A VELHICE DE CADA UM
No dicionário informal disponível na internet é possível identificar os seguintes sinônimos para a palavra velhice: senilidade, idade, antiguidade e vetustez. O termo velhice também está associado a: bolor, caducidade, caduquice, caruncho, decrepitude, senectude, geada, inverno, longevidade e, senioridade. Confesso que alguns desses termos eu nem conhecia.
Numa reflexão despretensiosa calcada na minha memória auditiva, entendo que o termo bolor se presta para indicar o estado de conservação de certos alimentos. Geada e inverno para definir os cabelos brancos que, outrora, era característica apenas de pessoas idosas. As palavras caducidade e caduquice têm sido mais associadas à perda gradativa de memória.
Gostei da palavra vetustez que é característica de idade excessivamente avançada, velho ou antigo, o que por extensão também serve quando ao excesso de idade se atribui respeito e venerabilidade - alguém vetusto. Também senti simpatia pelo termo senioridade quando ele é usado para expressar antiguidade e experiência no fazer, atribuindo-lhes valor positivo.
O termo caruncho significa coisa velha, pois é uma designação genérica dos insetos e suas larvas que perfuram cereais, madeira e livros. Esse termo não me agradou porque associa o envelhecer a coisas que, consumidas pelo tempo, se tornaram imprestáveis. Eu também não gostei de decrepitude e de senectude que significam coisa muito antiga, algo obsoleto ou em desuso, e que serve para expressar um estado de adiantada velhice, muito velho e arruinado.
Deixando de lado a riqueza do idioma pátrio, abraço um entendimento que li quando jovem, possivelmente na revista Seleções, qual seja, que você saberá que está velho quando ao olhar o horizonte, em vez de sonhos enxergar somente recordações. E não importando que sejam boas ou más recordações, fato é que você já não abre os olhos para o futuro entrar.
Neste raciocínio lógico, quando a velhice vem repleta de boas recordações traz junto a sensação do dever cumprido e de resignação. Traz também o sentimento de paz e de gratidão. Ao contrário, quando a velhice carrega apenas más recordações, traz junto a sensação de medo e de insatisfação, além dos sentimentos de angústia e de ressentimento.
Não sei até quando, mas, ao olhar o horizonte o faço aguçando a curiosidade e imaginando o que existe para além da casa dos saberes e da imensidão do mar, a espera de ser encontrado, de vir a lume, de ser internalizado. Assim, viajo para dentro de mim e para o mundo em minha volta, na busca de causas para continuar sendo e me sentindo útil na vida.
A propósito disso, o cotidiano em tempos de pandemia revelou-me que no caminhar na direção da longevidade plena, é preciso ficar atento à fração de segundos que é o tempo em que o impulso de falar, sem pensar, pode ser contido para não reclamar, não retrucar e não fazer comparações desnecessárias – elogiosas ou não. Acrescente-se a isso, o que encontrei numa postagem: Você não pode se curar no mesmo ambiente em que adoeceu. Retire-se.
No mais, deixo aqui, para pensar na cama, frases pinçadas de filmes ou documentários que, por alguma razão momentânea fui escrevendo numa folha de papel, neste 2020: Vivemos na atmosfera da morte, mas estamos vivos. Vivemos todos em nossa própria realidade. Nunca é tarde para se libertar. Limpe estas nuvens sobre você e verá as coisas como realmente são. O que nos definem não são as lembranças e sim o que fazemos; não nos apeguemos a elas.
Fernando Nogueira de Lima é engenheiro eletricista e foi reitor da UFMT
(*) foto do https://pixabay.com/pt/

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