A COMUNICAÇÃO NA ERA DIGITAL

Fernando Nogueira de Lima

Houve um tempo em que a comunicação entre os que viviam distantes, uns dos outros, se dava via o rufar de tambores ou de sinais de fumaça. Outrora, no interior do país, disparava-se tiros de espingarda no pátio da morada: dois quando nascia uma menina e três quando nascia um menino, para informar aos vizinhos distantes o nascimento e o sexo do rebento.

Em 1835, a criatividade permitiu a comunicação por meio de código, utilizando um sistema que representava letras, números e sinais com apenas uma sequência de pontos, traços e espaços. A transmissão do código se dava de diferentes maneiras em pulsos (tons) curtos e longos: pulsos elétricos, ondas mecânicas, sinais visuais e sinais de rádio.

Os estudos sobre eletricidade, no século XVIII, propiciaram a invenção do telégrafo, instrumento ligado por fios e eletroímãs, baseado na emissão de impulsos eletromagnéticos que enviava mensagens a longas distâncias. É considerado uma das grandes revoluções dos meios de comunicações por ser um dos primeiros sistemas modernos de comunicação. Foi preterido na primeira metade do século XX com o surgimento e disseminação do telefone.

É, portanto, recente o tempo em que a comunicação se dava via telegramas ou, mais comumente, via cartas que eliminava as distâncias e reduzia a saudade entre os amantes, inclusive. Também é recente o uso em massa do telefone tendo em vista que, no princípio, devido ao custo envolvido tal tecnologia não era acessível a todos. Era comum ficar numa enorme fila para adquirir aparelho telefônico como investimento, não para uso corriqueiro.

Os avanços da ciência e da tecnologia permitiram, no século XX, o surgimento dos computadores e na esteira deles a internet que se tornou um dos principais meios de comunicação via redes: eletrônica, sem fio e óptica. Há menos de 30 anos somente os especialistas e gênios vislumbravam o que ocorre hoje na comunicação entre os indivíduos, ou seja, as distâncias inexistem e o contato entre as pessoas se dá quase que instantaneamente.

Mas, é preciso destacar que essa tecnologia nem sempre é utilizada como instrumento da verdade e do bem comum. E isso, creio eu, pode explicar, em parte, a crescente legião de pessoas previsíveis, superficiais, mal informadas, sem noção da realidade e que se prestam à dissimulação, à discórdia inócua, ao desejo compulsivo de acompanhar a vida alheia, sobretudo por meio de postagens repletas de mentiras inventadas por pessoas infelizes.

Não bastasse, perdem a noção do que é cômico e do que é trágico, incluindo risos ou gracejos quando se referem ao infortúnio alheio como se tudo na vida fosse hilário. Há mais, vivenciam futilidades que contribuem para despertar ou aprofundar insatisfações pessoais. E por conta da dependência do celular, se isolam do mundo real sem enxergar que o hábito de se conectar em excesso, além de acarretar sérios riscos à saúde pode causar graves acidentes domésticos. 

Então, o que dizer de quem assume ser assassino em potencial ao manter o celular próximo das mãos, ou nas mãos, enquanto dirige, expondo a risco sua vida e a de tantos quantos fiquem ao alcance de sua irresponsabilidade. Ignoram que ao mirar na direção certa após um simples olhar para ver quem está ligando, o cérebro demanda cerca de 25 segundos para desligar do celular e da informação advinda dele, ou seja, tempo suficiente para que ocorra uma tragédia.

No mais, acho que esta tecnologia ao invés de aproximar as pessoas é capaz de afastá-las em determinadas etapas da vida, nas quais é importante encontrar e alimentar bons motivos para se continuar juntos de modo a evitar que, sob o mesmo teto e respirando o mesmo ar, parentes ou casais outrora apaixonados coexistam como se fossem estranhos ou antagonistas birrentos.

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e foi reitor da UFMT

(*) foto do https://pixabay.com/pt/  

 


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