Num
passado distante, quando os jovens despertavam desejos para a prática do sexo
era comum ouvir de um dos membros da família o seguinte alerta: tenha juízo e
não se envolva com mulheres casadas. Nem mesmo quando houver aquiescência do
marido porque se a relação vier a lume, ele, guiado, pela hipocrisia, terá
lapsos seletivos de memória e encenando indignação irá para cima de você,
disposto a lavar com sangue a honra colocada em suspeição.
Lembrei-me
do aviso contra o triângulo amoroso consentido por causa das atitudes e
condutas de autoridades, de políticos e de formadores de opinião sempre que o
malfeito caracterizado pelo uso indevido do erário público é denunciado. Diante
de tanta corrupção, agem como se nunca tivessem desconfiado ou tido
conhecimento dessa roubalheira.
E
haja lapsos seletivos de memória e encenações, revelando que a hipocrisia não
se cinge tão-somente às relações amorosas. Basta olhar em volta para constatar
que ela abunda espalhando no ar dos poderes constituídos, dos meios de
comunicação tradicionais, das redes sociais e do cotidiano da sociedade em
geral este, digamos assim, odor fétido que somos forçados a sentir diariamente.
E, entretanto, verdade seja dita: poucos são os que se incomodam com este
fedor.
Em
vez disso, uns se prestam a compartilhar gracejos e inverdades que não
contribuem para minorar o mau cheiro. Movidos pelo interesse de perpetuar a
fedentina, outros elaboram pautas que superabundam nas interpretações de
personagens que invadem nossos lares com o propósito de nos distrair. Há também
os donos da verdade os desejosos de fama virtual -celebridades do passado e
anônimos de hoje, com manifestações que desprezam o bom senso ou até mesmo o
senso de ridículo, e ainda assim, acreditam que estão contribuindo para limpar
a sujeira.
Protestar
em eventos musicais, decerto, não basta para mudar este estado de coisas. A realidade
está a exigir um choque de sinceridade, tipo papo reto, que seja capaz de
inibir a ação dos que se locupletam com o poder, relativizando a honestidade
como se fosse possível medi-la em escalas. Não sei vocês, mas estou farto de
discussões estéreis, de desocupados teleguiados e dos que utilizam o mandato
para enganar os incautos, para praticar encenações midiáticas ou para promoção pessoal
– com postagens e pronunciamentos vazios de propósitos para o bem comum.
Este
fazer política, com tanta hipocrisia e tamanha estupidez, a meu sentir, carece
de resposta tipo aquela da linda e talentosa atriz que na novela, em horário
nobre, mandava, para deleite de todos, uns: vai te lascar. E mais, está a
justificar atitudes que revelem destemor, dedo em riste, e palavras ajustadas a
cada situação. É que, fora da barbárie, tem que haver limites racionais para
fazer valer esta ou aquela opinião, seja ela em prol da situação ou da
oposição, esteja calcada em convicções ideológicas ou fincada na areia movediça
da imbecilidade ou da conveniência.
É
provável que os defensores do politicamente correto discordem da adoção dessas
atitudes. Eu que não sou partidário de classificações inócuas fico aqui
concebendo a hipocrisia que há em autoridades e em políticos que se comportam
dentro da atitude dita politicamente correta. Não raro, nas suas falas
adornadas por mímicas ou sem gesto algum – nem mesmo facial, explica,
justificam, prometem e tergiversam, mas, na prática, o que estão a dizer é:
dane-se o povo.
Urge
persistir, como anteparo ao espargir da hipocrisia e da alienação em massa,
noutras formas de pensar e de agir na perspectiva da consciência desperta que
permite distinguir entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, entre a
honestidade e a canalhice. Insistir em apontar na direção errada, depreciar as
instituições, imputar o imputável ou negar o inegável só contribui para
aumentar os excrementos já espalhados e os prejuízos para a população,
decorrentes deles.
A
continuar nesta toada vigente nos eventos musicais e nos meios de comunicação,
nos poderes constituídos e nos desacreditados partidos políticos, nas eleições
e no exercício do voto, resta-nos prender a respiração, se conseguirmos e o quanto
pudermos, porque, certamente, a podridão continuará escorrendo por baixo das malcuidadas
pontes da nossa jovem democracia e não haverá, daqui a um tempo, água
suficiente para dar descargas e eliminar toda esta putrefação.
No
mais, embora acredite no poder da mobilização do povo, tenho receio de que essa
disputa para pontar se é a dita direita ou a dita esquerda que consegue levar
mais gente às ruas esteja fadada a tornar-se, apenas e em vão, uma extensão das
posições antagônicas e inconciliáveis estimuladas nas redes sociais. Que
tenhamos, pois, a sensatez de não esquecer que é a quantidade de votos nas
urnas e não de pessoas nas ruas, que outorga mandatos populares.
Fernando
Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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