QUEM AMA CUIDA

Há muito tempo, escrevi num dos meus textos a frase que ouvira de um amigo: “depois que temos filhos, notícias sobre crianças e jovens nos atingem como se falassem deles”. Hoje sei que isso também se dá com relação aos netos. Naquela oportunidade eu discorria sobre perdas de pessoas amadas. Neste texto, o enfoque é a cautela em prol da preservação da vida e do equilíbrio emocional das crianças que amamos, sejam elas filhos ou netos.

Antes de entrar no objetivo central deste texto, registro que durante anos eu ouvi dizer que quando temos os netos, descobrimos que os amamos mais do que aos nossos filhos. Também me acostumei a ouvir que os avós, antes severos com os filhos, são sempre afáveis com os netos. Depois que me tornei avô, constatei que essas afirmações não me pertencem.

Esclareço: amo meus netos e minha neta tanto quanto amo minhas filhas e meu filho. Nem mais nem menos. A diferença é que no amor pelos pequeninos, há um algo especial que não consigo expressar com palavras e que se reafirma quando contemplo a felicidade estampada no rosto das minhas filhas e do meu filho, por conta da existência deles.

Além disso, nenhum avô pode ser mais carinhoso e atencioso para com os netos do que tenho sido para com os meus. Contudo, isso não me impede de ser severo no falar com eles, por vezes, de forma não comedida. A diferença em relação ao comportamento de outrora é que a maturidade me permitiu compreender que nenhuma chamada de atenção pode ser maior do que a consciência do erro cometido, por quem o cometeu. E isso me faz pedir desculpas.

Dito isso, retornemos ao propósito deste texto que é tentar proteger os pequeninos da perversidade que há em determinados indivíduos, que são lobos em pele de cordeiro:

Quando criança fui orientado para não entrar em carros de desconhecidos e, vida afora, repeti essa frase para proteger as crianças. Mas, um vizinho - com filha na faixa etária da minha primogênita era um desses lobos e foi condenado por violentar e matar uma menina de onze anos que entrou, sabe-se lá por que, no carro que ele dirigia. A regra, então, passou a ser: não pegue carona com ninguém e mesmo que seja pessoa conhecida não aceite e se afaste dela. Hoje, eu acrescentaria que, mesmo sob ameaças, jamais entrem no carro e corram para longe.

Noite dessas, assisti a um filme em que determinada pessoa de uma creche, dava vazão aos seus instintos bestiais torturando psicologicamente os pequeninos, mormente três deles que ficaram com sequelas pelo resto da vida. O que ela dizia para envolvê-los serve para alertar nossas crianças, ou seja, se alguém pedir para guardar segredo, para prometer algo ou para ficar a sós, não concorde e conte para seus pais. Igualmente, se pedir para fazer carinho, tocar as partes íntimas ou para tirar a roupa, não concorde e conte para os seus pais.

Como ninguém tem bola de cristal é preciso se precaver, também, contra a violência que pode ser praticada por certas babás ou cuidadoras eventuais. Para tanto, as crianças devem ter a mesma a conduta descrita anteriormente. Em se tratando de crianças todo cuidado é pouco, pois, são muitas as situações e ambientes em que elas ficam expostas ao perigo. Por isso, é imprescindível assegurar que cada uma delas seja educada e esteja preparada para não se intimidar em hipótese alguma e, sabendo o porquê dizer, não ter receios de contar aos pais.

Li há pouco no FACEBOOK, sobre uma menina de sete anos que foi abusada e morta pelo padrasto. Isso já ocorreu antes e por certo ainda irá ocorrer em outras famílias. Não raro, por amor cego, temores inconsequentes ou conivência cruel, mães deixam as filhas e os filhos à mercê de potenciais assassinos - parentes próximos, inclusive. E o final é sempre trágico. Nesse universo de tragédias é crescente o abuso de vulneráveis. Muitas dessas crianças engravidam, tornam-se mães e continuam sendo abusadas impunimente em seus lares.

Finalizo este texto, acrescentando que sempre fico com um pé atrás e desconfio de pessoas muito caladas, de poucos e comedidos sorrisos, que nunca dão uma gargalhada e que têm dificuldades para interagir. Na juventude, conheci alguém assim que, tempos depois, em um dia como outro qualquer, chegou do trabalho e matou a esposa e a filhinha com instrumento cortante. Evadiu-se e durante o sepultamento delas, se enforcou em uma árvore no cemitério.

Fernando Nogueira de Lima é engenheiro eletricista e foi reitor da UFMT

OBS: A violência contra a criança, além de ser um ato de covardia é crime. Portanto, deve ser denunciada:  Disque 100, a ligação pode ser feita de telefone fixo ou celular e é gratuita; Aplicativo “Proteja Brasil”, disponível para smartphones e tablets. Conselho Tutelar, a denúncia pode ser feita por telefone ou pessoalmente; Delegacias de Polícia, comuns ou especializadas e, em caso de urgência disque 190 e fale com a Polícia Militar.

(*) foto do https://pixabay.com/pt/  

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