NO TEMPO DE CADA UM

Quando enfim chegar a minha hora de percorrer o caminho de volta para casa, seja qual for a derradeira provação a que terei de passar, eu poderei agradecer a Deus por ter adquirido a capacidade de ver além das luzes ao alcance dos olhos e enxergar a razão de ser da transitoriedade deste vínculo de vida. Assim, tudo que precisarei, além das lembranças dos que amarei incondicionalmente para sempre será voar livremente, em consciência, liberto de tudo e do mais.

Neste instante, eu que já sabia que na ausência da matéria restará o pensamento com o poder de criar matéria, mergulharei em águas límpidas e doces que são as que eu mais aprecio, até me saciar dos últimos prazeres materiais para, em seguida, radiante de felicidade seguir em paz o caminho repleto de luz, sentindo, na sua plenitude, a sensação de deleite inimaginável, indescritível e permanente de vivenciar o ser divino.

Por isso, os que virão depois de mim haverão de compreender e ver que não se trata de ocasião para lamentar a morte corpórea, e sim de exaltar a vida em toda sua plenitude. É, pois, momento para agradecer o convívio e as boas recordações da maravilhosa experiência de viver, amar e ser amado. E mais, é tempo para acreditar que é possível levar consigo, para a casa celestial, as lembranças e as boas sensações advindas delas. 

Então, se é para enaltecer a vida, que não haja flores sem vida exalando o aroma que remete à morte, tal qual a lembrança do perfume das margaridas e dos sorrisos, - em minhas mãos, nos domingos da minha infância. Sendo momento para enaltecer a vida vivida, não pode ser ocasião para amargura nem prantos. Os que, diante da morte, choram por tristeza não compreendem a felicidade que há em poder retornar para o lar, mantendo a consciência do que somos em matéria e do que somos em espírito.

Mas, se houver lágrimas que não sejam de adeus, pois neste nosso amor não há lugar para despedidas. Diversamente disso, que sejam, - se forem, por estar diante da irreversibilidade da ausência física, pois o tempo e a sabedoria se encarregarão de transformar essa dor, com contornos momentâneos de inconformismo em suaves e agradáveis lembranças, pela vida em fora.

Nessa hora em que eu não puder ter vontade, que minha pretensão de antes importe e a música ecoe insistente e não muito discretamente. E que não sejam músicas fúnebres ainda que tocadas por violinos, esse instrumento de som maravilhoso que me remete à saudade do que se foi e mesmo assim continua presente em mim. Em vez disso, que sejam as canções que costumo ouvir desde há muito tempo, alto e em bom som com todos os graves e agudos a que se tem direito ao apreciar as músicas preferidas.

Assim sendo, no último cortejo ou ao final da última cerimônia, em vez do som de clarins que haja um RIFF, reafirmando o meu prazer pelo rock ou pelo blues, pela música clássica ou pelos cantos gregorianos, pelo baião ou pelo samba do carioca da gema, pela genuína MPB ou por todas aquelas canções de ninar com as quais embalei tantos sonos. 

Os últimos acordes poderiam ser da música “revolution” do quarteto britânico que tanto aprecio, porque há momentos na vida que é preciso revolucionar o modo de viver, ou quem sabe da música “don’t stop” da banda de rock com mais tempo de estrada, porque o título sugere que a vida não deve estacionar e que é preciso seguir em frente. Mas para confortar o espírito de quem fica que seja a parte II - "Adagio un poco mosso", do conserto para piano nº 5 em mi bemol maior Op.73, de Ludwig Van Beethoven. 

No andar da carruagem da vida, certo é que as boas recordações e os bons exemplos dos que já fizeram o retorno de volta para casa estarão, vez por outra, presentes nas tuas lembranças. Por isso, ano após ano, quando a boa música se fizer presente no teu cotidiano, eu estarei lá. Quando o riso ecoar em gargalhadas aos quatro ventos que sopram em todas as direções, eu estarei lá. Quando o silêncio se fizer presente e calar o impulso que pode ferir a quem se ama, eu estarei lá. Quando a emoção aflorar em teus olhos diante de um desempenho comovente na vida, na tela ou no tablado, eu estarei lá. Quando a leitura te emocionar ou despertar vocações nunca imaginadas, eu estarei lá.

Além disso, quando entenderes que na vida não se deve navegar desnecessariamente em mares já navegados, eu estarei lá. Quando aprenderes que do passado o que deve restar são as boas lembranças e os exemplos a serem seguidos, eu estarei lá. Quando compreenderes que não há como apressar o rio da vida, pois ele corre sozinho no seu próprio ritmo, eu estarei lá. Quando notares que a vida é deveras curta para ser mesquinha ou medíocre, eu estarei lá. Quando aceitares que a vida deve seguir adiante, eu estarei lá. Quando acreditares na eternidade do pensamento, eu estarei lá.

E quando enfim sentires que é chegado seu tempo de voar livremente na luz de volta para casa, saibas que eu estarei lá na cancela da morada celestial, de braços abertos e com um sorriso nos lábios te aguardando.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT

(*) foto do https://pixabay.com/pt/ 

 


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