FOME DE CIDADANIA
Voltando no tempo, mais
precisamente à época de adolescente, me recordo de uma discussão, entre amigos,
sobre o que os membros do Congresso Nacional e do Executivo Federal poderiam
fazer para solucionar o problema da fome no Nordeste, assim como nas demais
regiões em que ela se fizesse presente. Um dos pontos ali colocados foi o
questionamento sobre o efetivo interesse dos representantes do povo e dos
Estados, em relação àquela temática. Isso porque, a maioria deles não conhecia
a realidade de perto e nenhum deles havia passado fome.
Evidentemente concluímos
que só boa vontade e disposição não resolveriam o problema de milhões de famílias
que sofriam de fome todos os dias e que, para se dedicar à questão posta, não
era imperativo passar fome ou necessariamente vivenciá-la. Em vez disso,
imprescindível espírito público, senso de justiça e conhecimento das demandas
da sociedade. E mais. Teria que haver
determinação política sem o que as intenções poderiam se confundir com
discursos voláteis e enganações corriqueiras, muito comuns no cenário político
nacional.
Ao longo daquela
discussão, foi consensual o entendimento de que, no exercício do poder e do
dever, independentemente da região de origem, os ocupantes desses cargos
políticos têm obrigações para com a nação. Por isso mesmo é atribuição
intransferível do Estado, formular e executar políticas públicas que considerem
regionalmente as demandas sociais, enxergando o País como um todo. Afinal, um
dos objetivos da República Federativa é garantir o desenvolvimento nacional e
não o desenvolvimento desta ou daquela região.
Já se passaram pouco mais
de quatro décadas desde aquela discussão na praça para onde estudantes e outros
membros da sociedade se deslocavam para falar sobre a política, apesar do
regime de exceção vigente à época, no qual era temerário se reunir para
contestar a ditadura e as ações governamentais. Pois bem, as conclusões a que
chegamos naquela noite continuam válidas hoje em dia. Todavia, mesmo com a
adoção de políticas públicas compensatórias, tipo Bolsa Família que amenizou o
problema, reduzindo, nos últimos anos, a pobreza em cerca de um sexto é preciso
dizer que a fome ainda assola o País.
A desigualdade social tem
sido herdada de geração em geração. Cerca de 50% dos brasileiros vivem sem
tratamento de água e esgotos. Quase 60% não usam escova dental e em torno de
25% da população ainda vive na pobreza absoluta. A taxa de mortalidade infantil
que caiu de 52,04 mortes por mil nascimentos em 1990 para 19,88/mil em 2010,
por sua vez, continua sendo um problema que clama por soluções inadiáveis.
Senão vejamos: considerando a taxa de nascimentos de 16,04 por mil habitantes
em 2008 e uma queda de 1,6 % ao ano nos nascimentos, conclui-se que a cada dia
morrem 165 crianças no Brasil. Ou seja, pelo menos uma criança a cada 10
minutos, sendo que parcela significativa desses casos certamente está associada
ao flagelo da fome, à má nutrição e à falta de saneamento básico.
O combate à fome e à
pobreza tem que ser assumido como uma exigência ética. É o que penso e defendo.
Nessa perspectiva, precisamos superar a prática de adoção das políticas
compensatórias para enfim instituir no País medidas eficientes e eficazes na
aplicação de políticas públicas para a geração de maior igualdade no acesso aos
alimentos e para promover a cidadania que possibilite o acesso adequado à
educação e à saúde. Igualmente à renda e à moradia com saneamento básico. Nesse
contexto, não podemos esquecer de que há uma relação direta entre fome, pobreza
e manutenção do poder político. É que um povo faminto, necessitado e
desinformado, não dispõe de condições, autonomia e nem consciência política
para, a partir do exercício do voto, promover as mudanças sociais que o seu
cotidiano requer.
Por fim, entendo a fome
como a expressão mais cruel da não existência de paz. Representa uma guerra
surda. Silenciosa. Cotidiana. Escondida nos rincões e nas periferias. Ela
contribui para o incremento da marginalidade, da prostituição e para a morte de
mais 6 milhões de crianças, todo ano, mundo afora. Bem por isso, urge que se
denuncie com regularidade, e com realismo, as condições de vida da população
não assistida pelas políticas públicas. Assim, quem sabe, será possível
assegurar continuamente o enfrentamento dessas condições adversas, evitando que
a fome continue sendo apenas um número, uma estatística: sem nomes, cores,
histórias, dramas e tragédias humanas.
Fernando Nogueira de Lima
é doutor em engenharia elétrica e ex-reitor da UFMT.
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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