A VIDA NÃO EMITE AVISO PRÉVIO

 Fernando Nogueira de Lima

Eu bem sei: quem se propõe a exercer a vida pública será amado e será odiado. Isso porque a ascensão política implica em contrariar interesses e em impor derrotas aos adversários. Quem se propõe a exercer a vida pública há de conviver com aliados leais e com adversários corretos. Em escala maior haverá de conviver com adversários desleais e com aliados que por ambicionarem tão-somente o poder são capazes de atraiçoar. Quem se propõe a exercer a vida pública está sujeito a obter vitórias e a sofrer derrotas. Nas vitórias não faltarão aliados. Nas derrotas cairão inúmeras máscaras e somente restarão alguns, com os quais poderá contar.

Eu bem sei: quem se propõe a exercer a vida pública corre o risco de ser caluniado e injustiçado, independentemente de ser vencedor ou de ser perdedor. Quem se propõe a exercer a vida pública uma vez caluniado e injustiçado passa a ser visto como se tivesse uma doença contagiosa e, não raro, é condenado à prisão domiciliar e até a execração pública. Quem se propõe a exercer a vida pública uma vez caluniado e injustiçado, passa a depender dos procedimentos judiciais que, para além dos constrangimentos pertinentes, demandam um tempo demasiado longo para quem  depende deles para resgatar a dignidade. Quem se propõe a exercer a vida pública uma vez caluniado e injustiçado será tratado como culpado muito antes e até mesmo depois que se prove  a sua retidão.

Bem por isso a justiça que desejo deve ser em vida. Isso para que os meus algozes saibam que sou ciente de que a justiça e a verdade prevalecem às mentiras e às calúnias. A justiça que desejo deve ser em vida para que a subtração de oportunidades seja substituída por novos desafios. A justiça que desejo deve ser em vida para que eu possa ser capaz de perdoar a quem me difamou e a quem me desamparou. A justiça que desejo deve ser em vida para que eu possa ver a minha descendência crescendo de cabeça erguida e com os olhos voltados para o porvir.

Portanto se você quer ajudar a que me façam justiça, então o faças agora que eu ainda respiro. Se você quer que me façam justiça me mostres hoje a sua lealdade. Lembre-se de que esta vida não emite aviso prévio. Mas, se você faz parte dos que me pedem para calar quando o que preciso é falar. Se você faz parte dos que me oferecem indiferença quando o que espero é gratidão. Se você faz parte dos que se escondem por detrás de uma desculpa qualquer para virar as costas no exato momento em que mais preciso da sua ajuda. Enfim e afinal se você faz parte dos que, sabendo da verdade, permanecem calados enquanto tantos me acusam, então saiba que:

Se não for enquanto estou vivo, não quero tuas lágrimas ainda que reflitam um mínimo de arrependimento. Se não for enquanto estou vivo, dispenso teus aplausos ainda que sejas o primeiro a aplaudir e o faças repetidamente. Se não for enquanto estou vivo, poupe os teus elogios ainda que sejam pertinentes. Se não for enquanto estou vivo, de nada me servirá a tua força ainda que seja na alça do meu ataúde. Se não for enquanto estou vivo, respeite pelo menos os que me foram leais. Eles  não merecem presenciar a tua hipocrisia.

Por fim, se não for enquanto estou vivo certamente orações terão mais valia do que eventuais homenagens à minha memória. Ademais, com ou sem homenagens póstumas os que me amam não me esquecerão e dúvidas eu não tenho: não abrirão mão da minha defesa para que a justiça, ainda que tardia, seja feita. E isso basta.        

Fernando Nogueira de Lima é Doutor em Engenheiro Elétrica e foi reitor da UFMT. 

(*) foto do https://pixabay.com/pt/

 

 

 

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