CONVERSA COM SARAMAGO
Dia desses, andava eu à toa num shopping quando me
vi diante do José Saramago. E, então, para não perder a oportunidade de
conversar com o Nobel de literatura me dirigi até ele e manifestei esse meu
desejo. Pois bem, minutos depois, confortavelmente sentado em um dos bancos
espalhados naquele espaço comercial, iniciei uma agradável e instigadora
conversa com o escritor português sobre o pedido de perdão da Igreja Anglicana
a Charles Darwin, que se deu por ocasião da comemoração dos duzentos anos do
seu nascimento.
De saída, colocando em dúvida a existência deles,
afirmou que para os leitores ingênuos isso é uma boa notícia. Esclareceu que
nada tem contra pedidos de perdão que, segundo ele, ocorrem quase todos os dias
por uma ou outra razão. Todavia, apressou-se a colocar em dúvida sua utilidade,
pontuando que mesmo se o Darwin fosse vivo e aceitasse o pedido não apagaria
uma única das injustiças sofridas. Assim, o único beneficiado é mesmo a Igreja
Anglicana que, sem despesas, veria aumentado seu capital de boa consciência,
disse ele.
Não parou aí e lançando mão da ironia como figura de
linguagem, recurso linguístico cada vez menos utilizado entre nós e quando
empregado cada vez menos compreendido, disse que deveríamos agradecer o
arrependimento, ainda que tardio, pois talvez estimulasse o Papa Bento XVI a
também pedir perdão a Galileu Galilei e Giordano Bruno, destacando que este
cristão foi caridosamente torturado até a fogueira em que foi queimado.
Distanciei-me dos seus argumentos e fiz
considerações sobre o perdão na perspectiva de quem perdoa que, a meu sentir,
nada tem a ver com esquecer o que se deu, e sim com deixar de sofrer ao se
lembrar do ocorrido. Afirmei que perdoar alguém pós-morte ou a quem pede perdão
movido pelo arrependimento, ao assumir os erros do seu proceder reconhecendo a
injustiça cometida e os males dela advindos é opção para deixar a vida seguir
em frente, virando páginas de um passado ruim do livro da vida, que insiste em
se fazer presente.
Destaquei, também, que guardo comigo boa dose de
desconfiança quanto às verdadeiras motivações para o remorso transformado,
tardiamente, em ação. Pois, mesmo diante da hipótese de benefícios para a
história, para a ciência, para descendentes ou para a popularização da prática
do perdão, aqui e alhures, nada mais é do que uma súplica inútil. É um grito
solto aos quatro ventos, porém, sem eco advindo de quem não pode mais perdoar.
Por conta de compromissos outros tivemos de
suspender a conversa, convencidos de que iríamos nos encontrar outras vezes -
não mais ali, para dialogarmos sobre este e outros assuntos do cotidiano da
vida e sobre alguns personagens da história contemporânea. Então, antes de nos
despedirmos, conclui meu raciocínio anterior dizendo que em relação a quem não
tem consciência do erro cometido ou a quem não carrega culpa pela atitude
perpetrada não há que se falar em perdão, e que, nesses casos, resta apenas o
diálogo ou a indiferença.
Creio que você deve estar se questionando: o José
Saramago? Dias desses? Como assim? Apresso-me a explicar: na verdade, estava eu
no tal shopping quando vi um Sebo Cultural para onde me dirigi de imediato, e
lá o olhar se direcionou para um dos livros que estavam à mostra na vitrine
principal, qual seja o Caderno de José Saramago que contém os textos escritos
para o seu blog, durante setembro 2008 a março de 2009. Após comprá-lo,
sentei-me no banco mais próximo e vivenciei momentos de excelente leitura e de
boas reflexões.
A propósito do tema daquela conversa fictícia,
para os que falam que é fácil dizer que temos de perdoar, difícil é fazê-lo, eu
afirmo que na vida as coisas são simples, nós é que as complicamos em demasia.
Parafraseando Ataulfo Alves e Mário Lago, no samba “perdão foi feito pra gente
pedir”, acrescento: perdão, por ser uma atitude que pressupõe uma via de mão
dupla foi feito pra gente acolher e assegurar a plenitude dos benefícios
atinentes, dentre eles o de viver sem mágoas e sem ressentimentos. Em paz
com os outros e consigo mesmo.
Por fim, atenho-me a reminiscências de um filme que
assisti há muito tempo. Dele, recordo-me do final em que os protagonistas que
vivenciavam uma separação litigiosa se encontram, por acaso, quando vinham em
direções opostas pela mesma calçada. Diante um do outro, se entreolharam, e em
seguida, ele ou ela – não lembro mais quem, disse: perdoe-me. Nada mais foi
dito, apenas abraçaram-se carinhosamente e depois, braços dados, seguiram
juntos e em paz na mesma direção. Assim terminou o filme e assim termino este
texto.
Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia
elétrica e foi reitor da UFMT
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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