A VIOLÊNCIA NÃO É UM ATO BANAL
Em cursos de Engenharia
de Segurança do Trabalho é usual apresentar fotos com cenas fortes de acidentes
com energia elétrica: corpos pendurados nas fiações, corpos dilacerados, vidas
ceifadas. Para além de evidenciar os riscos de ocorrência de acidentes fatais,
o propósito é causar impacto emocional e ensejar mudanças de condutas em prol
da segurança no ambiente de trabalho. Nessa perspectiva, a foto tem por
objetivo chamar a atenção para o fato.
Tal estratégia, a meu
ver, era mais eficaz nos tempos em que a internet não estava disponível com as
possibilidades e facilidades atuais. É que de uns tempos para cá, tornou-se
usual e até natural o compartilhamento, às vezes ao vivo, de acidentes graves
com mortes violentas, inclusive. Acredito que esse tipo de postagem revela insensibilidade
e contribui para banalizar a violência. Nessa perspectiva é o fato sendo usado
para chamar a atenção para a foto.
Por ser pertinente, cito exemplos
dessa realidade: diante de um acidente, alguém se aproxima do local filmando e
mostra a vítima no carro, sangrando e sem vida; por usar camisa de um time de
futebol, certa pessoa foi brutalmente espancada por torcedores de outro time,
então, alguém filma a vítima agonizando e em vez de buscar ajuda fica se
referindo à barbaridade do ato; jovem cai ao tentar entrar num barco com motor
ligado, sofre graves ferimentos provocados pela hélice e tão logo foi retirada
da água as imagens sangrentas foram postadas.
Há também postagens de
fotos com cenas fortes sobre tragédias, como foi o caso das imagens do acidente
que vitimou todos os membros dos membros do Mamonas Assassinas. Outra foto que
me vem à mente é a de um monge se imolando com fogo e que foi usada para fins
de gracejos, quando, na verdade, revelava um ato de protesto. Todas essas veiculações
inúteis de violência explícita, constituem desrespeito ao ser humano: suas
causas e suas histórias.
Fico a imaginar o efeito
dessa prática na forma em que as pessoas reagem à violência e nesse sentido
receio que tanto as que fazem essas postagens quanto as que se acostumam a
visualizá-las tornam-se gradativamente apáticas em relação à violência em geral
e à dor alheia em particular. Atentemos para o fato de que é muito comum, neste
mundo virtual, perder o interesse por postagens sobre um mesmo tema, ainda que
apresentem abordagens distintas.
Nesta linha de
raciocínio, os vídeos educativos intitulados “Experimentos Sociais”, com simulações de situações que envolvem riscos para crianças e
adolescentes são oportunos e bem-vindos, embora longos. Todavia, o excesso de
exemplos simulados que não se baseiam em casos reais podem não surtir o efeito desejado,
porque, com o tempo, a visualização repetida de situações fictícias é capaz de
comprometer o objetivo da causa a que se propõem.
Por oportuno, saliento
que me incomoda sobremaneira e me causa indignação a costumeira veiculação da
violência contra mulheres em que elas são exibidas quase sempre machucadas
enquanto que os seus agressores, quando ocorre, são apresentados com boa
aparência e até sorrindo, ensejando subliminarmente a impunidade. Tal prática
deveria ser revista e evitada.
Ao fim e ao cabo é
necessário sublinhar que nesta era virtual em que predomina o visual e o desejo
compulsivo de aparecer nos meios eletrônicos, a veiculação inoportuna e os
compartilhamentos desnecessários de imagens com violência podem, dentre outros
malefícios, contribuir para enfraquecer a capacidade de indignação diante de
atrocidades, já que o ser humano, como é sabido, também se acostuma com o que
não convém se acostumar.
Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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