ENTRETENIMENTO E TERAPIA

Três décadas atrás, devido ao avanço da tecnologia, as famílias adotaram o hábito de assistir em casa a filmes que eram alugados nas locadoras. E passavam a sexta à noite, o sábado e o domingo diante da TV, tirando e colocando fitas VHS (enormes) no videocassete. Depois chegou a tecnologia do DVD Player, e então passaram a locar os discos compactos (CDs).

Cogitava-se à época, que as salas de cinemas iriam fechar. Mas, o que se deu foi apenas a diminuição de frequentadores, durante certo tempo. Quanto ao videocassete e ao DVD Player, devido às novas tecnologias ficaram obsoletos. As locadoras de fitas e de discos compactos (CDs) pertencem, hoje, a um passado recente e esquecido.

Recordo-me de quando eu ia às locadoras e percorria as prateleiras desejando encontrar um filme que tivesse recebido boa crítica ou que pelo menos fosse inédito, para mim, e que tivesse alguma chance de prender a minha atenção durante a exibição. Mais ou menos o que tem ocorrido comigo, nesta quarentena, quando acesso as possibilidades que há na internet.

Mesmo com a NETFLIX, o YOUTUBE, a TV a cabo e demais possibilidades de acesso a filmes e a seriados, as salas de cinema continuaram sendo bem frequentadas. Os bons enredos, tramas e interpretações concorrem para isso. Não nos esqueçamos, aqui, dos filmes de fantasias, e principalmente, das franquias milionárias que apostaram nos super-heróis.

Em minha opinião, as super-heroínas cativam mais os espectadores, seja pela beleza plástica, pela inserção na trama ou pelo poder que as mulheres exercem em todos nós ao longo da vida. Talvez isso, explique a quantidade de super-heroínas nos programas de desenhos infantis e o encantamento que essas personagens causam nos pequeninos.

Certa vez, numa conversa sobre o porquê das pessoas assistirem a filmes no cinema, quando podem fazê-lo em casa, cheguei à conclusão de que a justificativa não se restringe ao tamanho das telonas e à qualidade do som. Por certo, depende também da vontade de sair, de encontrar pessoas, de alterar a rotina, ou seja, da necessidade de se socializar.

Quando se deseja ir ao cinema é comum acessar a internet para decidir, com familiares ou amigos, qual dia, horário e filme que será assistido. Além disso, em vez de apenas se deitar no sofá, ou cama, com o controle remoto na mão, é preciso entregar-se a um ritual de beleza, antes de sair de casa. Trata-se, pois, de um ato social que pode afagar a autoestima.

E mais, antes do filme é possível olhar vitrines, encontrar pessoas amigas para um breve bate papo, comer alguma coisa, saborear um café, beber uns chopes ou umas cervejas e jogar conversa fora. E, inevitavelmente, a poucos minutos do início da sessão, comprar pipoca, refrigerante ou água, além de algumas guloseimas. Assim, não há tédio que resista.

Hoje em dia, no cinema, é necessário exercitar a paciência com as pessoas de risos fáceis e que ficam o tempo todo conversando em voz alta com quem está do seu lado e com quem sequer está no cinema. É que a dependência causada pelo uso indevido do celular inibe a capacidade de concentração. Por isso é tão fácil se distrair diante da telona, inclusive.

Nesse contexto, uma coisa é certa: Tudo o que acontece antes, durante e depois do filme, pode ser - e quase sempre é, tanto no retorno para casa quanto nos dias seguintes, assunto para conversas descontraídas e até mesmo para comentários ou confissões bem-humoradas.

Em se tratando de cinema é comum se dizer que a arte imita a vida. Porém, na vida real, tem pessoas que escolhem ser protagonista principal de um filme de terror, que tem os seus vícios como tema central do enredo, fazendo com que os seus familiares e amigos se tornem, fatalmente, espectadores de cenas repetidas que provocam sofrimentos e lágrimas.

Trata-se de um longa-metragem sem data para sair de cartaz, num cinema do qual a plateia não pode se retirar antes do protagonista se dirigir à porta de saída. Nesse tipo de filme a tragédia humana é vivenciada e pode alcançar gerações, porque, há jovens, que vendo a interpretação, identificam-se, e quando menos se espera estão sendo protagonistas da sequência desgraçada desse drama da vida real. É triste, muito triste, essa maneira de viver.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT

(*) foto do https://pixabay.com/pt/ 

 

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