O CAMINHO ESTÁ PELA FRENTE
Em um país caracterizado por elevada concentração de renda, por severas desigualdades sociais, por uma taxa alarmante de analfabetismo e pela incidência da miséria em parcela significativa da sociedade. E mais, afrontado pela violência crescente e corroído pela corrupção desenfreada calcadas na perspectiva da impunidade, não há o que se falar em contrário à adoção de políticas públicas com o fito de incrementar as oportunidades de acesso e de permanência nos diversos níveis que compõem a nossa educação formal. No entanto, é imprescindível considerar que não dá para resolver essa questão fundamental da sociedade sem atentar previamente nas condições indispensáveis para que ela realmente possa existir. Em assumir propostas, aceitando palavra por palavra sem refletir e descer ao fundo do seu significado essencial e de seu objetivo real. Agindo dessa forma, corremos o risco de vivenciar um projeto ilusório de mudanças sociais que sequer pode ser incluído no universo da utopia.
A educação vista e exercida como um
instrumento de libertação de um povo deve ser capaz de assegurar a inclusão
social de todos os cidadãos e não apenas daqueles que por razões econômicas ou
outras têm facilidade de acesso à educação. Essa é uma premissa básica e óbvia.
Todavia, e fundamentalmente, para além do acesso e das condições de
permanência, a educação deve ensejar a visão crítica e reflexiva sobre a
realidade nacional. Isso porque, o propósito deve ser assegurar as condições
necessárias e suficientes para promover as mudanças sociais requeridas pela
nação e os avanços demandados pelo desenvolvimento científico e tecnológico
desejado para o país. Nesse contexto, a meu ver, o imperativo é que sejamos uma
grande nação, não necessariamente um grande país.
As soluções para os
inúmeros problemas que afligem a educação neste nosso vasto país não podem ser
encontradas priorizando-se, a todo e qualquer custo, a quantidade no acesso à
educação formal, associada à necessária redução dos níveis de evasão e ao
aumento na média de concluintes. Dessa forma conseguiremos, tão-somente, elevar
nossos índices de desempenho nos relatórios oficiais e censos educacionais. Que
não se apressem dizendo que sou contra a universalização do acesso à educação
ou que sou favorável à reprovação
Além disso, tenho convicção de que o
professor está em sala de aula principalmente para aprovar e não para
simplesmente identificar limitações do aluno e, por causa delas, reprová-lo. De
outra forma dizendo: contribuir para que os alunos superem suas limitações, não
importando a dimensão ou mesmo a natureza dessas limitações, representa tarefa
necessária e intransferível do educador. Resta saber quantos de nós concordamos
com isso ou em concordando, estamos preparados e exercendo essa tarefa.
Portanto, creio que a
questão de fundo não é quantitativa. Qualitativa, essa sim é a sua natureza.
Nesse sentido, há perguntas que não se fazem quando não se quer perguntar,
quando não se quer saber a resposta ou quando não se sabe sequer que é uma
pergunta a ser feita. Duas delas: que profissional nós precisamos formar e que
profissional estamos formando? O primeiro questionamento nos remete a que
modelo de desenvolvimento devemos perseguir na busca de uma sociedade menos
injusta e excludente. O segundo questionamento nos possibilita dizer se
mudanças devem ser consideradas em relação à prática educacional vigente:
formas de acesso, estruturas curriculares, práticas pedagógicas, paradigmas,
etc. que têm influência direta no perfil e na formação do estudante. Não
bastasse, têm influência direta na visão de mundo, nas escolhas e, também, nas
ações do cidadão: no exercício profissional, no cenário político e na sociedade
como um todo.
Não dá para esconder o
sol com uma peneira. Em grande parte, o aluno é consequência da ação dos seus
educadores. Isso é uma constatação insofismável. Porém, é preciso gritar que a
ação desses educadores, por sua vez, depende, em grande parte, do exercício do
magistério com condições materiais e práticas pedagógicas adequadas, com
condições de atualização continuada e, não menos importante, com condições
salariais dignas. Excluir qualquer que seja dessas dimensões no processo de
mudanças educacionais, ou ainda estabelecer que no decorrer de um lustro seja
possível modificar drasticamente, de forma responsável, a realidade da educação
superior pública no país via termo de pactuação, com vistas ao atendimento das
metas fixadas em Decreto é, s.m.j., negligenciar ou mesmo desconhecer a
complexidade e a abrangência das demandas do setor educacional brasileiro. A
não ser que estejamos tratando de expectativas distintas de desenvolvimento.
Na construção do amanhã o
caminho está pela frente. Essa perspectiva é verdadeira mesmo quando se faz
necessário retroceder. Voltar atrás. Nessas situações, basta ter coragem de dar
meia volta e vislumbrar, de frente, o caminho a seguir. Isso porque, é
caminhando que se constrói o caminho, ainda que parte desse caminho seja
repleto de destruição.
Fernando Nogueira de Lima
é doutor em engenharia elétrica e ex-reitor da UFMT.
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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