NAS ASAS DA LIBERDADE

Onde existir um olhar sem brilho – sobretudo de criança - que, na maioria das vezes, se direciona para baixo e que, pela desesperança, se projeta tão somente em direção ao nada é sinal de que ali prevalece a falta de liberdade. Bem por isso, predomina a ausência de senso crítico e de justiça social. Além disso, não raro, ali coexistem corrupção, hipocrisia e impunidade.

Impossível existir liberdade onde imperar as amarras da opressão, da indiferença e da alienação. O mesmo se diga de onde perdurar o analfabetismo, a fome e a miséria. Razão pela qual a superação das desigualdades sociais somente se dará com mudanças de comportamento, de escolaridade e de atitudes. Daí será possível almejar uma sociedade justa e igualitária. Do contrário é continuar vivendo de ilusões em uma realidade na qual a tônica é enganar ou ser enganado. É alienar ou ser alienado.  É ser conivente ou servil, voluntariamente.

A liberdade é um estado da mente. Quanto a isso dúvidas eu não tenho. Todavia, necessita do corpo para se expressar. Nesse sentido, conscientização sobre os problemas que afligem a coletividade, assim como disposição para atitudes em prol de mudanças deve ser uma constante no exercício da cidadania. Quiçá na prática de todos os cidadãos. Por oportuno recorro ao poeta Ferreira Goulart: É necessário conhecer a realidade do País. Virar brasileiro. Dessa forma é possível trilhar um dos caminhos que contribuem para uma nação livre. Aliás, é dessa liberdade que estou a me referir. A liberdade de um povo, de uma sociedade.

Na busca dessa liberdade é preciso manter o senso crítico e o permanente questionamento, com vistas a identificar novas respostas sobre a realidade posta. Para tanto é preciso ler e ouvir de maneira crítica, não acreditando, passivamente, em tudo o que se lê ou que se escuta. Por isso mesmo, uma maneira de ser livre, como diria o escritor Ariano Suassuna é assistir TV sem perder o senso crítico. Essa postura também deve ser levada a efeito diante da palavra escrita, não importando o instrumento pelo qual ela se apresente.

Igualmente importante é não ser marionete na vida, demonstrando vontade própria e iniciativa na forma de atitudes corajosas e consistentes. É preciso lembrar que não importa quando nem onde, certo é que a superação das injustiças sociais depende da participação consciente e organizada da sociedade. Isso porque, quando a participação se dá isolada ou desprovida de convicções, alicerçada apenas no excesso de informações, não raro, esgota-se em si mesma e não contribui para o surgimento de lideranças confiáveis, nem para mudanças de grande alcance social.

Nada há de errado com a liberdade. Os equívocos residem na sua ausência e em determinadas formas de entendê-la ou de praticá-la. Exemplifico: Embora pressuponha ampliação, liberdade não é a negação ou a destruição de limites. Mesmo porque, a inexistência de limites representa um dos fatores que podem inclusive contribuir para limitar ou mesmo cercear a liberdade.

A propósito de limites recorro desta feita ao educador Paulo Freire: educar é saber frustrar. Pois bem, é exatamente desse entendimento que a liberdade das futuras gerações está a depender. Ou seja, é preciso impor limites. Mais que isso, é preciso saber impor limites.

Nesse contexto vale lembrar que, na democracia, a medida certa de liberdade é aquela que reflita o equilíbrio entre o direito e o dever de cada indivíduo e de cada coletividade. Somente assim, é possível assegurar que uns não sejam ou se sintam mais iguais do que outros.

Por fim, que a educação seja praticada como um instrumento de libertação, de tal forma que o senso crítico, a indignação e o desejo por justiça sejam impulsionadores dos nossos sonhos e das nossas ações, e que na vida seja como no refrão do samba enredo da Imperatriz Leopoldinense, em 1989: liberdade, liberdade abre as asas sobre nós e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e ex-reitor da UFMT.

(*) foto do https://pixabay.com/pt/   

 

 

 

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