educada que foi para não insistir no
óbvio com quem não quer ouvir o que se diz, ainda que seja em seu benefício e
sabendo que esse tipo de insistência pode desencadear avalanches de inúteis
discórdias, ficou silente.
Daquele
dia em diante, ao escovar compulsivamente meus dentes e me olhar no espelho,
mormente quando a escova atingia a gengiva provocando dores e machucados, me
vinha à mente aquele alerta: - se de fato você está calmo, então escove com
menos força; seus dentes não têm culpa. Então, compreendendo que críticas que
nos são dirigidas são senhas que podem dar acesso a melhores condições de vida,
não tardou para que eu refletisse sobre o jeito em que se dava minha limpeza
bucal, naquela etapa da vida.
Daí, percebi
que quando uma ação é exercida apenas pelo compromisso de fazer, o alvo é
somente findá-la sem preocupar-se com a eficácia esperada. Assim, ao considerar
que o escovar pode ocorrer sem pressa e com suavidade, concluí que a obrigação
não justificava o meu proceder e, então, o óbvio veio a lume: o problema não
residia na obrigatoriedade e sim no fato de eu estar me submetendo a
insatisfações advindas de afazeres dispensáveis, do convívio com pessoas
amargas e de diálogos sem pausas.
Ora,
sendo parte do grupo de pessoas que agem repetindo ações cotidianas sem
refletir sobre elas, mesmo quando há alertas suficientes clamando por mudanças
de atitudes na vida, incorrendo no risco de se tornarem amargas e solitárias,
como poderia eu preocupar-me com os dentes. Neles, esfregava diariamente e
injustamente a dor reprimida. Então, para me redimir da culpa, assumi que o
escovar em vez de obrigação deveria ser ação para obter, prazerosamente, a
higiene adequada em prol da saúde bucal.
Após
testar vários cremes dentais e verificar a sensação de limpeza advinda de cada
um deles, encontrei nos refrescantes o prazer durante a escovação que tem se
dado pelo menos três vezes, ao dia. A sensação mais agradável que sinto ocorre
particularmente quando, entre uma e outra escovada em dois dentes de cada vez,
massageio sem pressa a gengiva, deixando-me envolver pela sensação deleitosa de
higiene e de bom exemplo, que só se torna completa após a higienização da
língua.
Ademais,
aprendi com minhas filhas que higiene bucal inadequada e maus cuidados com os
dentes, nos deixam suscetíveis a ter cáries, sensibilidade nos dentes,
exposição das raízes, acúmulo de placas bacterianas, inflamação nas gengivas,
mau hálito e cavidades nos dentes nas proximidades da gengiva. E mais, que cáries
e lesões na boca são portas de entrada de bactérias na corrente sanguínea,
possibilitando que enfermidades tais como doenças pulmonares, cardíacas e
complicações de diabetes, se instalem no organismo.
Desde
então, lembrando de que não fui educado para conviver em harmonia com
mediocridades ou servilismos, e tampouco insistir no óbvio com quem não quer
escutar o que se diz, mesmo que seja em seu benefício, tenho externado meus
descontentamentos e, quando necessário, me afastado de tudo que não for saudável,
tarefas, pessoas e conversas que resultem em aborrecimentos sem chances de
serem superados ou minorados. Meus dentes agradecem. Minha saúde como um todo
também.
Fernando Nogueira de Lima é doutor em Engenharia
Elétrica e foi reitor da UFMT
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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