HÁ LUZ NO FINAL DO TÚNEL

Não, não é verdade que estamos todos desejando participar do processo de imunização. Digo isso, porque há poucos dias assisti a duas entrevistas com jovens brasileiros, um residente em Moscou e outro em Londres, cidades em que a vacinação já teve início.

O estudante de Moscou, não se sente à vontade para ser vacinado porque os dados disponíveis sobre a vacina são insuficientes. Informou que catorze colegas russos não têm interesse em se cadastrar para participarem da imunização. O entrevistado de Londres afirmou que a população está receptiva e participando do processo de vacinação. Disse estar seguro, mas, está propenso a ceder sua vez para outras pessoas com maior risco do que ele.

Acrescente-se a isso, o fato de que os Estados Unidos da América estão prontos para imunizar 20 milhões ainda este ano. E embora a aceitação venha aumentando, quatro em cada dez americanos ainda dizem que não pretendem se vacinar. E desses avessos à imunização, metade admite tomar sua dose depois que outros o fizerem.

Não, não é verdade que mundo afora a vacinação será ou tem sido obrigatória, devido ao direito coletivo à saúde. A obrigatoriedade de imunização, contudo, não pode afastar o bom senso e a razão que apontam para menos politização e mais ações para conscientização da coletividade, incluindo manifestações favoráveis e o exemplo de líderes com credibilidade.

Nessa esteira, alguns chefes de Estado, já anunciaram que tomarão o imunizante publicamente, como forma de incentivar a campanha: o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson que aliás, já contraiu a COVID-19, os ex-presidentes americanos Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton. A vacinação também tem o apoio do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, e do presidente argentino, Alberto Fernández.

Não, não é verdade que há por aqui interesse generalizado nos poderes federativos para que a vacinação seja obrigatória, com o propósito de salvar vidas. Antes disso e até à margem disso a atenção está voltada para os recursos que serão disponibilizados e para alimentar as narrativas que são concebidas com o propósito de aumentar a fervura do caldo político, até mesmo para fazer a panela explodir de tanta pressão, com vistas ao próximo pleito eleitoral.

Nesse contexto, resta-nos aguardar o processo de imunização, acreditando na necessária imparcialidade da ANVISA, independentemente do regime político dos países que financiaram as pesquisas e dos atores que as produziram. E quiçá possamos presenciar as lideranças e os formadores de opinião, defensores da obrigatoriedade, usando o exemplo como estratégia de convencimento, vacinando-se, ao vivo, junto com seus familiares.

Não, não é verdade que a ciência já deu todas as respostas relativas à segurança e a eficácia dessas vacinas. Pelo que li, embora os dados sejam muito promissores, ainda teremos que esperar algo em torno de um ano, depois da vacinação, para saber se há proteção de longo prazo e, por enquanto não é possível afirmar que a vacina impede a disseminação do vírus.

Além disso, o início da imunização em curso, devido à emergência, não observou o período usual entre a vacinação dos participantes dos ensaios clínicos e a autorização da vacina, para avaliar os potenciais benefícios e os riscos para a saúde. Há, pois, espaço para dúvidas.

Não, não é verdade que não existam em muitos países, cidadãos que não confiam nos governos e por consequência não confiem no sistema, nos cientistas e nas vacinas. Todavia, apesar das incertezas, eu fico com a cientista francesa Marie-Paule Kieny, uma das pessoas que mais sabem sobre vacinas no mundo, que afirma: “As vacinas não vão deter milagrosamente a pandemia. Mas se não apostarmos nelas, que alternativas temos?

Fernando Nogueira de Lima é doutor em engenharia elétrica e ex-reitor da UFMT

(*) foto do https://pixabay.com/pt/  

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