CUBA AOS OLHOS DE QUEM PASSA 

CUBA! Dos olhos verdes e pele clara. Dos olhos negros e pele escura. Das unhas e vestes de cores fortes. Das partes abundantes e generosas. Da escassez e da necessidade. Da autoconfiança e do olhar firme. Do entusiasmo e dos argumentos intermináveis. Do desejo de pintar os imóveis e da falta de tinta. Da fartura para uns e da carência para outros.

Da velha Havana, da quinta avenida, das mansões e da Havana nova. Do livre acesso para os turistas e da limitação para os demais. Da TV estatal e da paixão pela novela brasileira. Da carência de transportes e da prática corrente de pedir e de dar carona. De tantos carros antigos e tão poucos novos.

CUBA! Da revolução e dos revolucionários. Do culto à história e aos heróis da revolução. Do comandante revolucionário e do revolucionário que alimenta o ideal. De Fidel, de Che Guevara, do grande general, de Camilo Cienfuegos e dos irmãos assassinados. Dos estudantes mártires e do muro de fuzilamento. Dos símbolos, dos monumentos e dos murais. Da união e da unidade.

Do bloqueio econômico que limita e ensina a aprender com a adversidade. Da crítica a mafiosos americanos. Dos princípios inegociáveis. Dos militantes do partido e do povo em geral.  Do mausoléu e da carta de despedida de Che. Do ideal de liberdade com soberania. Da possibilidade da morte para assegurar a vida. 

CUBA! Do arroz com griz. Do doce de papaia e da papa frita. Do plátano. Da manga e do suco de manga. Do suco de pina colada. Do doce de manga ou de coco, com queijo. Da enorme fila para comprar sorvete. Da comida com opções limitadas. Da abundância de diferentes alimentos em locais com acesso restrito. Do turismo, do tabaco e da tequila. Do rum e da guayabita. Do suave sabor da cerveja cristal e do forte sabor da cerveja bucanero.

Da bodeguita del médio. Da mulata branca e da mulata preta. Da mulata que se bebe e da mulata que se deseja. Do não poder desejar muito. Do ter que necessitar de pouco. Do não ao desperdício. Da pobreza sem pedintes. Das bicicletas. Da vida simples. Das casas simples. Dos hotéis suntuosos. Do dólar americano e do peso cubano. Do banco de Créditos e Finanças.

CUBA! Dos vinhares, da caverna, de Varadero e do orquidário. Da Capital e do interior. Da música e da dança. Da graciosidade da salsa e do romantismo de Pablo. Do artesanato e da pintura. Do beisebol popular e do golfe para poucos. Da areia fina e branca da praia e do azul turquesa do mar. Do vermelho intenso do sol e da fumaça cinza que sai do carro.

Da hospitalidade. Da alegria e do sorriso. Dos cumprimentos afáveis e espontâneos. Dos beijos e abraços. Da cooperação e do companheirismo. Da liberdade limitada e observada. Dos sonhos e da esperança no futuro. Da realidade e da degradação no presente. Da prostituição proibida e dita coibida. Da prostituição admitida e exercida. 

CUBA! Do trabalho científico e do trabalho braquial. Dos pequenos feitos reconhecidos como grandes conquistas. Do resultado científico e das condições precárias para se trabalhar. Dos laboratórios com tecnologia de ponta. Das ações que objetivam resultados para o país. Da predisposição e do desejo incontido por parcerias.  

Dos universitários que devem ser pessoas cultas e que estudam para servir à pátria. Da não reprovação para continuidade na universidade. Da disciplina e do respeito. Dos cumprimentos coletivos em sala de aula aos visitantes. Das atividades acadêmicas e científicas. Do plantão noturno como segurança na universidade, para docentes e discentes. Do ensino laico e da prática de crenças religiosas.

CUBA! Das belas dançarinas em uma noite sem público e sem show. Das cores da bandeira refletida na beleza facial feminina: tez, lábios e íris. Do desejo contido e do não poder olhar. Da saudade de além-mar. Do desejo de voltar e ter que ficar. Do querer partir e ter que permanecer. Dos contrastes intrigantes e alucinantes. De tudo quanto se decanta e encanta. De tudo quanto não se conta e desencanta.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT. 

(*) foto do https://pixabay.com/pt/ 

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