AS ENCRUZILHADAS DA VIDA
Onde estávamos nós, quando o futuro incerto,
caracterizado pela união da juventude, assustada e revoltada por causa dessas
encruzilhadas da vida em que a imbecilidade se encontra com a insanidade, em que
a disponibilidade se encontra com a facilidade de se obter, e dão-se as mãos -
que cheiram a sangue - para dar passagem à barbárie, ceifando, nas escolas,
vidas inocentes e indefesas com tanto ainda por sonhar e viver, quanto amar e
ser amado.
O que fazíamos nós quando nessas encruzilhadas da
vida em que a covardia se encontra com a impunidade, em que os interesses
escusos se encontram com a desvalorização da vida, e num maldito abraço - com
cheiro de morte - ceifam vidas de inocentes indefesos e de policiais
desapoiados e mal remunerados, nas calçadas e nas escadarias, nos colégios e
nos lares, nos morros e fora deles, no cotidiano deste nosso miserável existir.
O quanto estamos nós, indignados com essas
encruzilhadas da vida em que a ganância torna-se irmã siamesa da insensatez, em
que a ação potencialmente assassina se encontra com atitudes formais porém
imorais, e chafurdando no lodaçal da maldade humana – na busca de
moedas de sangue - ignoram a tragédia anunciada, fazendo jorrar uma torrente de
lama com rejeitos de mineração que se move com fúria arrastando tudo que
encontra, levando consigo inúmeras vidas e deixando um rastro de desolação, dor
e tristeza, além de muita revolta e razões para acreditar que mais tragédias
como essa ainda estão por vir.
O que achamos nós dessas encruzilhadas da vida
em que a encenação se encontra com a hipocrisia, em que a necessidade de
audiência se encontra com a certeza da incapacidade de se saber parte da massa
de manobra, e de mãos dadas diante da violência - cientes do malefício para a
sociedade - optam por priorizar o emocional coletivo em vez das reais causas
que ensejam este genocídio que assola o país, dificultando a compreensão dos
porquês da inércia vigente, contribuindo para transformar a vida em trágica e lamentável
estatística.
O que pode justificar o nosso conformismo
diante das encruzilhadas da nossa vida em que, pela ausência das perguntas
certas e de reflexões pertinentes, a mediocridade se encontra com a mesmice, em
que o egocentrismo se encontra com a cobiça, e de braços dados - quase que
espontaneamente com nossa ignorância- alagam nossos dias de inutilidades, de
insatisfações, de desavenças e da incapacidade de desejar e promover mudanças
ainda que pequenas, óbvias e necessárias, em nossas vidas e na vida de tantos
quantos nos querem bem.
O que falta acontecer para entendermos que
apesar das encruzilhadas que há na vida, é possível vislumbrar oportunidades
para espalhar o bem viver e fazer com que nossas vidas, em
retrospectiva, deixem de ser, aos nossos olhos, uma imagem desfigurada de nós
mesmos ou reflexos momentâneos e a mercê da ocasião e de hábitos, desejos e
dissimulações alheias, impedindo-nos de perceber que não há como colher as
dádivas do futuro se insistirmos em cultivar do passado só um punhado de
lembranças de tempos mal vividos e não superados, que tolhem o porvir -
cotidianamente e repetidamente - fazendo-nos reféns da síndrome de Carolina,
tão bem cantada nos versos da canção popular de outrora.
O que pode ser feito para, afinal, constatarmos
que na construção de um futuro menos incerto, no trilhar pelas encruzilhadas da
vida, devemos ser capazes de dizer sim à autoestima e à clemência, e de dizer
não ao egoísmo, ao querer ter desmedido e aos preconceitos - do alheio e de nós
mesmos - pois, assim, enxergando o outro e a si mesmo é que despertaremos a
capacidade de dizer sim ao amanhã desejado que, embora possível nunca venha e a
coragem de gritar não ao amanhã que nunca virá, das vidas covarde e
irremediavelmente interrompidas que não podem ter sido em vão, tampouco devem
ficar impunes vida a fora.
Fernando
Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT.
(*) foto
do https://pixabay.com/pt/

Comentários
Postar um comentário